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domingo, 4 de dezembro de 2016

Bené Fonteles - 32ª Bienal de São Paulo


Diversas mudanças atravessaram a biografia de Bené Fonteles e o levaram a viver nas cidades de Fortaleza, Salvador, Cuiabá, Brasília, Belém, São Paulo e Florianópolis, colocando-o em contato com paisagens e grupos sociais distintos. Sua atuação como artista tem início nos anos 1970 e incorpora a literatura, a música e a organização de exposições, além do ativismo ambiental e social. Reunindo todos esses papéis, o artista os encara como partes do todo de sua atividade como agente na esfera pública. Em Cuiabá, nos anos 1980, Fonteles participou da fundação de entidades ambientalistas e, em 1986, deu início ao Movimento Artistas pela Natureza, projeto em prol da consciência ecológica que discutia as relações entre ativismo e arte, utilizando o neologismo “artivismo”.

Sua produção como artista visual se faz por meio de várias linguagens, com destaque para esculturas, instalações e sua relação física com o corpo do público. As obras partem de arranjos entre objetos encontrados, materiais orgânicos, objetos coletados de culturas tradicionais, que ativam a perspectiva crítica perante ecossistemas e estruturas sociais, e a arte constitui uma dessas ecologias. Em sua prática também há o convite de cocriação a artistas, músicos e agentes culturais, contemplando a escrita de manifestos, músicas, poemas e ensaios. Sua pesquisa artística, portanto, está aberta a muitas vias: imagens e palavras, objetos e ações, instâncias poéticas e políticas, materialidade e espiritualidade, história livresca e tradição oral, o campo da arte, da natureza, da vida.



Na 32ª Bienal de São Paulo, o artista apresenta Ágora: OcaTaperaTerreiro (2016), uma instalação que se encontra na intercessão das diferentes culturas brasileiras. Paredes de taipa e o teto de palha ocupam o piso térreo do Pavilhão da Bienal. As palavras aglutinadas no título indicam distintos tempos e saberes ligados a diferentes matrizes construtivas. O que se propõe é a sobreposição de culturas, usos do espaço arquitetônico e formas de ritualizar a existência humana dentro de uma única estrutura, não distinguindo ou categorizando as culturas que formam o Brasil, mas criando uma aproximação entre elas.

Nesta OcaTaperaTerreiro também estão reunidos objetos provenientes de diferentes regiões, fruto das muitas viagens do artista e encontros com a polifonia de vozes, culturas, ciências, produções materiais, físicas e espirituais do Brasil. Um altar religioso, bandeiras de São João, esculturas, sedimentos de pesca dos jangadeiros do Ceará e tamboretes de couro são alguns dos elementos que compõem esse ambiente.


Fonteles estabelece uma aproximação afetiva, experimental e imaginativa entre esses territórios e povos, abstraindo fronteiras geográficas. De modo análogo, barreiras e hierarquias entre cultura erudita e popular são desmontadas. Interessa ao artista convocar o espectador à reflexão sobre a memória de afetos e territórios, e sobre a identidade como categoria política. No centro da taipa, um grande círculo de terra, farinha de mandioca e patchuli recebe cocares e lanças indígenas e articula em seu entorno um programa de encontros e apresentações “Conversas para adiar o fim do mundo” que, em diálogo direto com Fonteles e o público, refletem “in loco” sobre um estado de coisas da história e do presente brasileiros. A instalação se transforma, então, na ágora, espaço e conceito ativados por rituais e falas do artista, de seus convidados e do público, e se transmuta numa entoação de força e resistência.

(texto publicado no catálogo de "Incerteza viva", 32ª Bienal de São Paulo, realizada entre 07 de setembro e 11 de dezembro de 2016)

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