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terça-feira, 22 de julho de 2014

Sem receitas


Estive na casa de Jorge Soledar há cerca de um mês. Marcamos de conversar pessoalmente sobre o que ele pensava para sua próxima individual na Fundação Ecarta, em Porto Alegre. Não que nosso contato não seja quase que diário (seja pelas ruas do Rio, seja pelas janelas do facebook), mas era preciso dedicar um tempo específico para tratarmos da exposição. No meio da conversa, em vez de seguirmos a projetar e discutir ideias futuras, Jorge comentou que estava no meio do processo de organização de algumas imagens de seus trabalhos anteriores, justamente para pensar em como estruturar o presente livro.

Foram mais de três horas de cliques por desenhos, projetos, registros de exposições, ações, frames de vídeos e todos os outros termos que poderia atribuir ao campo das pastas de imagens de um artista visual. Saí de lá afogado e pedi para que ele me enviasse esse material para pensar a respeito com mais calma. Dias depois, eis que chega um e-mail com um arquivo intitulado “molho Soledar”. Divididos por pastas com títulos que compartimentavam seus trabalhos de modo cronológico, pude voltar a olhar para sua produção e, novamente, me afogar.

De afogamento em afogamento, a primeira impressão que gostaria de compartilhar sobre esse molho cozinhado por Jorge diz respeito à sua variedade de ingredientes: trata-se de 671 arquivos que tem datação iniciada em 2003, ou seja, tive a possibilidade de ter contato com uma produção de imagens que já excede uma década. Algumas dessas imagens/ingredientes apontam para direções que poderiam ser organizadas numa abordagem linear da iconografia proposta; outras, claro, assim como tudo na vida, eram experimentos que tiveram sua potência momentaneamente e que não voltaram a ser reativados de modo explícito na sua trajetória.

Independentemente do zigue-zague que poderia fazer em torno desse caldeirão de imagens, uma coisa me parece inegável: sua ebulição. É preciso insistir no lugar do fazer e seguir nos movimentos circulares que mantém um caldo em processo de cozimento quando se possui o desejo existencial de compartilhar com o público uma visão de mundo através da produção de arte – e é necessário adicionar sempre mais água na medida certa para que o fenômeno físico tenha prosseguimento e os ingredientes possam ser apreciados de uma maneira equilibrada.



Há quase um ano tive a oportunidade de escrever um texto intitulado “Esculturas”, feito após o contato que tive com sua exposição individual no Rio de Janeiro, na Galeria IBEU, sendo o estopim da escrita um trabalho chamado “Atravessamento”. Olhando agora para esse panorama maior de sua produção, me parece interessante refletir através de outro viés. Ao me deparar com uma série de trabalhos de 2009, “Saída de campo para lugares silenciosos”, percebi que o resultado formal era algo que convidava a uma aproximação com alguns elementos da linguagem do desenho.

Uma árvore ao centro da imagem é envolvida por tiras que são presas a uma cerca de metal. Ao olhar com um pouco mais de atenção, é perceptível que essa cerca separa um agrupamento maior de árvores, algo que se assemelha à organização paisagística de um parque, daquela árvore que se destaca do grupo e está mais próxima da beira de um asfalto. O caráter repetitivo e retilíneo da situação fotografada faz com que cheguemos a cogitar se esta não poderia ser uma intervenção digital. A importância da linha e a ideia de acúmulo, dois tópicos que me parecem recorrentes em sua produção, aí se fazem presentes.



Nesse mesmo ano de 2009, em outra série fotográfica como “Soterramentos”, são apresentadas formas em que a figura humana se encontra tão aprisionada ou acorrentada como esta aproximação da natureza vegetal. Em “Máscara neutra”, por exemplo, um rosto fita a câmera e, mais do que isso, a incapacidade do seu mover dado por uma amálgama de objetos banais que irá fazer lembrar, por exemplo, o célebre trabalho de Michelangelo Pistoletto, a “Vênus de trapos”, de 1967. No lugar, porém, da presença do corpo humano através de uma escultura que imita o clássico, Jorge parece mais interessado em usar corpos tão banais quanto às roupas e o ambiente ao seu redor. Por fim, os apresenta do modo menos monumental possível ao público, ou seja, fotograficamente.

Outros acúmulos da série são dignos de nota, como os realizados no espaço público, tal qual na Praça Montevidéu, em Porto Alegre. Acidentes? Como o corpo humano reage a uma situação de imobilidade de um próximo à sua frente? Essas imagens são tanto registros de um momento específico na vida na metrópole, quanto uma encenação para a câmera – modo de se operar a fotografia também presente, porém com o corpo do artista, em 2005, em uma imagem sem título produzida durante a montagem da Bienal do Mercosul. Nessa espécie de autorretrato, o aparato físico era, contudo, equiparado com os materiais industriais, pesados e necessários para se erguer um projeto expográfico de grande porte. Uma vez que os objetos que circundam o corpo deixam de ser maleáveis como as roupas e passam para uma materialidade industrial, fica mais clara a importância da geometria nas composições propostas por Jorge Soledar. Ainda mais, quando ele elimina da imagem qualquer apropriação de objetos inanimados e, então, transforma o corpo humano em objeto central e dotado de inércia (ou mesmo de desumanidade), a linha se torna sua maior protagonista.




Poderíamos olhar, por exemplo, para um de seus primeiros trabalhos, como a série “Arquiteturas pessoais”, de 2006, em que o corpo serve para se desenhar formas variadas dentro do espaço expositivo. Tal qual um lápis sobre o papel, o criador se põe a domar e esboçar modos de ocupação do espaço – contorna as bordas do quadrado feito pelo chão ou mesmo transforma essa linha reta de carne humana em forma cruciforme através da abertura de pernas e braços. Muitas são as possibilidades e “Torre, casa e ponte”, de 2011, também poderia ser considerada outra tentativa de se tentar inventariar a forma humana em uma esteira da cultura visual que se estende aos escritos sobre a relação entre corpo, arquitetura e medida de Vitrúvio.

Na tentativa de concentrar esse percurso de leitura de trabalhos entre a linha e o acúmulo em uma única imagem, vale citar um díptico fotográfico de 2005, “Decomposição dramática”. De um lado, o criador que pressiona seu corpo contra a parede ao lado de objetos que se apresentam como recordações de uma tradição das belas-artes – molduras, janelas, chassis. À sua direita, a destruição e o corpo que agora pressiona o chão de modo horizontal. A concentração da forma através das possibilidades da verticalidade contrasta com um acúmulo de pedaços de madeira dispersos sobre um corpo humano. Diagonal e asterisco poderiam ser vistos, então, como estruturas norteadoras de seu pensamento visual.

De todo modo, me contenta perceber que, por mais que sejam modos de construir a imagem que vem e voltam em sua produção, estes não se configuraram (voltando ao nosso “molho Soledar”) em uma receita fácil. Não se tratam, me parece, de soluções formais que são repetidas de modo panfletário e simplista, mas podem ser vistas como reincidências que apenas um percurso de dez anos e o poder do olhar temporalmente distante são capazes de perceber. Os ingredientes desse molho visual proposto por Jorge, portanto, tem vários sabores, nuances e odores; alguns vieram de Porto Alegre, outros do Rio de Janeiro, uns tantos da Bauhaus e uns últimos da cultura visual escandinava.

Imersão e paciência são capazes de fazer com que o artista conheça bem suas ferramentas de trabalho. A partir daí, dia após dia, convite após convite, no lugar de se ter uma receita óbvia de molho (daquelas encontradas pelos sistemas de busca da internet), sua bagagem e sensibilidade fará com que novos ingredientes/imagens sejam lançados para o mesmo recipiente.

Da minha parte, espero e prometo contribuir com meus singelos palpites em torno da alquimia do fazer artístico/culinário. Quanto ao público (especializado ou não), espero que ele também se coloque a experimentar o universo poético de Jorge Soledar e amplie suas relações com a escultura, com as linhas e os asteriscos.




(texto publicado no livro "Como me tornei insensível", referente à produção de Jorge Soledar e publicado pela Editora Figo)

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