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sábado, 20 de setembro de 2014

Palco


Entre os dias 26 de abril e 30 de novembro, o público de São Paulo tem a possibilidade de visitar a exposição “Cenários”, de Vânia Mignone. Com cerca de 58 obras que ocupam o espaço ainda recente do MAC Ibirapuera, a artista contribui com a proposta do museu de intercalar exposições que contam com obras do seu acervo (relativo à Universidade de São Paulo), com projetos que mostram trabalhos recentes de artistas com considerável percurso no cenário das artes visuais no Brasil. O trabalho mais antigo da exposição data de 1993 e seu título parece ser uma possibilidade para que o espectador aprecie o universo da artista: “Palco”. Não se trata de uma pintura, o suporte através do qual a artista é mais reconhecida e, inicialmente por isso, se configura como parte de uma importante série de obras na exposição. É interessante saber de sua proximidade com a linguagem da gravura – algo que não está contido apenas na sua produção dos anos 1990, mas que perpassa também as suas imagens mais recentes.

Ao olhar com calma para “Palco”, um trabalho que não excede os trinta centímetros de extensão, há elementos formais que seguem potentes na sua produção de imagens. A tensão entre figura e fundo aqui se faz presente – um objeto, uma escada, sugere um espaço trancafiado devido à sua escala. As linhas gravadas na madeira reforçam e ao mesmo tempo combatem o preto que toma conta da obra – este sugere uma imensidão pelo viés da cor, mas nos faz lembrar seu caráter solitário quando recorremos a uma percepção matemática do espaço. Para além destas questões formais, é interessante estar atento a essa escada, único elemento capaz de ser deduzido de modo certeiro devido ao seu tom mais próximo da mimesis, e perguntar: para onde subimos quando adentramos a pesquisa de Vânia Mignone?


Outras escadas, cadeiras, mesas, vasos, poltronas, plantas e uma cama – essas são algumas das recorrências em sua produção de imagens. O palco dessa primeira gravura retorna em uma pintura de 2013 – não através de um título externo à imagem, mas já com os traços que compõe as letras inseridas diretamente na superfície da tela que pede para ser lida pelo público. “Seu teatro” é o que a tinta nos diz e nos confunde – de quem? Meu enquanto observador ou dela, uma das várias figuras humanas que se faz presente nas imagens de artista?

Sem panos de fundo, homens e mulheres tem holofotes jogados sobre seus rostos e suam através das pinceladas com as quais ganharam forma. Por vezes, os objetos que compõe esses cenários arejados são aquilo que faz ser possível que esses corpos se apresentem de modo ainda ereto ao público, se aproximando de muletas para os opressores espaços de cor ao seu redor. Em outras situações, esses mesmos objetos se fazem importantes para apreendermos o diminuto lugar do humano perante um cenário em que a matéria se coloca de modo imponente.



Esses corpos estão tão inertes quanto esses industrializados objetos de decoração doméstica. Poderíamos aproximar, em certo sentido, as imagens de Mignone dos quadros de um Edward Hopper no que diz respeito ao aparente esvaziamento da vida ativa de suas narrativas. Hopper pretendia recodificar uma perspectiva da “vida moderna” e industrializada nos Estados Unidos, repleta de novas ofertas, mas plena de melancolia. Já a artista brasileira retira os elementos que poderiam aproximar suas telas do cinema clássico-narrativo e nos convida a uma apreciação pelo viés do fragmento – das salas, dos palcos, das nossas experiências do real e, como não, do tempo.

E daí é essencial lançar luz sobre um dos fragmentos mais potentes de suas imagens: o texto. Uma palavra pode ser o grande destaque de uma tela, tal qual uma história em quadrinhos. A repetição das formas de uma série deixa isso bem claro: um vaso de plantas e um sofá são rodeados separadamente por diferentes grafias – “sábado”, “quarta” e no “escuro”. Repete-se o desenho advindo da xilogravura e se reforça a importância da entrada da tinta acrílica e de sua cor. A rotina pode, definitivamente, se apresentar sempre diferente aos nossos olhos.


Mais precisas são as inserções que a artista faz de letras e números. Uma mulher com rosto levemente borrado fita o espectador, centralizada na tela, e tem ao seu lado uma grande letra. “Moça com fundo branco e S” é o título dado pela artista e que nos reitera o lugar de incerteza perante o seu universo.

Não há na produção de Vânia Mignone um compartilhamento de ponto de vista artístico dado a interpretações certeiras, panfletárias ou que meramente ilustrem conceitos ou questões precisas da história da arte. Após essa visão panorâmica de sua produção, descemos da escada daquele palco com o qual começamos esse texto e sentamos de volta na plateia do teatro. Mais vale seguir na nunca fácil tarefa da observação e da expectativa pelos próximos atos de seu percurso.




(texto publicado originalmente na ArtNexus de setembro-novembro de 2014)

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