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sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A vida renasce, sempre


A trajetória de Sonia Gomes como artista visual está centrada na noção de recomeço. Atualmente baseada em São Paulo e nascida na cidade de Caetanópolis, em Minas Gerais, a sua obra lida com a experimentação e apropriação de materiais que anteriormente poderiam ser vistos como pouco importantes. Nas suas mãos, porém, eles se transformam na superfície e estrutura de objetos de formas orgânicas que brotam da mesa e paredes de sua casa-ateliê e, posteriormente, ocupam as diferentes arquiteturas de museus e galerias.

Esta exposição antológica traz trabalhos de diferentes momentos de um percurso que já possui décadas, mas que nos últimos quinze anos tem recebido o reconhecimento merecido. Suas primeiras criações giravam em torno de objetos feitos diretamente para o corpo humano, como joias, e bolsas. O modo como a artista criou essas peças foi a partir de pedaços de tecidos que, uma vez costurados, carregam um contraste de cores e texturas. Mais do que isso, o modo como Sonia Gomes realiza seu trabalho não impõe nenhuma barreira quanto à qualidade e temporalidade das matérias utilizadas; interessa a ela a reunião de diferentes pátinas do tempo que esses aglomerados de muitas origens podem oferecer.



A mostra traz algumas obras essenciais de sua trajetória que possuem títulos como “Casulo”, “Colmeia” e “Lugar”, denotando seu interesse por uma poética da intimidade e do aconchego. A busca existencial pela noção de lar e sua pesquisa plástica pautada quase sempre por formas abstratas se cruzam no salão central do MAC Niterói. As “Torções”, uma de suas séries icônicas, são objetos que trazem ao público uma prática baseada na experimentação de diferentes tamanhos e cromatismos, mas sempre em respeito à escala de seu próprio corpo. Mesmo os seus pendentes – obras instaladas diretamente no teto – parecem negar a monumentalidade e convidam a notar detalhes que ativam a imaginação temporal do espectador. Por fim, apresentamos uma de suas obras mais recentes, “Maria dos Anjos”, presente na última edição da Bienal do Mercosul. De fatura quase monocromática, a artista disseca um vestido de noiva doado ao seu ateliê. O uso original dessa roupa ganha um novo sentido quando transformado em uma instalação que dança de acordo com a arquitetura em que é acolhida.


Na poética de Sonia Gomes, as formas, cores e materiais estão em constante movimento – seja pelo seu balanço no espaço, seja pelo ritmo com que nossos olhos percorrem suas texturas. Da mesma maneira, sua produção nos obriga a nos mover criticamente e evitar qualquer enquadramento entre o erudito e o popular. Sua obra se encontra para além da ansiedade da classificação e nos desafia a exercitar nosso corpo e olhar de maneira contínua – assim suas imagens renascem sempre aos nossos olhos, assim percebemos nossas vidas em constante transformação.

(texto curatorial relativo à exposição "A vida renasce, sempre", de Sonia Gomes, realizada no Museu de Arte Contemporânea de Niterói entre agosto e novembro de 2018)

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