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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Braços abertos sobre a Guanabara




“Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara” canta Tom Jobim em “Samba do avião”, canção composta em 1962. O Morro do Corcovado, local onde o Cristo Redentor está instalado, se configura como um dos cartões postais do Rio de Janeiro e uma das paisagens mais icônicas do Brasil. No cume da exuberância montanhosa e tropical, realçada de repetidos modos no decorrer da historia das imagens relativas ao Brasil, há a proeminência desta figura cristã que contrasta com a vivacidade do entorno. Vertical, a postura de redenção de Cristo remete ao episodio bíblico da crucifixão. Morte e paisagem, portanto, caminham lado a lado. Os “braços abertos” de Tom Jobim, símbolo do caráter acolhedor da cidade, são os mesmos dos martírios religiosos.

Abaixo do morro, ao lado do mar, no bairro de Ipanema, acontece a exposição “Sobre humano”, de Carlos Mélo, na Galeria Laura Marsiaj. Dentro de um espaço expositivo chamado Anexo, destinado a projetos de pequenas exposições, o artista divide com o espectador dois novos trabalhos. Um deles, um desenho de grande escala, é uma citação a este monumento santo do Rio de Janeiro. No lugar de representar a coluna de concreto que sustenta a figura, o artista opta por tornar visível outra estrutura primordial, ou seja, a coluna vertebral. O que sustenta a arquitetura cede lugar àquilo que faz um corpo ficar ereto. A base que institucionaliza uma escultura é, neste desenho, circundada por uma dispersão de ossos humanos.

Qual o lugar do manto de Jesus na cultura contemporânea? O artista o substituiu por um terno e sacraliza uma espécie de executivo. O que poderia haver de mais sagrado atualmente do que a figura igualmente icônica daquele que administra movimentações financeiras? Mais próximo de uma alegoria da morte, Cristo traja preto. Saem os traços esquemáticos do art déco e ganha destaque um esfumaçado que deixa duvidas. Assim como em trabalhos anteriores de Carlos Mélo, há aqui uma pesquisa em torno da ocultação da face; quem é esse homem de braços abertos? Mais do que isso, poderíamos mesmo apontar para o gênero masculino? No lugar do rosto sagrado podemos ver o meu, o teu ou os olhos de qualquer terceira pessoa.


Ao lado deste desenho vemos uma escada. Ao se olhar de perto, o material escultórico chama a atenção: ossos e arame. Esse segundo trabalho de Carlos Mélo pode ser interpretado através da própria iconografia do cristianismo. Segundo a narrativa bíblica, após ser crucificado, Jesus teve seu corpo retirado e descido da cruz (João, 19: 38-42). No decorrer desta representação através da pintura, por diversas vezes há a inclusão da escada, objeto que teria auxiliado neste momento anterior à deposição de Cristo. Se os apóstolos utilizaram esses degraus para locomover um cadáver, o artista promove o ato poético de descer o mesmo homem, porém do Morro do Corcovado para o campo da arte contemporânea.

Os ossos que dão forma a este objeto realçam a morte que pulsa pelo espaço expositivo. Na ausência do cadáver, nada mais justo que a composição seja feita por aquilo que permanece como indicio da passagem do tempo. Que o espectador não se engane; não fruímos aqui ossos humanos, mas de boi. Nesse sentido, o artista coloca lado a lado homem e animal, os igualando a uma mesma condição existencial. O que estaria resguardado sob a terra foi escavado e ganhou a superfície por uma segunda vez, dando prosseguimento a esta antimonumentalização da escultura pública.

Voltemos ao titulo da exposição: “Sobre humano”. Em primeira instância, poderíamos interpretar essas duas palavras como referentes ao tema central da exposição, ou seja, o corpo humano – seja quando transformado em desenho e escultura pública, seja quando desmembrado e refletido ironicamente através de um objeto usado por humanos, mas composto por ossos bovinos. A palavra “sobre”, porém, não se refere apenas a “versar sobre um tema”, mas também aponta para uma configuração espacial; “sobre humano” pode querer dizer respeito a “estar acima do humano”. Com essa perspectiva, como se esquivar da referência ao Cristo Redentor, aquilo que se encontra “sobre a Guanabara”?



Numa terceira trilha, estes trabalhos de Carlos Mélo parecem falar sobre outro lugar acima – não se trata mais de geografia, mas de um embate com o transcendental que antecede a própria configuração de um espaço. Mais do que citar o cristianismo, estes trabalhos parecem girar em torno daquilo que é intrínseco a qualquer existência: o fim. Através de duas imagens, o artista consegue realizar uma exposição visualmente precisa e repleta de caminhos interpretativos. O espectador, por fim, se vê de frente a um exemplo de produção contemporânea que se redime dos conceitualismos baratos e nos coloca em uma relação mais ancestral – e por que não, “humana” – com a visualidade.


(texto publicado original na revista ArtNexus de dezembro-fevereiro de 2012-13)

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