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sábado, 26 de abril de 2014

Entrevista com Christian Boltanski


Depois de realizar uma exposição na Casa França-Brasil em 2012, Christian Boltanski retorna ao Brasil para abrir sua nova exposição 19.294.458 +/-, no SESC Pompeia, entre 9 de abril e 29 de junho. O artista é conhecido por uma pesquisa visual que percorre o mundo desde os anos 1980, em especial devido às suas instalações em que articula, como diria Paul Ricoeur, “a história, a memória e o esquecimento”.


Em Os arquivos do coração, o público grava seus batimentos cardíacos e depois é convidado a escutar os batimentos gravados em diferentes países. Sobre esse trabalho e sua prática artística em geral, qual a relevância da ideia de “coleção”? 
Primeiro, se você faz uma coleção, ela nunca é concluída. Colecionadores estão sempre insatisfeitos porque há algo faltando, e aí está a beleza de colecionar. Mas, para mim, não se trata de uma coleção, é mais um arquivo, e um arquivo também nunca se conclui. No entanto, é algo mais útil. Não é uma coleção de modo algum! Se o arquivo é sobre pessoas que usam jaquetas brancas no Brasil, é algo útil para a sociologia, para o design de moda. Algo como suíços mortos ou bebês poloneses, por exemplo, são matéria-prima para criar uma obra. Eu não coleciono fotos.

Colecionar é uma prática antiga, popularizada na Renascença com as Kunstkammers (gabinetes de curiosidades). Como a Internet, as redes sociais e a tecnologia avançada de registro digital podem afetar os conceitos de arquivamento e colecionismo?
Se você usa a Internet, não precisa colecionar nada, pois tem tudo nela, já está tudo colecionado. E o que há de terrível e belo nela: é a maior coleção do mundo, mas é tão grande que podemos nos perder e ter problema para encontrar o que queremos. Acho também que coleções são bobas. Colecionar por colecionar é algo totalmente bobo para mim. Nunca colecionei obras de arte, nunca colecionei coisa alguma.

Você vem viajando pelo mundo desde o começo de sua carreira. É difícil se relacionar com diferentes histórias locais e memórias ao redor do globo?
Eu sempre olho para uma obra da Ásia como uma obra da Ásia. Da primeira vez que expus no Japão, havia muitas obras com flores e os japoneses, muito educados, diziam “sua arte é tão japonesa, você é tão japonês; tenho certeza de que seu bisavô era japonês”. Eu gostaria que, quando fosse à África, alguém me dissesse: “sua arte é tão africana, você parece um africano”. Na verdade, acho que um artista não tem face. Seu rosto é como um espelho, quando alguém olha pra ele, diz “sou eu”, seja japonês ou brasileiro.


Sobre seu trabalho em São Paulo, 19.294.458 +/-, a descrição menciona o uso de listas telefônicas. Em 2002, as listas telefônicas foram base para a instalação Os assinantes do telefone. Por que retornar a esse material em uma cidade como São Paulo, 12 anos mais tarde? Acha que as listas telefônicas ganharam um novo status?
Hoje ninguém mais usa listas telefônicas, tornou-se algo antigo, vintage. Digo que minha obra deve ser feita usando e-mails, porque em poucos anos não haverá mais qualquer lista telefônica. Podemos acessar o nome de quase todo o planeta pelos computadores. 

Nesse trabalho, o público poderá caminhar em uma plataforma pelo meio dos arranha-céus. Metaforicamente, acha que seu trabalho pode lidar com a memória de São Paulo de duas formas: a distância, de forma panorâmica, e também como um convite para observar as transformações históricas que a tornaram uma das maiores cidades do mundo?
Como eu disse antes, é, ao mesmo tempo, um trabalho sobre São Paulo e sobre o povo de São Paulo, com certeza, mas é também para dizer algo diferente. É uma obra minimalista, ou eu espero que seja, pois não tentei criar todos os pequenos detalhes, as pequenas janelas; quer dizer, tem o espírito, mas não é uma cópia da cidade. Espero que mais sentimental. Escolhi esse título por ele ser tão incrível, pois ele é sempre mais ou menos, está mudando o tempo todo.


Citando suas palavras: “Fazer arte não é dizer a verdade, mas fazer a verdade ser sentida”. Como você vem fazendo projetos no Rio de Janeiro desde 2013, quais são seus sentimentos sobre as “verdades” que experimentou no Brasil? 
Quando eu estava trabalhando em "A reserva dos suíços mortos", havia algo como 100 suíços mortos e um suíço vivo. Então eu disse a mim mesmo: “Se espero um pouco mais, o título será verdadeiro”. É só uma questão de tempo. O que é verdade e o que não é não são coisas simples. Sobre o Brasil, estive aqui apenas por duas semanas. Acho que é um dos países mais otimistas nos quais já estive. As pessoas podem pensar nele como um dos grandes países do futuro. Estive em São Paulo na Bienal, há uns 25 anos, e foi algo um tanto deprimente, devo dizer. E agora o Brasil está cheio de energia, cheio de jovens querendo mudar as coisas. Eu não sou uma pessoa muito envolvida em política, mas entendo que o Brasil tem bons políticos. Realmente, houve uma mudança no país, mas eu não cheguei a ver sua parte pobre.

(entrevista realizada por e-mail e publicada originalmente na Revista Dasartes de abril-maio de 2014)

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