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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Saber contar



O título da recente exposição individual de Rochelle Costi na Anita Schwartz Galeria, no Rio de Janeiro, dá um norte duplo para as imagens ali organizadas pela artista. Se por um lado a palavra “contabilidade” remete, segundo um dicionário, à “ciência de caráter teórico e prático que se dedica ao estudo dos métodos de cálculo”, por outro lado ela também pode ser vista como a junção entre as palavras “contar” e “habilidade”. É nessa segunda concepção menos científica e mais aglutinadora do título da exposição que me parece que a pesquisa da artista dialoga de modo mais próximo.
Além disso, o verbo “contar” também pode ser interpretado de várias maneiras. A presença da contagem numérica e sua relação com a matemática é um dado que se faz muito presente na exposição, porém tenho a impressão de que esse significado se encontra também colado à definição do “contar” como um ato narrativo acerca de um tema. Nesse projeto, portanto, Rochelle Costi se encontra em um movimento pendular entre a observação e designação de números para diferentes existências no mundo e a sua potencialidade narrativa e ficcional por meio desses mesmos elementos. Esse último aspecto dessas obras me parece constante à sua pesquisa como artista visual desde o início de sua carreira. Suas fotografias, para além da documentação de espaços arquitetônicos, objetos e pessoas, estão mais interessadas em incitar o olhar curioso por parte do público e estimular sua capacidade de imaginação mental e narrativa a partir de seu encontro com essas imagens que tendem à grande escala e à fisicalidade frontal.


Parte dessa exposição diz respeito às obras que a artista mostrou na 20ª edição da Bienal de Arte Paiz, realizada na Guatemala. Após a experiência de percorrer diferentes lugares do país durante uma viagem de pesquisa para a bienal, Rochelle lançou seu olhar em torno dos diferentes modos de exibição de produtos para venda e do seu excesso numérico e cromático. Na exposição são mostradas cinco grandes fotografias que trazem ao espectador os espaços das tendas de mercados populares que vendem cerâmicas, santos católicos, roupas, têxteis e, por fim, um mercado de frutas e verduras. Há nessas imagens, certamente, um estranhamento entre quem fotografa e o que é fotografado; por mais que seja possível afirmar que espaços semelhantes a esses são encontrados de modo fácil no Brasil natal da artista, certamente as referências, por exemplo, às culturas maias das cerâmicas, as placas em espanhol e os trançados dos têxteis, se apresentam como novidades para seu olhar.
A amplidão horizontal das imagens chama a atenção de um modo diferente daquele que o percorrer físico nesses espaços chamaria. Ao sermos obrigados a observar o congelamento das imagens proporcionados pela fotografia, rapidamente percebemos o enorme número de objetos que foram organizados ali pelos vendedores a fim de convidar à compra. O caráter de compra e utilidade desses objetos, então, fica em segundo plano e é substituído por um convite à nossa contemplação. Nosso olhar se perde nesse oceano de detalhes que é estimulado pela inserção de pequenos números que se põem a contar o número de elementos que compõem cada uma dessas imagens. Ao movimentar nossas retinas por essas imagens, coisas se tornam números e o inevitável desejo humano de organizar e colecionar – desejo esse muito relacionado às próprias práticas antropológicas e etnográficas da fotografia – se faz claro.


Essas fotos, porém, não foram os únicos elementos mostrados pela artista na Guatemala. Havia também a projeção de um vídeo que reunia pequenos recortes do olhar de Rochelle acerca do cotidiano e do trabalho no espaço público na Guatemala. Em câmera lenta, pessoas armam suas barracas, carregam objetos e escancaram aos nossos olhos o processo de composição e decoração dessas frágeis lojinhas. Com uma trilha sonora emotiva, a artista parece interessada também nos bastidores criativos que fazem com que chegue posteriormente à documentação desses espaços destinados a mostrar coisas. Por fim, acima do vídeo e das fotos, uma série de bolas de borracha feitas e pintadas artesanalmente apresenta numerações e traz para a tridimensionalidade a quantificação da experiência humana comum à exposição e aos mercados populares.
Essa soma de obras de Rochelle Costi, conforme dito aqui, exemplificam sua habilidade em saber contar histórias a partir de imagens. Poderíamos contemplar essas imagens sem nenhuma referência à Guatemala e ainda assim seríamos capazes de imputar nessas fotografias outras possibilidades de pertencimento geográfico e de atribuição de sentido à presença desses números. No segundo andar da exposição, endossando essa interpretação acerca de sua produção, há dois trabalhos que são também exemplares dessa capacidade polissêmica do encontro entre contar matematicamente e contar literariamente.


“Coleção de artista” se trata da reunião de centenas de objetos que representam corações coletados pela artista há mais de duas décadas. Retirados do seu âmbito doméstico (precisamente de seu quarto) para o espaço institucional, são mostrados também com números que mais ficcionalizam do que informam; na ausência de um indicador que aponte a origem e a história por trás de cada um deles, cabe novamente a ação imaginativa por parte do espectador. Por fim, no vídeo “Dezesseis” a artista tece uma homenagem afetiva à passagem do tempo de sua própria filha. Atualmente com dezesseis anos, ou seja, nascida em 2000 e exemplo de uma geração que tem toda sua existência embebida pela fotografia digital, a obra dividida em duas imagens reúne de trás-para-frente e vice-versa fotos e vídeos do crescimento e experimentação do mundo por parte desse membro de sua família.


Seja com um olhar voltado para a sua esfera privada e afetiva, seja em relação ao espaço público da alteridade, parece constante à pesquisa de Rochelle Costi um interesse pela atividade humana e pela sua vitalidade. Podemos catalogar aquilo que nos rodeia, mas a potência vital sempre arranjará uma maneira de escapar aos números e aos documentos – assim como suspeito que algum desses objetos presentes nas suas fotos deve ter ficado sem um número. O que essa exposição e sua produção nos fazem lembrar é que não adianta saber contar se não temos ciência do que queremos contar. Felizmente, Rochelle segue a experimentar e nos mostrar que a vida ainda pode e deve ser contada de muitas maneiras.

(texto publicado originalmente na Artnexus de dezembro/2016-fevereiro/2017)

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