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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Amar olhar


Ao sair da exposição de Luiz Zerbini, uma famosa comparação entre desenho e cor veio à mente. Se o desenho, dentro da tratadística clássica, é comumente relacionado à imitação, ao estudo do corpo humano e à racionalidade, a cor é atrelada à emoção, à impulsividade e a gêneros artísticos como a paisagem e a natureza-morta. O artista Giorgio Vasari, por exemplo, em dado momento de seu livro sobre as biografias dos mais importantes artistas do Renascimento italiano, de 1568, relembra um comentário feito por Michelangelo sobre Tiziano. Ele teria afirmado que admirava muito o colorido do segundo, mas que era uma pena que os artistas venezianos não fossem conhecedores do desenho; se eles o praticassem melhor, certamente seriam os melhores pintores.

Intitulada “Amor”, esta exposição reunia trabalhos inéditos, além de outros apresentados em exposições da última década. Segundo texto de apresentação do próprio Zerbini, esse título está baseado em comentário feito acerca de uma pintura de grande dimensão em que trabalhava por um longo período. Ao ouvir um surpreso “Nossa, é muito amor!”, o artista começou a enxergar a sua pesquisa artística através dessa palavra que, como ele também indica em seu texto, é um “lugar comum”, porém polissêmico.


E como não ter reação semelhante ao nos depararmos com essa série de pinturas em grande escala? Girando em torno de três a quatro metros de largura e altura, o espectador é colocado em um lugar de pequeneza perante a potência destas imagens; não se trata apenas de fazer algo grande, mas sim um monumento à pintura capaz de nos sentirmos devorados pela visualidade. Ao percorrer os olhos por estas pinceladas, poderíamos dizer que se trata de uma pintura interessada em criar paisagens. Em “Mamanguá – Recife”, por exemplo, desde o título há uma orientação geográfica. Sobre a tela, folhas estão à frente da penumbra dos galhos de outra árvore. Pedras cobertas por uma espécie de limo estão ao seu lado e, sobre estas, um peixe fora d’água.


Parece ser este o mesmo lugar do apreciador destas imagens; tudo se encontra fora de seu meio, deslocado, fora d’água. Até que ponto é possível seguirmos aqui com uma análise formal ainda baseada em parâmetros perspectivos? Uma caixa de som, uma lâmpada e um chinelo também estão presentes. Deveríamos ampliar nosso conceito de paisagem pautado na imitação da natureza e iniciar um discurso sobre uma “paisagem contemporânea” composta pela apropriação de imagens da “tecnologia”? Esta última palavra, muito usada pela abordagem da arte contemporânea no que diz respeito ao uso de objetos digitais, parece requerer uma outra leitura no que diz respeito à obra de Luiz Zerbini. Talvez devêssemos revisitar essa palavra tal qual sua primeira concepção advinda do grego, como tekhné (arte) e logos (linguagem), ou seja, como um estudo sistemático de um ofício – o da pintura, neste caso. Por esse viés, o próprio “amor” do encantado comentário feito ao seu processo de construção de imagens será de outro modo compreendido; um amor pela própria pintura.

Voltemos ao tópico “desenho e cor”. Se por um lado estas pinturas parecem dotadas de um impulso cromático, por outro, um olhar atento perceberá que elas são dotadas de uma disciplina tão grande quanto aquela desejada por Michelangelo, a do desenho. A potência cromática desta exposição só se faz possível devido a uma consciência da própria história da arte por parte do artista. Recortes de paisagem tropical são justapostas a formas que irão remeter à arquitetura moderna. Esta sutileza aparece, por exemplo, em um título de pintura como “Le Corbusiers 3º mundo”. A frieza e verticalidade da arquitetura modernista é quebrada por uma disseminação cromática. As janelas se transformam em mosaico e o projeto urbanístico em uma imagem semelhante ao jogo Tetris.





Sobre troncos de árvores, linhas coloridas serão pintadas. Não se trata de uma pintura que se quer apenas como o recorte de uma janela, mas que é acompanhada de uma cortina e de uma grade que tornam a apreensão visual complexa. Se em algumas dessas telas lembramos de Mondrian, em “Mamão manilha” existe uma citação aos metaesquemas de Hélio Oiticica. Esta inserção abre caminho para enxergarmos a produção de Zerbini através de uma característica importante da produção plástica de Oiticica: a precariedade.


Esta aparente desorganização visual não se faz presente apenas nas pinturas aqui mostradas, mas principalmente em uma instalação central à exposição. Troncos, elementos de construção civil, pequenos estudos cromáticos e diversos outros objetos que remetem aos campos semânticos da arquitetura, da própria pintura e da natureza são organizados em mesas de madeira e vidro. Os componentes destas pinturas se encontram organizados como que num museu de história natural. Enquanto o espectador se põe a imaginar os processos de colagem feitos pelo artista a fim de chegar aos produtos finais, tem à sua disposição também outra série de trabalhos feitos literalmente através da colagem de 
slides. Assim como Oiticica, o artista aqui se utiliza da cor sugerida pelo próprio objeto escolhido; há uma transparência quanto à técnica utilizada e, através dela, prédios e panoramas urbanos são indicados.

Talvez mais do que o amor pela arte e pela pintura (capaz de ecoar as referências aqui apontadas, mas ainda devedoras do rótulo “arte”), o trabalho de Luiz Zerbini fale sobre o amor pelo próprio olhar. Em um movimento pendular entre a ordem e o caos, entre o desenho e a cor, sua produção artística nos faz lembrar que a possibilidade da visão em si já é devedora de nosso amor.

(texto publicado originalmente na revista ArtNexus de março-maio de 2013)

Um comentário:

Erica Tulip disse...

Crítica inspiradora.