Páginas

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Linhas azuis


Podemos afirmar que a pesquisa de Danielle Fonseca se articula essencialmente na relação entre imagem e texto. Além de ser uma criadora dentro das chamadas “artes visuais”, a artista se caracteriza também pela sua produção como escritora.

Do seu bloco de anotações para as páginas de jornal, Danielle se mostra com uma sensibilidade capaz de articular o palavreado que coloca o leitor no meio da Marquês de Sapucaí (como no seu belo texto sobre a experiência de assistir ao desfile da Mangueira com um enredo sobre Maria Bethânia, em 2016) ou na escuta atenta da voz de Jards Macalé ao ler versos de sua autoria. Desses exemplos surge outro aspecto da construção de seu olhar: a relação com a música e, precisamente, sua admiração pela composição de letras.



Quando observamos alguns de seus trabalhos anteriores à exposição na Casa das Onze Janelas, o movimento pendular entre compor imagens e criar tensões com elementos literários se faz claro. Surfistas com um oceano de fundo são representados em algumas aquarelas e ao seu lado um carimbo diz “Silencio: personas que confian entre si” (2016); haveria algo mais silencioso do que a experiência solitária do surfe e a contemplação do mar? Em outra série composta por situações fotográficas e objetos, a artista produz caixas de cartas em metal (também 2016) com títulos que, novamente, mais intrigam do que entregam uma leitura óbvia – “Cartas & beija-flores milhares”, “Cartas doces & azedas” e “Palavra e água” são alguns. Seriam estas caixas tentativas de marcar o oceano como um território residencial ou um modo de lembrar o contraste entre a fragilidade do papel quando enfrenta a água e seu poder de esparramar aquilo que foi escrito?

Ambas as interpretações são possíveis. Essas imagens, porém, além de atestar a relação da artista com a textualidade, apontam para outras de suas obsessões: o oceano, o campo semântico das águas e o desejo humano de ser capaz de flutuar sobre as ondas. O encontro de águas sugerido por Danielle Fonseca se dá em uma pesquisa que se move entre o Rio de Janeiro natal da poetisa Ana Cristina César e as violentas águas da pororoca de sua Belém do Pará. A coloração dessas águas é bem diferente, mas na sua exploração há sempre o desejo de se manter em pé no movimento dessas ondas até sua inevitável queda e apneia.




É possível perceber nas fotografias, aquarelas e objetos relativos aos oceanos e ao surfe, a mesma potência ficcional de seus textos. Seus “Projetos de base mágica” trazem para a aquarela a combinação entre as pranchas de surfe e a madeira, tal qual os primeiros surfistas vistos pelos ingleses no Havaí, no final do século XVIII. Em seu olhar, porém, uma de suas “Bases mágicas para o artista enquanto surfista” (ou apenas “Extracorpos”) é uma citação à “Base do mundo” (1961), do artista italiano Piero Manzoni. Os tons de mogno das aquarelas são transpostos para a tridimensionalidade e surgem dessa experimentação pranchas grandes, pequenas e pés de patos que estão fora dos padrões anatômicos propostos pela indústria das atividades aquáticas.[1]

A artista, portanto, proporciona um pequeno rasgo na apreensão do real; o público é capaz de reconhecer nesses objetos a sua possível utilidade, mas o fato de serem de madeira, o primor técnico e estético com que são realizados e, claro, o seu formato, dão a entender que são um ensaio para um embate ficcional entre surfista e oceano. Surge a figura da artista-surfista, aquela que não separa em sua vivência o lazer do processo criativo (que pode ser visto como trabalho) e as esferas do que poderiam ser o “real” e o “ficcional”.



O interesse de Danielle Fonseca nas linhas azuis em movimento no mar e nas outras, as pautas, que são o solo da escrita, é algo perceptível em sua mais recente exposição. Intitulada “Posseidon é cabra, abelha e o movimento dos barcos”, se trata de uma ocupação de parte da Casa das Onze Janelas com uma videoinstalação. Dividido em duas telas, o vídeo, assim como seu título aponta, é estruturado em quatro partes.

É notória nessa pesquisa novamente o cruzamento de referências – Posseidon, animais (abelha e cabra, em uma referência ao signo de Capricórnio) e os barcos. A estrutura narrativa do vídeo é pautada na relação entre a humanidade e o mar – na primeira parte, relativa a Posseidon, homens se jogam de cima de pedras para o mar. No decorrer dos outros blocos, o surfe se faz presente até ao final vermos imagens de Karoline Meyer, campeã mundial de apneia, entrando em águas profundas. Enquanto as imagens mostram diferentes modos de se filmar o mar, a utilização do som é essencial para evocar tanto a literatura, quanto a música. As vozes de Péricles Cavalcanti, Jards Macalé, Waly Salomão e Maria Bethânia são escutadas e tendem a dividir com o espectador observações sobre o processo criativo de composição.

A água, esse elemento capaz de suscitar reflexões das mais diversas esferas e nos espaços mais isolados do mundo, começa a ser invocada através de Posseidon, mas pouco a pouco vai ganhando tonalidades locais e pode ser relacionada, por exemplo, às narrativas afro-brasileiras e à figura de Iemanjá. Não é à coincidência que o surfista pegando ondas que aparece no filme esteja trajando uma camisa que tem o rosto de Maria Bethânia; no panteão artístico de Danielle Fonseca (onde se entende “arte” como esse encontro entre texto, música e visualidade), a intérprete pode e deve estar do lado de Posseidon e de todos aqueles que desejam se aventurar acima do oceano e oceano adentro.



Esse projeto me parece apontar para outra paixão que compõe o olhar de Danielle: o cinema. Sua capacidade de criar narrativas que apresentam uma estrutura detentora de certo fio condutor, mas que ao mesmo tempo são construídas através de uma edição que mais sugere do que afirma, chama a atenção e, certamente, também pode ser relacionada a seus textos, aquarelas e objetos. Mais do que isso, as referências com as quais dialoga também prezam por essa abertura dos significados e por um tipo de fruição da imagem que se movimenta tal qual os barcos – sempre de acordo com o surpreendente desejo do vento.

Para onde o barco de Danielle Fonseca irá? Talvez nem Posseidon, nem Iemanjá saibam. Fica o desejo de que outras tonalidades de azul sigam a compor essas suas linhas e que novas experimentações nesse cruzamento entre linguagens e homenagens se façam presentes. Que as leituras acerca de suas obras sejam infinitas, assim como a ferroada de uma abelha.

(texto relativo à produção de Danielle Fonseca e à sua exposição "Posseidon é cabra, abelha e o movimento dos barcos", realizada na Casa das Onze Janelas, em Belém do Pará, entre 16 de dezembro de 2016 e 05 de fevereiro de 2017)


[1] Recentemente, ao realizar pés de pato em cerâmica, a estranheza foi mantida, mas agora de modo que a policromia pictórica aparece como dado a ser levado em conta.

Nenhum comentário: