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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Rio sem fumaça




"Rio sem fumaça" se trata da primeira experiência expositiva do Programa de Residências Internacionais do Barracão Maravilha. Seu título vem das placas de incentivo espalhadas pelo Rio de Janeiro para se evitar o hábito do fumo em lugares fechados. O leitor poderia, dependendo de seu conhecimento do português, pensar a frase como uma chamada para a cidade sem cigarros ou entende-la como uma estranha conjugação do verbo “rir” colocada na primeira pessoa da singular, ou seja, eu, o sujeito, rio sem fumaça. Parece que esse jogo de interpretações e palavras é algo que pode ser visto nas formas dos trabalhos produzidos e selecionados por Flurin Busig e Manu Engelen nesse mês que habitaram o solo carioca.

As pinturas de Manu mostram, como ele comentou algumas vezes, a presença do humano através da construção de objetos, máquinas e arquiteturas. Temos um indício do homem através de suas criações e sua cultura material. Se esse é um dos pontos de partida, os resultados obtidos apontam para interpretações que podem levar em consideração, por exemplo, aproximações formais feitas a partir de como ele conjuga frente e fundo em relação a pintores (De Chirico, por exemplo) preocupados em explorar a relação entre um espaço que poderia ser chamado de clássico, mas que assume o seu caráter de ficção. As cores sobre a tela são representações de aviões ou uma exploração de sua forma geométrica inicial – ou apenas pinceladas. Imagens potentes são criadas e capazes de articular a monumentalidade da arquitetura e a apreensão do sublime da paisagem. Habitação e vapor caminham lado e lado e intrigam o espectador com seu caráter icônico.




Enquanto isso, no segundo espaço expositivo, Flurin apresenta uma de suas primeiras experiências com o audiovisual. Após construir uma caixa cênica em que pode se utilizar de materiais precários para montar uma estrutura escultórica, através do uso de uma pequena rede comandou uma câmera que capturou essa instalação através de pontos de vista impossíveis para o corpo humano. Com imagens que ora são apresentadas por um ponto de vista do interior para o exterior, intercaladas com o próprio caminhar do artista sobre o espaço, o público é convidado a fruir documento audiovisual e objeto tridimensional. Ampliando essa leitura, poderíamos falar mesmo de uma relação entre desenho e resultado, projeto e edificação – tópicos esses que norteiam tanto essa instalação, quanto algumas pequenas esculturas construídas linearmente e que projetam seus desenhos posteriores, suas sobras, sobre as paredes que não são papel.

Voltando ao título desse encontro entre Flurin Busig e Manu Engelen, podemos olhar seus trabalhos justamente através da proposição ou do desafio de desarticular o humano (o sujeito risonho) da fumaça (aquilo que escapa às medições e ao domínio do homem). Constroi-se, então, para se descontruir; projeta-se para se duvidar daquilo que acabou de ser feito; e, por fim, se esforça para se sair do lugar seguro. Afinal de contas, sair de sua cidade de origem, seja ela na Bélgica ou na Suíça, para habitar um espaço da alteridade por um mês, não é também por si só um esforço pela desarticulação?





(texto para a exposição da primeira edição do Programa Internacional de Residências, no Barracão Maravilha, entre 31 de agosto e 6 de setembro)

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