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domingo, 10 de julho de 2016

many-splendoured thing



Essa exposição é também sobre a história de Thomspon Vitor, estudante brasileiro. Tudo começou com o encontro entre Gê Orthof e a notícia sobre um jovem nascido em Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte, que havia sido aprovado em primeiro lugar para o concorrido concurso do Instituto Federal de Educação. O que chamava a atenção na narrativa é que o rapaz estudou a partir de uma série de livros que sua mãe, catadora de lixo, encontrou em seus percursos pela cidade. O incentivo à leitura, somado ao amor materno e à disciplina do estudante, possibilitou sua aprovação – esta é uma versão (a mais midiatizada) dos recentes fatos de sua vida.

Ao sermos convidados para dialogar com o espaço e a História da Portico Library, em Manchester, um espaço de leitura com mais de duzentos anos, este Thompson se tornou emblemático. Como criar pontos de contato entre as publicações que foram resguardadas pelos bibliotecários da instituição e os livros passíveis de serem encontrados em uma esquina do mundo? O que leva aos atos do descarte e do resguardo? O nome de nosso ponto de partida se tornou uma pequena obsessão – quais outras pessoas que possuem o seu mesmo nome estariam presentes na coleção da Portico Library?





Em um primeiro momento, o nome mais frequente em nossas pesquisas era o de Francis Thompson (1859-1907), poeta inglês que viveu por alguns anos em Manchester e que dedicou sua escrita a reflexões religiosas e ao estudo da ascese. Não é incomum encontrar em seus versos um existencialismo pautado no incentivo à meditação e na recusa à materialidade do mundo.  Os livros e a busca pelo (auto)conhecimento seriam os melhores companheiros do homem em sua entrada na modernidade – como não relacionar essa narrativa ao outro Thompson? Rapidamente ambos foram acompanhados por outras figuras que extravasavam a coleção da Portico Library e que se tornaram notórias devido aos seus ideais em prol da educação, da leitura e da busca por condições igualitárias na humanidade – abolicionistas, artistas visuais, cientistas, escritoras e escritores são algumas das atividades destas vidas que se fazem presentes na exposição através de uma galeria transparente de retratos e histórias que se estendem na distância entre o Brasil e a Inglaterra, mas que se alastram pelo mundo.

Gê Orthof compartilha com o público uma instalação composta por diversas partes e que recodifica de modo não literal a pesquisa que desenvolvemos nos últimos meses. Interessa ao artista a criação de percursos de interpretação e exploração do espaço que convidem o espectador a ter uma atitude ativa e reflexiva perante as imagens ao seu redor. Assim como o ato de abrir páginas aleatórias de livros de diferentes procedências, sua instalação articula objetos que intrigam a nossa memória e nos levam a realizar aproximações inesperadas e sem hierarquias entre signos. Na instalação, por exemplo, o papelão e seu materialidade precária e opaca pode seguir lado a lado com a cor expressiva e transparente do acrílico. A associação ao espaço público e à reciclagem de um lado não anula a sensualidade cromática e delicadeza do outro material – ambos caminham juntos e convidam o nosso olhar a fruir seus contrastes e atribuir (apenas se quisermos) significados a suas presenças no espaço.





Além de livros, a instalação possui cartões-postais encontrados na rua e publicações doadas pelos frequentadores da biblioteca. Esses materiais remetem o nosso olhar para paisagens tão diferentes como uma praia e uma catedral gótica – nosso corpo é transportado por um tapete voador invisível que flutua sobre essas lembranças impressas de lugares que não conhecemos, mas que já nos parecem íntimos. A ocupação das vitrines pertencentes a Portico Library, feita através da utilização de objetos de tamanho pequeno, contribui com essa sensação de “voyages & travels” (nome de uma das seções de prateleiras da biblioteca) por um território em que miniaturas de animais, plantas, arquitetura e pessoas compartilham uma existência silenciosa que, vez ou outra, é irrompida pelo som de diferentes caixinhas de música.

Este lugar onde é possível observar tantas paisagens e personagens é, justamente, o da fruição da arte, dos livros e do exercício da imaginação. É sobre esse espaço que o título da exposição, extraído de uma poesia de Francis Thompson, aponta: a arte, em seu sentido amplo, é essa “many-splendoured thing”[1] que, assim como o trabalho de Gê Orthof, nos incita um olhar não domesticado. Comecemos de um lado, nos percamos no meio do caminho e nos possibilitemos retornar outro dia para reler a exposição do fim para o começo. É através desse exercício de despendimento que constatamos o lugar libertário da fruição e nos sentimos empoderados como aquele Thompson que foi nosso ponto de partida e para quem dedicamos esse singelo monumento.






Como também nos ensinou o outro Thompson, “That thou canst not stir a flower / without troubling a star”[2] – ao lermos a última página de um livro, há algo que se movimenta simultaneamente tanto no universo, quanto dentro de nós mesmos.



[1] “The angels keep their ancient places; / Turn but a stone, and start a wing! / ‘Tis ye, ‘tis your estranged faces, / That miss the many-splendoured thing” – “The kingdom of God”, de Francis Thompson.
[2] “‘When to the new eyes of thee / all things by imortal power, / near or far, / hiddenly / to each other linked are, / that thou canst not stir a flower / without troubling of a star” in “The mistress of vision”, de Francis Thompson.

(texto curatorial relativo à exposição "many-splendoured thing", de Gê Orthof, realizada na Portico Library, em Manchester, Inglaterra, durante o mês de junho de 2016)

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