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domingo, 4 de dezembro de 2016

Ivens Machado


Ivens Machado, artista brasileiro nascido na cidade de Florianópolis, em 1942, faleceu em maio de 2015. Vivendo no Rio de Janeiro desde 1964, começou a expor com regularidade e ganhar a atenção da crítica durante a década de 1970. Sem realizar exposições individuais desde 2011 – quando desenvolveu um grande projeto na Casa França-Brasil, no Rio de Janeiro –, o artista faleceu sem ter o reconhecimento internacional de parceiros geracionais como, por exemplo, Cildo Meireles. Conforme percebido de modo perspicaz pela galerista Marcia Fortes em texto de 2015[1], ele e o artista estadunidense Chris Burden faleceram na mesma semana e possuíam pesquisas claramente dialógicas. Triste notar os diferentes espaços ocupados por suas obras, certamente proporcionais às diferenças estruturais do sistema das artes visuais nos Estados Unidos e no Brasil. De todo modo, felizmente, aos poucos a obra de Ivens Machado é revista por diferentes curadores em espaços que convidam a experiências potentes de sua matérica obra.

Uma primeira oportunidade de rever sua obra se deu na cidade em que vivia há décadas e em um dos espaços responsáveis por sua institucionalização, ou seja, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Aberta em abril desse ano, a exposição intitulada “Ivens Machado”, com curadoria de seu amigo Fernando Cocchiarale, reunia obras da coleção do museu e da recém-formada organização Acervo Ivens Machado, em processo de catalogação e rastreamento de suas obras. Recentemente, o público de São Paulo também foi presenteado com a possibilidade de percorrer um recorte da produção do artista a partir da exposição “O cru do mundo”, com curadoria de Kiki Mazzucchelli no Pivô, já importante espaço independente para as artes visuais na cidade. Como o texto da curadora bem lembrava, a última grande exposição do artista na cidade se deu em 2002 (na Pinacoteca de São Paulo) e, portanto, essa exposição era importante para dialogar com gerações mais jovens que não conheciam sua trajetória.



Um dado que chamava a atenção rapidamente era o diálogo entre os materiais utilizados por Ivens e a arquitetura do Pivô – sendo o espaço integrante da arquitetura do Edifício Copan, prédio projetado por Niemeyer entre 1952 e 1961, há uma clara relação entre os materiais de construção civil manipulados pelo artista e o concreto que domina a expografia. O caráter icônico de suas obras ficava ainda mais claro devido à opção curatorial de deixar grandes espaços de respiração entre as mesmas. Muitas vezes o olhar ia de encontro a essas imagens e elas se apresentavam mais como elementos que pareciam ter nascido de um desejo de site specific do que objetos que foram transportados e organizados espacialmente. Era inevitável se perguntar como o artista reagiria à exposição e, num segundo momento, que obras ele não poderia ter criado especialmente para o encontro com essa solene arquitetura.

As obras selecionadas correspondiam a um amplo arco temporal entre 1973 e 2010 e provinham especialmente de coleções particulares e também do Acervo Ivens Machado. Desde a entrada, a fisicalidade de suas obras ia de encontro ao corpo do espectador. Após subir as escadas que davam no espaço, tínhamos à frente uma obra de 1982 que foi reconstruída para a exposição. Sem possuir título (como boa parte de sua produção), uma espécie de ovo de concreto era erguido por quatro estruturas de ferro sustentadas por pilares também de concreto. A superfície dessa forma que se apresentava suspensa e de modo quase religioso possuía um dado que chamava a atenção durante a exposição: coberta por cacos de vidro verdes e transparentes, se percebia o interesse do artista no contraste cromático do uso de diferentes materiais.



Mesmo tendo visto outras vezes a obra de Ivens, a reunião de vários de seus trabalhos no mesmo espaço potencializava esse dado que se apresentou como novo durante a exposição. Mais à frente, uma obra de 2007 exemplificava bem esse interesse na relação matéria-cor quando o artista coletou diferentes tipos de pedras calcárias e as agrupava em amostras que se prolongavam em uma mesma linha. A escultura saía da parede e da relação frontal com o corpo do público para o chão, se espalhando como uma linha sinuosa. O nosso corpo, portanto, era incapaz de circundar a peça (como se fazia em grande parte das esculturas na exposição) e o olhar percorria o caráter gráfico desse objeto.

A capacidade do artista de criar corpos estranhos por meio de materiais essenciais para a sustentação de edifícios também chamava a atenção. Há, porém, assim como na orientação tomada quanto ao modo de mostrar esses objetos, uma tensão entre elegância e brutalidade inerente às imagens criadas por Ivens Machado. Se por um lado os materiais são pesados e com um apelo semelhante a uma casa em reforma, por outro lado há uma inegável beleza nos seus contrastes cromáticos de tipos de concreto, em sua articulação com o ferro e em seus contornos formais que possuem algo de animalesco e instintivo.


Esse singelo equilíbrio é perceptível tanto em sua pesquisa tridimensional, quanto em obras mais raras como nas suas experiências com cadernos e com vídeo. Se o concreto é a base da arquitetura modernista, as folhas de papel são a superfície dos projetos e, conforme mostrado em seus vídeos, o corpo humano é a célula dos verbos de ação – conforme Richard Serra também demonstrara. Em nenhum dos três há a possibilidade de harmonia: o concreto se verteu em criaturas pontiagudas, os cadernos tem pautas irregulares e os vídeos demonstram a impossibilidade de dois se tornarem um. Ao mesmo tempo, em nenhuma dessas esferas há espaço para a desordem generalizada, o rasgo expressionista e a libertação total dos demônios que ocupam a mente humana.

Há muito de carnal nessa exposição e em seu percurso, mas também há muito da inteligência de um estudioso da anatomia. Saímos dessa reunião de imagens com a consciência de que a falência da condição humana é latente, mas que ainda tentamos atribuir algum sentido a ela. Fica também a esperança de que a obra de Ivens Machado seja cada vez mais conhecida e estudada, possibilitando futuros cruzamentos com outras anatomias da história da arte.




[1] FORTES, Marcia. “Chris Burden e Ivens Machado se foram na mesma nuvem”. Folha de São Paulo, 14 de junho de 2015.



(texto publicado originalmente na Artnexus de dezembro/2016-fevereiro/2017)

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