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quarta-feira, 11 de março de 2015

Ouro de tolo



Ao se observar o percurso de Zé Carlos Garcia, temos à nossa frente uma pequena Arca de Noé; basta passar os olhos pelas imagens de seus trabalhos e somos enfrentados por porcos, pássaros, abelhas e pragas. Nenhum deles, porém, se apresenta por um duplo tridimensional ou através de uma representação mimética dada a partir de um modelo vivo. De vivo, em verdade, seus animais têm muito pouco, já que parece interessar ao artista justamente a fragmentação dos corpos e os resquícios de uma mutilada arca.

Esse dado é visível em um dos dois trabalhos centrais na presente exposição. De uma longa estrutura de madeira semelhante a um mastro, preso à parede, saem distintos tons de crinas de cavalos. Se o artista aponta de modo imponente para o alto, ao mesmo tempo nos faz olhar para o chão criando uma anti-monumentalidade. No lugar de uma estrutura de ferro soldado e do vento que balançaria a superfície da bandeira, somos desafiados com um mastro feito a partir de encaixes de diferentes partes e uma amálgama de pelos de animal que vão de encontro à poeira. Não vemos bandeiras, mas o esqueleto de suas estruturas e a presença parcial desses equinos nos faz lembrar da iconografia militar.

Cavalos e estandartes são imagens que se complementam e permanecem em nosso ideário tanto de celebrações públicas, quanto de movimentos de invasão territorial. Ambos são meios; um de transporte do corpo humano, o outro de translado da identidade de um coletivo. O outro elemento evocado por Zé Carlos Garcia no segundo objeto aqui apresentado também parte desse campo semântico, mas se faz destoante devido à sua habitual inércia: o monumento em pedra.



O caráter ascensional de obeliscos e pelourinhos é aqui transposto para a madeira. Enquanto a escala gigante das torres de pedra projetadas para o espaço público é reduzida para o espaço da galeria, sua imponência simbólica ainda se faz presente através da ponta de ouro maciço dessa escultura. O mesmo material que constitui essa superfície pontiaguda - capaz de grandes derramamentos de sangue – foi o principal incentivador desses mesmos duelos. Poder bélico e ganância advém, nesse ponto de vista, da mesma tendência do humano à ostentação. Quando o artista opta por inserir movimento a essa estrutura de madeira, a lembrança militar que a imagem poderia proporcionar, literalmente, se desestabiliza. Como reverenciar um objeto que dança perante o nosso olhar tal qual um joão-bobo? Até que ponto todo homem que busca esta mínima parcela de ouro pontiagudo não é, na verdade, um grande tolo?



Lembrando das palavras de Raul Seixas na canção “Ouro de tolo”, de 1973, Zé Carlos não é daqueles que está “no trono de um apartamento / com a boca escancarada / cheia de dentes / esperando a morte chegar”. Ele age e dialoga com os anseios do presente através da escultura, da imagem e de apropriações formais felizmente não panfletárias.

Para fincar novas imagens em nossas memórias, é preciso que o artista também mutile nossas culturas materiais e, no lugar do desejo de permanência típico das iconografias políticas, opte pela transitoriedade.

(texto relativo à exposição "Finca", de Zé Carlos Garcia, na Amarelonegro Arte Contemporânea, no Rio de Janeiro, entre 10 de março e 03 de abril)

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