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sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Brinquedo de furar moletom


As histórias do colonialismo na América Latina e seus reflexos traumáticos na contemporaneidade são um dos núcleos de interesse de Jaime Lauriano. Nascido e baseado na cidade de São Paulo, o artista tem desenvolvido diferentes trabalhos em que seu olhar crítico se volta para as narrativas da violência no Brasil, em especial no que diz respeito à população negra em um arco temporal que vai do tráfico negreiro à resistência atual das comunidades quilombolas.

Sua proposta de ocupação da varanda do MAC Niterói dá prosseguimento ao histórico recente de projetos curatoriais que pensam a especificidade de um museu que apresenta uma vista panorâmica para a Baía de Guanabara. Partindo de sua posição, o artista reflete sobre o lugar ocupado historicamente no imaginário cartográfico dessa localização: área portuária que foi território de invasões, batalhas e fortalezas que tentaram assegurar a integridade do Brasil colonial. Esses episódios históricos foram sobrepostos a outros em que o conflito foi – e ainda é – palavra de ordem no estado do Rio de Janeiro: a ditadura militar e a violência policial dos últimos anos.



O artista propõe uma pequena barricada como ocupação da varanda. Esse muro é feito com tijolos popularmente chamados de “tijolos coloniais”, adquiridos em olarias e resultado de um processo de feitura que remete à história da construção civil no Brasil. Acima desse longo muro que ocupa três galerias do espaço, miniaturas de transportes relacionados ao militarismo, à defesa e à violência.

Três caravelas, um tanque, um avião de guerra e vinte e sete miniaturas de carros da polícia militar pousam sobre os tijolos como se defendessem o espaço interno do museu. Essa ronda diminuta representa as vinte e sete capitais do Brasil e teve seus modelos extraídos de automóveis comumente utilizados pela polícia militar: o caveirão (Rio de Janeiro), a base móvel da Polícia Militar de São Paulo e quatro modelos populares (Palio, Gol, Fiat Uno e pick-up). Balas de armas utilizadas por policiais foram coletadas em diferentes cidades do Brasil e constituem a matéria que compõe essas réplicas.


O título da exposição foi extraído da música “Vida loka parte 1”, do célebre grupo paulistano de rap Racionais MCs. Do álbum “Nada como um dia após o outro dia”, de 2002, se trata de um verso que joga justamente com um dos elementos essenciais da proposta de Lauriano: os limites entre violência e infância, entre miniaturas de brinquedos e munição militar. Onde começa um e termina o outro? Até quando brincar de “polícia e ladrão” será visto apenas como mais uma brincadeira infantil?

(texto curatorial relativo à exposição "Brinquedo de furar moletom", de Jaime Lauriano, realizada no Museu de Arte Contemporânea de Niterói entre agosto e dezembro de 2018)

A vida renasce, sempre


A trajetória de Sonia Gomes como artista visual está centrada na noção de recomeço. Atualmente baseada em São Paulo e nascida na cidade de Caetanópolis, em Minas Gerais, a sua obra lida com a experimentação e apropriação de materiais que anteriormente poderiam ser vistos como pouco importantes. Nas suas mãos, porém, eles se transformam na superfície e estrutura de objetos de formas orgânicas que brotam da mesa e paredes de sua casa-ateliê e, posteriormente, ocupam as diferentes arquiteturas de museus e galerias.

Esta exposição antológica traz trabalhos de diferentes momentos de um percurso que já possui décadas, mas que nos últimos quinze anos tem recebido o reconhecimento merecido. Suas primeiras criações giravam em torno de objetos feitos diretamente para o corpo humano, como joias, e bolsas. O modo como a artista criou essas peças foi a partir de pedaços de tecidos que, uma vez costurados, carregam um contraste de cores e texturas. Mais do que isso, o modo como Sonia Gomes realiza seu trabalho não impõe nenhuma barreira quanto à qualidade e temporalidade das matérias utilizadas; interessa a ela a reunião de diferentes pátinas do tempo que esses aglomerados de muitas origens podem oferecer.



A mostra traz algumas obras essenciais de sua trajetória que possuem títulos como “Casulo”, “Colmeia” e “Lugar”, denotando seu interesse por uma poética da intimidade e do aconchego. A busca existencial pela noção de lar e sua pesquisa plástica pautada quase sempre por formas abstratas se cruzam no salão central do MAC Niterói. As “Torções”, uma de suas séries icônicas, são objetos que trazem ao público uma prática baseada na experimentação de diferentes tamanhos e cromatismos, mas sempre em respeito à escala de seu próprio corpo. Mesmo os seus pendentes – obras instaladas diretamente no teto – parecem negar a monumentalidade e convidam a notar detalhes que ativam a imaginação temporal do espectador. Por fim, apresentamos uma de suas obras mais recentes, “Maria dos Anjos”, presente na última edição da Bienal do Mercosul. De fatura quase monocromática, a artista disseca um vestido de noiva doado ao seu ateliê. O uso original dessa roupa ganha um novo sentido quando transformado em uma instalação que dança de acordo com a arquitetura em que é acolhida.


Na poética de Sonia Gomes, as formas, cores e materiais estão em constante movimento – seja pelo seu balanço no espaço, seja pelo ritmo com que nossos olhos percorrem suas texturas. Da mesma maneira, sua produção nos obriga a nos mover criticamente e evitar qualquer enquadramento entre o erudito e o popular. Sua obra se encontra para além da ansiedade da classificação e nos desafia a exercitar nosso corpo e olhar de maneira contínua – assim suas imagens renascem sempre aos nossos olhos, assim percebemos nossas vidas em constante transformação.

(texto curatorial relativo à exposição "A vida renasce, sempre", de Sonia Gomes, realizada no Museu de Arte Contemporânea de Niterói entre agosto e novembro de 2018)