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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Claudia Andujar


Devido à exposição “No lugar do outro”, de Claudia Andujar, em cartaz no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro entre os meses de setembro e novembro, foi publicado um catálogo com reprodução das imagens expostas e uma entrevista exclusiva da artista. Após responder perguntas sobre sua infância, a fuga do nazismo e o trânsito entre a Europa e os Estados Unidos, a entrevistada comentou sobre o início de sua relação com a fotografia: “Minha mãe tinha uma máquina, ela fotografava, mas era como tanta gente. Para mim era uma maneira de me relacionar com o Brasil, nunca pensei que ia ser fotógrafa. Foi só depois que eu já fotografava e isso me dava um prazer muito grande que conheci gente que me encorajou”. A fotografia, conforme afirmado em outros momentos da entrevista por Andujar, era um resultado de uma ansiedade dela por conhecer não apenas o “Brasil”, mas o “Brasil profundo”.

Esse mergulho na alteridade a levou, por exemplo, a produzir centenas de fotografias de suas vivências na Amazônia em livro de mesmo título publicado em 1978 e que também contava com imagens do fotógrafo George Love. Reflexo de uma bolsa recebida para estudar o grupo Yanomami no estado do Roraima, a experiência - que talvez uma geração mais jovem poderia chamar por “residência” – fez com que Andujar se engajasse politicamente com os direitos indígenas no Brasil. Essa pesquisa que se desenvolveu por décadas contribuiu com a disseminação de suas imagens por diversas instituições importantes dentro do campo das artes visuais e transformou sua assinatura em sinônimo de documentação e fabulação fotográficas do cotidiano indígena no país.



Nesse sentido, a presente exposição é louvável justamente por compartilhar com o público outros interesses de pesquisa de Andujar. Ao reunir imagens produzidas entre 1962 e 1972, a curadoria de Thyago Nogueira contribuiu com uma gama de cores mais contrastante e densa do olhar construído através de suas fotografias. A artista, portanto, é apresentada para além de seu lugar institucionalizado de “fotógrafa dos ianomâmis”.

Logo na entrada da exposição, esse dado se faz perceptível através da série de imagens emblematicamente chamada por “Natureza”, de 1970-72. Ao visitar a região do rio Jari (entre os estados do Pará e do Amapá) pela primeira vez e tomar conhecimento da futura construção de hidroelétricas no local, Andujar optou por realizar pequenos monumentos fotográficos à natureza ainda intacta da região. Se em algumas fotografias temos recortes de áreas específicas daquilo sentido pelo próprio corpo da artista, outras construções formais são de planos mais abertos e quase panorâmicos de quedas d’água fruídas por perspectivas ascensionais. A figura humana ainda não se faz presente, mas será nos anos seguintes que seu olhar irá adentrar essa vegetação e observá-la através de uma escala humana.

Também na década de 1970, em interessante contraponto a esse encontro com a natureza, a fotógrafa faz registros do ponto de vista do concreto pisoteado por pessoas com pressa e das quedas d’água que se transformaram no codinome “cidade da garoa” - essa é São Paulo, a cidade que acolheu e foi acolhida por Claudia Andujar e por sua mãe. A série “Rua Direita”, além de ser um recorte temporal sobre o cotidiano da cidade a partir do chão, não deixa também de ser exemplar sobre o fascínio que a fotografia analógica causava no momento. Do mesmo modo que os passantes se entrelaçam no seu percurso físico, Andujar propõe fusões de imagens e cria para a exposição montagens das diferentes arquiteturas dos edifícios encontrados em São Paulo. Não há espaço para o sol que ilumina o verde em “Natureza” e resta a certeza do gradeamento vertiginoso proporcionado pela acelerada industrialização da maior capital do Brasil.



Voltando para o início de sua produção no Brasil (1962-64), os interesses de Andujar parecem mais dialógicos com seu olhar sobre os yanomâmis. Em “Famílias brasileiras”, desde seu título fica clara a sua apreensão de recortes do Brasil já no plural. Não é de se estranhar, portanto, que tenha optado por registrar viajando por São Paulo, Minas Gerais e Bahia. A tonalidade preto-e-branca da imagem tece indiretamente um comentário sobre as tensões sociais vistas nesses registros e que perpassam a desigualdade econômica, urbana e racial do extenso território brasileiro. A fotógrafa se transformava em um membro da família por algumas semanas e emoldurava sua rotina em dezenas de cliques que certamente não decorariam suas salas de estar.

Por fim, com a série “Histórias reais” (1966-71), o público compreendia melhor a atuação de Andujar nas publicações de fotojornalismo no Brasil. As narrativas são múltiplas e as imagens de maior impacto visual devido às escolhas precisas e até mesmo censuradas feitas pela fotógrafa interessada na perpetuação da humanidade perante as adversidades – da fragilidade do parto no interior do Rio Grande do Sul à vida dos homossexuais nas grandes capitais brasileiras. Uma série chamava a atenção e pode ser lida como uma alegoria do próprio trabalho e trajetória de Andujar: “É o trem do diabo” reúne fotografias de imigrantes que tentaram a vida em São Paulo, mas foram obrigados legalmente a retornar às suas cidades de origem. Corpos estirados em bancos de madeira são banhados pelo sol e transpiram perante as lentes preto-e-brancas dessa mulher que já esteve em semelhante posição em sua própria biografia.


Ao se despedir dessa reunião de trabalhos de Claudia Andujar, fica a certeza de que “No lugar do outro” se trata de um título adequado para uma artista que sempre será uma “outra” em relação à cultura brasileira. Talvez, justamente por isso, suas imagens sejam capazes de exalar tamanha humanidade ao olhar do público. Fica o desejo de que, assim como suas importantes fotografias dos Yanomâmis, essas séries agora compartilhadas com o grande público também sejam mostradas em novas curadorias e que a pesquisa de Andujar seja pensada a partir de outros novos lugares críticos.



(texto publicado originalmente na ArtNexus de dezembro/2015-fevereiro/2016)

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