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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Vórtice



Oito fotografias horizontais se encontram ladeadas dentro do Centro Cultural São Paulo na exposição “Da natureza”, de Lívia Aquino. Ao caminhar, percebemos um número maior de paisagens tropicais que acompanha algumas imagens mais áridas. Deserto, canyon e cacto podem ser tidos como contraposição ao verde, cipós e raízes proeminentes. Diferente do que esta descrição pode fazer parecer, não se tratam de registros fotográficos daquilo que foi criado pela deusa Gaia (ou pela Mãe Natureza); três dados se apresentam dissonantes.

Lâmpadas aparecem na parte de cima de todas estas fotos. Devido à sua luz podemos perceber que há um contraste entre figura e fundo, ou seja, a uma imagem pintada se justapõem objetos tridimensionais. As folhas de árvores são, portanto, fruto do trabalho artesanal da pintura. Estas imagens “da natureza” acabam por dizer mais “do homem” e do seu esforço por apreender e simular de forma bidimensional aquilo que nos cerca.

Ao centro, no espaço um dia reservado para a apoteose da perspectiva, as bordas de um retângulo nos aguardam. Este polígono dentro do polígono que é a imagem fotográfica se apresenta como um objeto; parafusos à sua esquerda mostram que se trata de uma pequena porta. O elemento que permitiria entrar ou sair desta cenografia é o mesmo que explicita o caráter fictício dos panoramas pintados. O ponto de fuga aqui é literal. A paisagem se apresenta, assim como o fantasma de Malevich que assombra estas imagens, como artifício e construção.



Na área de baixo, um elemento circular quebra com estes ângulos retos. Num segundo olhar, sua estranha essencialidade o configura como um punctum fotográfico – trata-se de um ralo. Mas o que diabos este objeto causador de vórtices faz neste conjunto? Após algum tempo de reflexão, uma suspeita e constatação nos lança de modo espiralado para um cano: estamos à frente de registros de viveiros de animais aquáticos. Na sua ausência, fomos colocados em seu lugar e nadamos daqui para ali, presos nesta caixa de vidro às vezes transparente, mas sempre trapaceira que é a arte, que é a natureza e que é a existência.

A fotografia, esta técnica que um dia foi filha da Ciência e da Verdade (com letras capitais maiúsculas), é colocada a serviço de uma narrativa teatral: a paisagem artificial como palco e quatro cortes que são fendas para esta coxia que é a interpretação do espectador.


(texto publicado originalmente no Jornal do Commercio, na Página da Caza, em 6 de julho de 2012)

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