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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Azul, cinza e dourado



Três são as cores que podem definir a última exposição da Temporada de Projetos 2011 do Paço das Artes, em São Paulo. O azul de Daniela Seixas, o cinza de Ivan Grilo e o dourado de Felippe Moraes.

Ao entrar no espaço museográfico, nos deparamos com uma caixa de acrílico suspensa por uma estrutura de metal. Proteção para um objeto frágil? Um papel extenso horizontalmente cuja apresentação lembra a de um mapa raro. No lugar de limites geográficos, linhas azuis se sobrepõe e ocupam todo o seu espaço. O que poderia ser um mapa hidrográfico é transformado em miniatura de um oceano artificial. Isto é reforçado pela presença de uma escada que convida o espectador a contemplar esta imagem através de um ângulo superior. Os detalhes dos riscos vistos sob a mesma altura do desenho são substituídos pela impressão de movimento das ondas de um mar de papel. Após esta aproximação, parece mais adequado apelidar este objeto de “aquário”.

Este monumento ao mar é reforçado pela distribuição de cartões postais com sua própria imagem pela parede; um “vim, vi e venci” dedicado a um local fictício, do campo fenomenológico da arte. Ao seu lado, a demarcação de um horizonte que não é desta paisagem marítima, mas sim do próprio ato do desenho: as cargas das canetas utilizadas para a realização da obra estão às vistas do público navegador. Circundando estas imagens, um som que não é nem do choque entre ondas, nem do encontro entre mar e terra, mas sim do embate entre caneta e papel. A caneta se afia sobre a superfície e o oceano é expelido de seu fino corpo. Pode-se acompanhar este processo tanto através do áudio, quanto junto a seis televisores que mostram a artesania da obra. De modo transparente, temos expostas a sua etapa construtiva (processo) e as consequências de sua existência (desutilização de canetas e transformação do resultado em imagem fotográfica).



Em “A riscar”, Daniela Seixas pensa a relação entre desenho e paisagem, linha e horizonte. O azul é protagonista memorioso, fazendo lembrar do modo como a pintura era valorada durante o século XV. Segundo Michael Baxandall, em seu “O olhar renascente” (1972), parte das encomendas pictóricas tinha seu valor definido a partir do quanto de cor azul ultramarina era utilizada para a sua realização. Se trouxéssemos esta medida de mercado para esta exposição, as obras de Daniela Seixas teriam valor ímpar.

Ainda a pensar junto a Baxandall, neste mesmo livro o historiador da arte cita documentos relativos a um momento anterior da pintura ocidental, em que o valor não era dado através da medição do azul. As imagens produzidas durante os séculos XIII e XIV eram orçadas de acordo com a quantidade de dourado empregado. Isso parece nos fornecer um ponto de contato com outra produção de imagens, ou seja, “Construção”, de Felippe Moraes.

Um quadrilátero de tapumes é construído dentro desse espaço também composto por quatro paredes que é o museu. A contribuir com essa referência, a projeção em um dos lados da sala do mapa do Paço das Artes. Em intervalos de breves segundos, quadrados brancos são sobrepostos a essa projeção de fundo preto. Kazimir Malevich? Ecos da arte moderna? O artista russo diz em seu manifesto “Do cubismo ao suprematismo”, de 1915: “O quadrado não é uma forma subconsciente. É a criação da razão intuitiva. O rosto da nova arte. O quadrado é o infante real, vivo. É o primeiro passo da criação pura em arte”. Esta fala de Malevich, impulsionada pela vontade de se chegar a uma perfeição artístico-matemática, é revista por Felippe Moraes e seus quadrados fantasmáticos. Assim como essa estrutura arquitetônica precária que abriga sua exposição, todo conceito, forma visual e museu artístico é também construção. Devemos nos perguntar, portanto, se existe como realizar uma “criação pura em arte”.



O artista transforma esta mesma forma geométrica em objeto de adoração. Quatro molduras com quadrados dourados são colocadas sobre uma parede. Se de longe eles parecem flutuar sobre uma folha branca, no detalhe percebemos que são espremidos por ferramentas de construção que possuem o contorno indicado através de serigrafia branca. Estas imagens contrastam com o caráter monumental e agressivo da parede destruída logo ao lado e que mostra ao espectador um detalhe escondido: por trás desse cubo branco de madeira haveria um outro cubo dourado. Da bidimensionalidade para o entorno do espaço expositivo. Da pureza e economia formal de Malevich para a arte como objeto de adoração através do ungido dourado bizantino.

Outros instrumentos se encontram espalhados pela sala. Três exemplares daquele objeto que dá liga e estrutura, que constrói, o martelo, estão presos à parede; lhes foi pregada uma peça e o feitiço virou contra o feiticeiro. Um pêndulo dourado reina inerte no centro da sala, acima de um pequeno monte de terra. Foucault e Newton construíram seus pêndulos, mas a pergunta que aqui fica é: o mundo é passível de medição? E o número que constitui o Pi? Quando seu resumido 3,14 é dissecado em uma multidão de números de contornos dourados sobre uma parede, como devemos reagir? Espanto, maravilhamento, ironia? É possível imprimir qualquer certeza objetiva acerca do mundo através das ciências ditas exatas? Deveríamos, na incerteza destas, apelar para o transcendental? Perguntas sem respostas. Arte, ciência e alquimia.


Dando prosseguimento ao nosso trajeto pela história das técnicas artísticas, devemos retornar ao século XV. Nestes cem anos é assistido não exatamente ao surgimento, mas a uma maior realização e distribuição geográfica das gravuras. As obras, portanto, realizadas seja com toques de dourado, seja com o azul ultramarino, passam a ser copiadas por gravuristas e disseminadas por diversos espaços da Europa. Se Maomé não vai até a montanha, a montanha vai até Maomé. O colorido é substituído pela monocromia das xilogravuras de Schongauer e as gravuras em metal, futuramente, de Rembrandt. Reproduzir imagens é a frase de ordem e por esse viés chegamos a “Ninguém”, de Ivan Grilo.

Quinze linhas, quinze colunas e outro quadrado – não, este não é dourado. Seu contorno e preenchimento é dado através da utilização de fotografias em preto e branco. Os homens são as colunas, os falos, ao passo que as mulheres são as linhas, os corpos estirados sobre a cama. Quem são essas pessoas? Quais os seus nomes próprios? Não sabemos e talvez possamos afirmar que todos eles são “ninguém”, tal qual o título da exposição. São indivíduos que já foram transformados em imagem; o afeto do possuidor das fotos deu lugar ao cuidado do arquivo e do museu. A genealogia indicada pela imagem foi transformada em patrimônio material da história da fotografia. Não se preserva a memória de uma pessoa, mas se enfoca na história técnica da civilização.



Ao olhar essa colcha de retalhos, nos perguntamos: “E se?”. Algum destes casais efetivamente existiu enquanto tal? Drummond ecoa por essas imagens. Quem aqui é a “Teresa que amava Raimundo”? Ou seriam todas estas duplas uma grande procissão de J. Pinto Fernandes, ou seja, elementos abruptos, apropriados e recodificados como objetos artísticos por Ivan Grilo e que não tinham “entrado na história” afetiva uns dos outros? De todo modo, a imagem resultante é tão construída quanto a imagem originária, realizada dentro de um estúdio fotográfico e com regras de etiqueta visual. O mesmo não se poderia dizer para as relações interpessoais, com muita frequência artificiais, fabricadas e com finalidades específicas?

Um grande retrato de casal domina outra das paredes desta sala. Uma figura feminina e uma masculina, mas sem rosto. Sua vestimenta e cabelo são feitos com a utilização de carimbos que indicam um número de quatro dígitos. O ano de nascimento e o hífen que aponta para um abismo. Por quanto tempo perduraram esses humanos? Poderíamos dizer que eles irão rumo à atemporalidade, visto terem se transformado em um objeto de arte? Mas todo objeto não está fadado à destruição? Por quanto tempo estas memórias visuais irão se prolongar? Se aqui há a representação desse número-guia, em outro trabalho exposto apenas temos a reprodução de um documento institucional. O artista elimina nomes próprios e referências geográfico-temporais que são indício do surgimento de mais hominídeos. Um monumento ao anonimato. A possibilidade de não ser notado por existir apenas como mais um elemento do conjunto. A aparição repentina em verniz de duas imagens da mesma mulher sobre a parede. Profana ou sagrada, é preciso que nosso olhar funcione como um farol para que a percebamos.

Após esse trajeto por essas diferentes pesquisas de três jovens artistas, se chega a linhas de conclusão: navegar é preciso; construir é preciso; desaparecer é preciso. Faz-se necessário explorar as diversas mídias que a arte contemporânea possibilita a fim de se solidificar e presentear o público com uma diversidade de propostas. As nuances de reconhecimento crítico e institucional são latentes, mas já sabemos que para se lembrar é preciso esquecer – seja o artista jovem, em meados de carreira ou um anônimo artesão das cores advindo da tradição clássica.

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