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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

My body is a cage




“My body is a cage” retira seu título da música homônima da banda canadense Arcade Fire. Conforme dizem seus versos, “My body is a cage that keeps me / from dancing with the one I love / but my mind holds the key” (“Meu corpo é uma jaula que não me deixa / dançar com o meu amor / mas a chave está na minha mente”), ou seja, se trata de uma música que reflete sobre a inevitável prisão à qual todos os humanos estão condicionados biologicamente: o seu próprio corpo. Essa curadoria, portanto, lança luz sobre essa relação entre corpo, aprisionamento físico e possibilidade de libertação mental por meio de diálogos estabelecidos entre artistas que trabalham com linguagens diferentes e advém de gerações e geografias diversas do Brasil.

Onze artistas foram convidados para participar da exposição com imagens que refletem seus interesses de pesquisa em torno desses tópicos. Se para alguns deles a relação entre corpo humano e encarceramento se dá através da utilização de materiais que advém de certas tradições clássicas da história da arte (Carla Chaim, Daniel Lannes e Rodrigo Martins), outros parecem ter um interesse mais antropológico em olhar tanto para o corpo do outro, quanto para os seus próprios corpos (Eduardo Montelli, Igor Vidor, Tales Frey e Virgínia de Medeiros). Há também artistas que parecem contemplar o corpo como algo em um espaço limítrofe entre o humano e o animalesco, por vezes esbarrando no campo do grotesco e do abjeto (Raquel Nava e Zé Carlos Garcia) ou experimentando através da repetição e de ações físicas que beiram uma ausência de sentido imediato (Gabriela Mureb e Jorge Soledar).




Além dos trabalhos reunidos no espaço positivo, seis artistas foram convidados para realizarem ações a cada sábado da exposição nos turnos da tarde. Leandra Espírito Santo (29/10, abertura), Felipe Abdalla (05/11), Miro Spinelli (12/11), Antônio Obá (19/11), Elen Gruber (26/11) e Gabriela Mureb (03/12) apresentarão trabalhos que dialogam com o campo da performance, mas que também podem ser vistos como ampliações dos limites dessa linguagem com ações que convidam à participação do corpo do público, experimentam o som ou se configuram como ações banais onde a dramaticidade narrativa se faz ausente.

“My body is a cage”, portanto, se apresenta como uma primeira reflexão sobre um tema recorrente nas pesquisas que desenvolvo no campo da curadoria e da história da arte. Interessado na relação entre imagem e corporeidade a partir de pontos de vista diferentes –estudando, por exemplo, a produção de retratos na tradição clássica ou a tensão entre a inércia e a ação proporcionados pela oposição entre trabalho e repouso -, me parece ser um momento importante de aprofundar filosoficamente e em diálogo com os artistas acerca de distintos modos de conceber imagens em torno do corpo humano. Relações sociais em torno de gênero, raça e classe se fazem importantes e constituem pesquisas interessadas na construção de corpos não-hegemônicos. Se alguns artistas acreditam que o corpo humano está fadado ao fracasso e ao escancaramento de sua fragilidade carnal, outros enxergam nele a potência essencial para a mudança do status quo






Não interessa aqui, ao menos por agora, ser partidário de uma dessas posturas, mas de aprender com ambas. Temporariamente, fica a certeza de que, segundo o Arcade Fire diz, nossos corpos são jaulas – às vezes rugimos e espantamos os passantes, às vezes nos escondemos em uma toca e não saímos por nada.

(texto curatorial relativo à exposição "My body is a cage", realizada na Luciana Caravello Arte Contemporânea, no Rio de Janeiro, entre os dias 29 de outubro e 03 de dezembro de 2016)

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