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segunda-feira, 30 de junho de 2014

Estômago




Estava aberta ao público entre os dias 23 de novembro e 21 de dezembro do ano passado uma nova exposição de Thiago Martins de Melo. Representado pela Mendes Wood DM, seus trabalhos foram mostrados em um novo espaço da galeria, na Vila Romana, um galpão capaz de abrigar obras em grande escala. Nessa área há um caráter mais industrial no entorno que cria um novo ambiente para o modo como o público trava um diálogo com as imagens. As paredes também são brancas e bem iluminadas, mas os ruídos da arquitetura extravasam qualquer tentativa de transformá-las na neutralidade do cubo branco.


Seis pinturas compunham a exposição, sendo que a menor delas tinha 360 centímetros de altura e a maior, cinco metros e vinte. Partindo da minha própria altura como medida, é possível dizer que essas duas de tamanho maior eram pouco mais que três vezes mais altas do que eu. Andar pelo espaço e tentar apreender a monumentalidade dessas pinturas foi, portanto, uma tarefa nada fácil. Como dar conta dos detalhes que não alcançava na verticalidade proposta por Thiago Martins de Melo? Impossível. Fugindo da certeza descritiva do meu olhar, me apeguei à estrutura dessas imagens, ou seja, as proposições formais dadas pelo pintor em sua relação frontal com o espectador.

Das seis pinturas, uma delas possuía um formato que diferia do conjunto; no lugar do caráter ascensional, o público se deparava com o formato de uma cruz. Esse elemento era realçado até no título da obra, “A cruz e o trono neocoronelista”, onde se percebia a figura de um porco portando um terno e entronado. Junto deste estereótipo visual do homem de negócios que ostenta seu wayfarer da Ray-ban, pessoas armadas, prestes a defender o neocoronel. Nesse campo de batalha, dois escorpiões entram em cena pelos lados dessa cruz.

A iconografia cristã sofre uma alteração fulcral – sai do lado superior a figura do mártir e entra um ícone do império do capitalismo contemporâneo. Aqueles que passaram por um trauma histórico são empurrados para a parte de baixo da imagem e se encontram a dividir um espaço asfixiante – um índio, homens negros e outras figuras sugeridas ao nosso olhar. Não apenas de figuras humanas se dá esse recorte da pintura, mas também se nota o contraste entre as cores da paisagem que desponta nesse polígono e a aridez de toda a parte superior da imagem, necessária para a sobrevivência dos escorpiões. Pensando junto à “Divina comédia”, de Dante, não há espaço nessa proposição para inferno e paraíso visto a insistente repetição de uma configuração da História do Brasil desde os tempos coloniais, ou seja, a relação entre explorador e explorado.
As figuras pintadas por Thiago Martins de Melo, porém, não poderiam ficar caladas. Como na pintura que recebia o espectador na entrada da galeria, intitulada “Árvore de sangue e fogo que consome porcos”, esse grupo pictórico parece versar justamente sobre um embate mitológico no campo da pintura, mas latente e diário na vivência em solo brasileiro. Uma série de rostos daqueles que podem ser considerados alguns dos revolucionários da História do Brasil são contrapostos às efígies daqueles que já governaram a nação. Antônio Conselheiro, a escrava Anastácia e Lampião são rodeados por pessoas que entre as chamas portam facões e foices. Nas raízes dessa “árvore de sangue”, os bustos de alguns dos responsáveis pelo sangue derramado e pelo extermínio que segue a trotar no território brasileiro do Oiapoque ao Chuí – massacres abalam o movimento sem-terra, a violência policial destrói famílias nas favelas e o espaço destinado aos indígenas é ocupado por madeireiras.

A pesquisa artística de Thiago Martins de Melo parece versar sobre esse jogo entre o consolidado e o instável dentro da cultura e dos jogos de poder no Brasil. Ao escrever desse modo, pareço fazer referência a uma produção panfletária, mas ao estarmos perante uma de suas imagens, temos uma profundidade de camadas de leitura. A cor é um dado fulcral nas imagens dessa exposição, mas longe da proposição carnavalesca de alguns brasileiros que escolhem temas que julgam ser “originais da nossa terra”, esbarrando no modernismo ou em uma pesquisa meramente formal. Prefiro lembrar dos ciclos pictóricos profusos da cor e encontrados nas igrejas de Veneza sob as autorias de nomes como Tiziano, Veronese e Tintoretto. O artista cria, tal qual os grandes mestres, uma narrativa visual condizente aos traumas da
terra brasilis: sem começo e sem fim, sem linearidade e através de uma perspectiva transhistórica, não temos um mosaico do Brasil, mas a ressonância de nosso estômago onde tumores benignos e malignos se ladeiam.

Por fim, é irônico visitar essa exposição no aniversário de oitenta anos de um quadro-chave do modernismo no Brasil, “Operários”, de Tarsila do Amaral. A artista ladeava rostos a fim de refletir sobre a crescente exploração da mão-de-obra imigrante e miscigenada de São Paulo. Quase um século depois dessa imagem, outros pintores como Thiago Martins de Melo, se colocam no lugar de criar uma paisagem menos ilustrativa, organizada e paulistocêntrica, mostrando uma proximidade maior com o inferno de Bosch. Os operários não são mais os outros, mas nós mesmos.



(texto publicado originalmente na ArtNexus de junho-agosto de 2014)

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