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sábado, 18 de julho de 2015

Matías Duville


“Mutações” era o título da exposição individual do artista argentino Matías Duville no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Aberta entre os meses de março e maio, se tratava de uma boa oportunidade para ver reunidas em um mesmo espaço obras realizadas desde 2000, representativas dos mais de quinze anos de sua pesquisa. Logo na entrada do espaço expositivo, em um corredor, o público era convidado a repousar o olhar sobre “Field”, obra de mais de seis metros de largura e realizada com carvão sobre papel.

Ao percorrer os quatro lados desse desenho, era possível se recordar, primeiramente, de um formato semelhante ao de uma tela de cinema ou a um filme projetado em widescreen. O título da obra – que em português seria “campo” – nos convida a vê-la inicialmente como uma paisagem. Pequenos montes sugeriam torres, montanhas ou estradas circulares que davam o tom para a composição e faziam companhia a fragmentos de árvores. Ficava a dúvida, porém, de a qual “campo” artista e imagem se referem; os acidentes das composições feitas pelo carvão me faziam considerar por vezes estar diante de um campo de guerra, por outras estar próximo a uma paisagem fantástica.



Ao adentrarmos a sala da exposição, ficava clara a importância do título escolhido pelo curador Santiago Garcia Navarro e o artista. Se as mutações dos percursos interpretativos por parte do espectador já ficavam claros em “Field”, ao termos contato com uma seleção de obras de técnicas, escalas e cores discrepantes, percebíamos que as experimentações da forma plástica e suas possibilidades abertas quanto à narrativa e representação são, possivelmente, um dos maiores interesses de Matías Duville. Em uma das paredes da sala, “Ese fue otro lugar”, de 2009, dá continuidade aos exemplos de obras feitas com carvão. De escala menor que “Field”, apresenta uma unidade narrativa que poderia ser uma imagem do contato trágico entre natureza e urbanismo. Novamente (e felizmente) a apreensão da imagem se faz impossível e nos colocamos na dúvida entre enxergar ondas do mar, uma movimentação tectônica ou, quem sabe, ambas.

Logo ao lado dessa imagem, uma nuvem de cerca de doze trabalhos menores feitos também com outros materiais como óleo, pastel e barro. Parece-me claro o interesse do artista em nos convidar a perceber as mutações desses encontros entre matérias orgânicas e superfícies. Há, nessa perspectiva, uma animação expressiva dessas imagens que dão uma sensação de movimento e fazem com que tenhamos a impressão de que elas estão sempre a se anunciar perante o nosso olhar, semelhante a um frame de cinema de animação.

O modo como a expografia foi pensada nesse projeto também é essencial para proporcionar distintas movimentações dos corpos visitantes. Pensando nessa mesma parede comentada, era perceptível o convite para uma aproximação das obras menores, que na sequência, devido a nuvem de imagens composta, incentivava um distanciamento das mesmas. Enquanto isso, as obras de maior escala convidavam de modo oposto, da apreensão do todo para o convite ao detalhe. Era esse movimento de caminhar para frente, ao lado e para trás, sempre através de ritmos proporcionais às diferentes alturas dos trabalhos nas paredes, que dava a tônica ativa do corpo do espectador.


Uma obra em especial chamava a atenção nesse sentido. “Disfraz”, outro trabalho que se apresentava a partir de sua largura de quase cinco metros, à distância aparentava ter uma série de composições coloridas na margem inferior da imagem, semelhantes a uma paisagem montanhosa. Nos outros três quartos da composição acima, um tom azulado escuro que era pontuado, segundo meu olhar, por presenças assimétricas de dourado. Sempre fiel aos meus vícios interpretativos de aproximação com o clássico, rapidamente relacionei essas cores tão caras ao Renascimento – o dourado e o azul – entre si.

Qual não foi a minha surpresa, porém, ao caminhar rumo à imagem e ver que, em verdade, nunca houve nenhuma inserção de dourado ali, mas se tratava de uma pintura realizada sobre um compensado de madeira que havia recebido diversas incisões por parte do artista. A janela renascentista rapidamente se quebrou diante de meus olhos e as anunciadas mutações de Duville se configuraram como uma experiência sentida pelo meu corpo. Não consegui, de todo modo, deixar de lado minha relação com as culturais visuais da tradição clássica e sigo a aproximar o artista delas – talvez seja mais coerente pensá-lo ao lado dos engana-olhos (trompe l’oeil) que seguem capazes de confundir superfície e fundo, pintura e relevo, dourado e precariedade da matéria.



Saí da exposição de Matías Duville com a lembrança da necessidade de manter o olhar afiado perante as imagens. Lembrei da pergunta que o livro de W. J. T. Mitchell faz em torno da relação entre espectador e imagem: “What do pictures want?”. Admito que, assim como o autor estadunidense não foi capaz de dar uma resposta precisa, no caso de Duville, eu também (felizmente) não o seria. Momentaneamente, sigo com as observações aqui apontadas e com o caráter mutante de sua pesquisa artística.

Fica a certeza, no fim, de que a produção contemporânea é capaz de produzir imagens potentes através de técnicas tão tradicionais como o desenho e a pintura (sem falar nas esculturas e objetos de sua autoria). Esses modos de produção seguem a instigar o espectador e, mais que isso, não tem uma atitude política panfletária - como se vê em muitos artistas enquadrados dentro de certo estilo internacional da “arte latino-americana”. Configuram-se, enquanto isso, também como políticos na medida em que possibilitam o contato com algo por vezes esquecido e essencial na vivência humana: a beleza. 

(texto publicado originalmente na ArtNexus de junho-agosto/2015)

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