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terça-feira, 23 de outubro de 2018

Copydesk


Na primeira vez em que estive no ateliê de Eloá Carvalho, em 2014, uma frase me chamou a atenção. Conversando sobre a sua pesquisa com a pintura, questionei se ela se intitulava “pintora”. Sua resposta foi “Eu trabalho também com pintura” – ou seja, a técnica se trata de um de seus interesses dentre outros. Após estar ao seu lado durante o processo que culminou nessa exposição individual, sua afirmação ecoava em nossas conversas.

É curioso notar que sua prática está pautada em um método investigativo onde as exposições são o resultado de pesquisas que se dão de maneira site specific. É essencial para a artista que o ato expositivo seja visto como a conclusão temporária de um período de mergulho em narrativas, imagens e espaços específicos. Expor não se trata de meramente reunir “trabalhos novos”, mas se aproxima da defesa pública de uma investigação. Bons exemplos são três de suas exposições individuais que dialogaram com espaços institucionais: “Mise em scène” (2013, sobre a Galeria IBEU), “Como se os olhos não servissem para ver” (2015, sobre o Palácio do Catete) e “Todo ideal nasce vago” (2016, sobre o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro).



“Copydesk” se caracteriza, porém, por uma investigação que se dá a partir de um tópico e não de um lugar; a exposição tem como ponto de partida a afeição da artista pela literatura e pela possibilidade das palavras serem associadas a imagens – e vice-versa. Esse interesse já estava presente em outras de suas exposições, mas aqui ele se apresenta figurativamente com pinturas e desenhos onde vemos corpos concentrados em momentos de leitura.

Duas séries de trabalhos trazem o corpo humano em preto-e-branco logo na primeira sala da C. Galeria. Em uma delas, o corpo inteiro de diferentes pessoas é desenhado com grafite e contrasta com o vazio da superfície do papel que se transforma em um fundo onírico para as ações. Já em outra série, de menor tamanho, em que pintura e desenho se misturam, a artista optou por destacar trechos do corpo humano e não nos fazer esquecer da gestualidade comum ao ato de se ler um livro – as mãos como apoio para o objeto, as pernas que se cruzam e frisam a concentração nas palavras, uma outra mão que apoia o queixo e a cabeça que lê.

Enquanto isso, na maior sala da galeria, a ocupação da parede se dá de forma menos linear; em diálogo com a arquitetura, a artista dispõe suas telas de escalas variadas para que o corpo do público se movimente de maneira mais ativa. Para aqueles que conhecem a fatura pictórica de Eloá, essas novas pinturas chamam a atenção devido ao destaque das inserções de cor. Quase sempre essas cores estão associadas às roupas ou a objetos presentes nas cenas pintadas. Alguns encontros entre tons de azul e de amarelo contribuem com que nosso olhar passeie de uma imagem para outra.


A palavra “copydesk” está associada à prática do jornalismo e da edição de textos; o copydesk é a pessoa responsável por revisar séries de textos e sugerir alterações. Em suma, o ato do copydesk é um ato de edição. Gosto de pensar que a produção figurativa da artista também aponta para essa direção visto que os trabalhos aqui mostrados são reflexo também de sua seleção inicial de fotografias encontradas dos livros impressos à profusão incessante de imagens na internet. Algumas dessas imagens foram encontradas pela própria Eloá, enquanto outras foram indicações de amigos. Com isso, a reunião de trabalhos cria um álbum efêmero que reúne corpos, biografias e lugares no mesmo espaço.

Há outro processo de copydesking central a essa exposição. A artista convidou um grupo de pessoas para enviarem cartas a respeito de suas relações com a leitura e os livros. Vinte e cinco cartas foram coletadas e os pontos de vista eram diversos – de textos sobre livros específicos a memórias da infância sobre a descoberta da leitura. Algumas cartas eram objetivas e pontuais, enquanto outras bem verborrágicas e apoiadas na autoficção. Esse material foi arquivado, revisado e dissecado por Eloá; recebidas por e-mail, as cartas se transformaram em documentos que preservavam tanto a sua duração, quanto opções de uso de fonte e diagramação.



Em um segundo momento, a artista atua como copydesk –em pequenas cirurgias, frases foram desmembradas, parágrafos reordenados e novas narrativas foram suturadas gerando outros textos. De sua mesa de edição nasceram outras duas séries de trabalhos. O primeiro, feito com desenho, destaca algumas das frases e as entrega ao olhar do público. Como diz um de seus papéis, “A história é sobre uma formiga que sonhava em voar” – o tamanho dela e a altura de seu voo fica a cargo de cada espectador. O outro trabalho que nasce dessa operação se trata da primeira experiência da artista com o uso do som. Somos convidados a escutar a voz de uma pessoa que lê um texto fruto da soma e divisão das cartas recebidas. O que é fragmento e o que é parte inteira nessas frases? Como separar um texto da especificidade do timbre de voz daquela que o lê? Qual o seu começo e qual o seu fim?


Se podemos afirmar que a pintura da artista sempre esteve pautada na dicotomia entre mostrar e esconder formas, há algo no uso do som – na sua ausência de visualidade materializada e na ausência da forma humana – que parece dar uma continuidade orgânica à sua pesquisa. Com isso nos lembramos daquela frase proferida por Eloá Carvalho – sua pesquisa contém a pintura, mas é maior do que a mesma. Enquanto público, aguardamos os novos frutos de sua mesa de edição de histórias, imagens e sons.

(texto curatorial relativo à exposição "Copydesk", de Eloá Carvalho, na C. Galeria, entre 18 de setembro e 27 de outubro, no Rio de Janeiro)

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