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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Histórias mestiças


Entre os dias 29 de agosto e 5 de outubro, foi realizada no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, a exposição “Histórias mestiças”, com curadoria de Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz. Antropóloga e professora da Universidade de São Paulo, a curadora tem uma extensa pesquisa no que diz respeito às relações entre cultura, imagem e questões raciais no Brasil, sendo autora de alguns livros essenciais para essa reflexão como “O espetáculo das raças” (1993). Enquanto isso, mesmo que o currículo recente de Pedrosa aponte para curadorias fora do Brasil como a Bienal de Istambul (2011), não devemos esquecer sua co-curadoria na célebre “Bienal da Antropofagia”, em São Paulo, sob curadoria geral de Paulo Herkenhoff.

Como o próprio título coloca em tensão, a exposição gira em torno da ideia de mestiçagem no Brasil – entre as Histórias (com agá maiúsculo e com pretensões a serem oficiais) e as histórias, as narrativas próximas da ficção e da fabulação que também giram em torno dos debates raciais no Brasil. É possível aproximar a exposição de um texto clássico de autoria de um cientista alemão, Karl Friederich von Martius, que se intitula “Como se deve escrever a História do Brasil” (1845). O texto é comumente relembrado por basear parte de sua argumentação na concepção de três grandes raças que dariam substância à jovem nação brasileira – segundo o autor, “a de cor cobre ou americana, a branca ou a caucasiana, e enfim a preta ou etiópica. Do encontro, da mescla, das relações mútuas e mudanças dessas três raças, formou-se a atual população, cuja história por isso mesmo tem um cunho muito particular”.




O projeto curatorial, portanto, me parece se debruçar justamente em torno de uma arqueologia desse “cunho muito particular” do Brasil - de que modo um extenso conjunto de narrativas colonialistas que enxergava a cultura brasileira como fruto de uma mistura nada pura entre diversas etnias apareceu e insiste em aparecer através de imagens de temporalidades e geografias distintas? No lugar de uma repetição do enunciado de von Martius, Pedrosa e Schwarcz me parecem mais preocupados em, através de uma pesquisa louvável, tentar desconstruir essa leitura simplista e já senso comum do que seria a origem do “povo brasileiro”.

Para tal, nada mais justo do que se pensar em salas expositivas que estão baseadas em tópicos constantes da produção de imagens sobre o Brasil, como “Ritos e religiões”, “Tramas e grafismos”, além de “Máscaras e retratos”. Em uma expografia que em muito dialoga com as proposições recentes de Paulo Herkenhoff no Museu de Arte do Rio, o espectador era convidado a adentrar espaços permeados por imagens que são “friccionadas” (como o release da exposição dizia) e convidavam a um diálogo pela distância histórica e pelo contraste entre matérias e conteúdos.





Por outro lado, essa configuração que poderia ser vista como “warburguiana” do espaço acarreta em outras implicações: até que ponto o público consegue apreender as especificidades históricas das imagens justapostas nas salas da exposição? Apenas como um dentre os vários exemplos possíveis, as obras com cunho indianista e modernista de Vicente do Rêgo Monteiro se encontram próximas a objetos indígenas, ou seja, se por um lado a temática aparece de modo claro, por outro as minúcias documentais das imagens por vezes se esvaem na amálgama de informações, trazendo por instantes o receio de que alguns diálogos se dão mais através da forma do que a partir dos usos e campos semânticos daquelas imagens. Ao fim da exposição, por mais que o fantasma formalista da famosa “Primitivism in 20th century art: affinity of the tribal and the modern”, realizada no MOMA há trinta anos, tenha se afastado de minha leitura, se faz difícil não manter em mente a visão crítica perante essa “afinidade” entre as imagens. 




Isso me parece bem exemplificado através de um trabalho de Adriana Varejão que é capa de parte do material bibliográfico da exposição e onde a artista soma à sua própria imagem a apropriação de pinturas corporais indígenas presentes nas imagens do viajante português Joaquim José Codina durante o século XVIII. Apropriar certamente não quer dizer recodificar e fica a pergunta: justapor esses dois dados, o rosto da artista e uma série de rostos indígenas plasmados por um homem ocidental há três séculos ativa, atualiza ou “mestiça” o nosso senso comum sobre as muitas mestiçagens no/do Brasil?

Há a dúvida, mas também a certeza de que navegar por esse oceano de questões em um país continental e culturalmente tão diverso como o Brasil é, certamente, uma aventura.

(texto publicado originalmente na seção Art Notes, dentro do website da revista ArtNexus, em dezembro de 2014)

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