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segunda-feira, 10 de março de 2014

Infinitivo


Desdobrar, embolar, costurar, encaixar; poderíamos dizer que a pesquisa artística que Leandra Espírito Santo vem desenvolvendo diz respeito à exploração dos verbos no infinitivo. De diferentes configurações do ambiente e dos modos de registro, seu trabalho tem se configurado como uma “poética do fazer”, ou seja, são imagens que demandam tanto um esforço da artista para construí-las, quanto do público para apreendê-las.

Os recentes barcos de papel (mais barcões do que barquinhos) se constituem como um trabalho com várias camadas expositivas e de leitura. O ato de fazê-los pode ser considerado uma performance oferecida à fruição do público que percebe o processo artesanal e de encaixe da estrutura. Num segundo momento, no espaço público, podem ser vistos como uma intervenção urbana e/ou instalação sujeitos à ação do tempo e da natureza. Por fim, também vivem como fotografia e ao serem vistos desse modo se transformam em uma narrativa de algo próximo ao realismo fantástico do cinema e que, inevitavelmente, nos coloca em contato com nossas lembranças de infância.



Todos esses nomes usados na “catalogação crítica” da arte contemporânea (fotografia, instalação, intervenção, performance) poderiam ser deixados de lado através de seu trabalho e o público é convidado a embarcar em um campo semântico em que a banalidade de um fazer com as mãos de nossas infâncias é recodificada. A casa que flutua rumo ao espaço fora da imagem ou ao seu destino trágico em “Em busca da terra do nunca” é sustentada pelo mesmo material (balões) que são enchidos por isopor em uma das máquinas criadas pela artista. Essa invenção maquínica que vai “do nada ao lugar algum”, no melhor dos sentidos, existe para que o corpo se movimente e se produzam “pedaços de arte”, finalidades sem fim, através de um mecanismo que, como diversos brinquedos, é imbuído de algum sentido pela repetição do uso.

Isso pode ser visto, por exemplo, na máquina de tricô utilizada em “De tudo fica um pouco”. Como que essas pequenas máquinas que emulam o trabalho adulto podem ter sido tão bem sucedidas em um país tropical como o Brasil? Quem, efetivamente, chegou a ostentar em seus pescoços essa lã vermelha? Nas mãos de Leandra Espírito Santo, o cachecol se converte em uma espécie de cordão umbilical; essa linha é um rastro da sua própria memória enquanto mulher adulta que agora se pode alastrar por outras gerações e corpos domesticados – seja pelo uniforme escolar, seja pela unidade capilar e loira das chapinhas.



Desses verbos no infinitivo não ficamos com “um pouco”, mas sim com a curiosidade de observar de perto quais os próximos rumos (desdobramentos, embolamentos, costuras e encaixes) nascerão dessas mãos obcecadas não só pelo “fazer artístico”, mas pela ideia de trabalho em si. 


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