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sábado, 21 de julho de 2018

Água parada


As palavras que compõem o título da exposição de Vivian Caccuri – “Água parada” – possivelmente ecoarão no público uma das maiores preocupações da saúde pública no Brasil: a dengue. Ao pensarmos nessa doença tropical, é inevitável que uma imagem venha à nossa mente: a temerosa figura do mosquito que a transmite.

Nos últimos anos, a artista tem investigado as relações de veneração e medo proporcionadas pelos mosquitos em diferentes culturas, em especial no Brasil e no continente africano. Responsável pela transmissão de diversas doenças em tempo recorde, o mosquito tende a incomodar as pessoas devido ao seu zumbido que anuncia a possibilidade de receber uma picada e faz com que nossa resposta física seja imediata.




Dando continuidade à sua pesquisa que tem como base a exploração do som e os efeitos ocasionados no corpo – em um arco de interesse que vai do silêncio ao ruído, passando também pela música – Vivian ocupa a varanda com uma série de elementos extraídos da cultura visual desse universo dos mosquitos. Os famosos fumacês – caminhões que lançam inseticida em gás com forte cheiro pelas ruas – são aqui relembrados com o uso de máquinas de fumaça. A apreensão da varanda do MAC fica nebulosa e impede uma visão cristalina tanto do espaço, quanto do cartão postal paisagístico que circunda o museu.

Luzes utilizadas originalmente para atrair mosquitos são espalhadas, assim como também redes de mosquiteiros são desfiadas e desenhadas no formato de paredões de som famosos como o Furacão 2000. Por fim, uma faixa de áudio composta especialmente para a exposição é espacializada através de falantes de som automotivos instalados em caixas de concreto. Feita a partir da mixagem de zumbidos com batidas de footwork, brega, tamborzão, funk e trap, lança a pergunta: qual o paralelo entre a música popular e o mosquito? A resposta é que os dois preocupam as autoridades a ponto de gerarem campanhas de controle, contenção e higienização – no Brasil, ambos são problemas análogos.




A experiência estética sugerida por Vivian Caccuri apela para os sentidos – assim como a simples presença desse inseto nos afeta vitalmente. A varanda do MAC Niterói se transforma em uma espécie de memorial (ou seria uma pista de dança?) nada convencional para o mosquito e para as doenças tropicais. Mais do que isso, a exposição se apresenta como resultado da pesquisa de uma artista para quem cada vez mais o significado cultural dos sons envolve também suas estruturas, ambientes e materiais: deve ser experimentado nas mais diversas formas. Longe das fronteiras das linguagens, há o desejo de arrebatar o público.

(texto curatorial relativo à exposição "Água parada", de Ayrson Heráclito, no Museu de Arte Contemporânea de Niterói entre os dias 14 de abril e 04 de agosto)
[fotografias de Juliana DiLello]

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