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quarta-feira, 18 de julho de 2018

Senhor dos caminhos




A pesquisa de Ayrson Heráclito no campo das artes visuais se desenvolve há mais de três décadas. Baseado em Salvador, na Bahia, não é exagero dizer que o artista é um dos pioneiros na investigação das relações entre as culturas afro-brasileiras e a criação de imagens na contemporaneidade. Inicialmente trabalhando com desenho e pintura, logo no final dos anos 1980 o artista começa sua experimentação com performance e instalações. Aos poucos, a fotografia e o vídeo surgem tanto como registro de ações efêmeras, quanto como mídias em que são desenvolvidas narrativas no limite entre documentação e ficção.

“Senhor dos caminhos” é a primeira exposição individual do artista no estado do Rio de Janeiro. Trata-se de uma homenagem ao orixá Ogum, reconhecido nas religiões afro-brasileiras como aquele que abre caminhos. Ferreiro, senhor das guerras e da agricultura, Ogum é transformado no sincretismo católico na figura de São Jorge e, portanto, é uma das deidades afro-brasileiras mais celebradas – especialmente no Rio de Janeiro. Já na Bahia, o orixá é relacionado a Santo Antônio. Com esse projeto, Ayrson segue com seu interesse em torno das maneiras de recodificar no presente elementos sagrados das religiões africanas. Há um interesse de sua parte em rituais, espiritualidade e transcendência, mas sempre a afirmar também um lugar urbano e precário.




Esses elementos são perceptíveis nos trabalhos em vídeo e fotografia em que diferentes facetas de Ogum são citadas. Ao centro, uma videoinstalação nova justapõe um trem e um ferreiro. Matéria, fogo, suor e velocidade são seu núcleo. Compondo a instalação, uma toalha de crochê, panelas e pratos de Nagé surgem como resquícios de um ritual e de um banquete. A feijoada é uma das refeições mais relacionadas à figura de Ogum e esses objetos são, efetivamente, frutos de uma ação realizada na abertura em que o artista oferece ao público porções de uma feijoada para Ogum. Logo ao lado, o público pode relacionar esses objetos com imagens que mostram diferentes momentos do preparo da feijoada. Rituais, objetos e fisicalidade novamente são colocados nessa equação entre experiência real e presença virtual, entre ato religioso e ação para a câmera.

Outra série de trabalhos presente na exposição compartilha o desejo do artista quanto a um futuro com caminhos abertos, tempo para reflexão e esperança em mudanças. Essas fotografias e vídeos foram realizadas em uma viagem realizada pelo Senegal e trazem diferentes elementos naturais – a água, o ar e a terra. Os vídeos ganharam uma narração em que a voz do próprio Ayrson lê trechos do livro “História do futuro”, escrito em 1649 pelo padre português Antonio Vieira. O texto original faz um elogio ao império português, mas devido à sua linguagem libertária e cheia de teorias filosóficas, chegou a ser acusado de heresia. O artista se apropria de fragmentos da escrita de Vieira e cria as suas próprias histórias do futuro. O discurso catequizador e aniquilador das diferenças é, portanto, transformado em frases que desejam o diálogo, a observação da natureza e respeitam as dúvidas que a existência humana carrega em si.


Desejamos que essa exposição também leve o público a pensar em outros caminhos para o futuro junto a Ogum e junto às suas fés particulares. O próprio modo como Ayrson Heráclito opera com suas imagens, palavras e simbologias contribui para essa abertura cultural, existencial e espiritual. É como se costuma dizer popularmente: “os caminhos que Ogum abre, ninguém fecha”.

(texto curatorial relativo à exposição "Senhor dos caminhos", de Ayrson Heráclito, no Museu de Arte Contemporânea de Niterói entre os dias 14 de abril e 29 de julho)

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