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segunda-feira, 21 de maio de 2012

Repouso



Três imagens: sapatos, facas e cruzes. Seu ladeamento é uma proposição expográfica dada pela curadoria ou teria Andy Warhol concebido esta série de objetos fotográficos com a finalidade de mostra-los em conjunto? Essa é a pergunta que me ficou após percorrer os olhos pelas suas trezentas fotografias em Polaroid expostas no Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

Recebidos na entrada por uma grande reprodução de seu famoso autorretrato acompanhado pelo nosso futuro garantido, uma caveira, adentramos uma espécie de arena expositiva. Nela, grupos de polaroides emolduradas sobre cada parede. Cada linha (ou fileira) de imagens possui um recorte específico: celebridades num andar, pequenas narrativas domésticas em outro, objetos banais mais abaixo. A produção fotográfica de Warhol, portanto, é dividida como os gêneros da tradição clássica: obras históricas, paisagem e natureza-morta, cada um tem um espaço diferenciado.

Voltando ao trio de imagens que me feriram. Dez sapatos preenchem uma composição em um inventário de ângulos. Poderíamos chama-los de “calçados femininos”, vista a pesquisa do artista sobre os muros que separam o masculino do feminino? Uma constância: saltos dos mais diversos tamanhos. Aquilo que amortece é também o que fere a estrutura óssea do corpo humano. O objeto que poderia ser tachado por banal e impessoal ganha uma segunda camada quando se repara que sobre ele há uma palavra inscrita – Halston, em letras capitais. Uma grife, um estilista, um amigo de Warhol; a imagem é, então, monumento e publicidade.

Do lado oposto desta fotografia, cruzes e a ausência da pesquisa pela tridimensionalidade aparente. Não há variação, apenas certeza: doze vezes a morte, preto sobre o branco. Sem surpresas, um estudo sobre o óbvio e uma pesquisa formal sobre uma das imagens mais recorrentes da história da arte. O cemitério se transforma em grade.

Entre estas duas imagens, uma terceira somada a uma questão: qual das polaroides que Warhol produziu sobre estas facas que se encontrava exposta? Tento recorrer à memória, mas não as alcanço com exatidão. Nem mesmo a Internet, suas buscas e seu excesso de informações me dão a garantia da imagem exposta. Fico na dúvida entre duas fotografias. Na primeira, uma fileira de facas posa para a fotografia e temos a organização serial comum à poética do artista. Na outra, um “retrato de casal” com um ser mais mortal que o outro. A lentidão pontiaguda do salto alto faz um contraponto com a velocidade de dano proporcionado por esta extremidade de metal.

O esforço pela lembrança de uma imagem agonia, mas é sintomático. O que é possível lembrar após esta avalanche de pequenas imagens de 9x11 centímetros? Diremos, talvez, que fitamos por mais tempo as personalidades que Warhol registra: Schwarzenegger, Lisa Minelli, Debbie Harry, sua própria imagem... e os pseudoanônimos? E os integrantes do seu círculo social que nos chegaram devido ao seu clique e que não reverberaram no cinema, na música pop e nas artes visuais como criadores? Possuem nome e sobrenome escritos na placa de um museu, mas talvez apenas Warhol fosse capaz de recitar a biografia de cada um. Eles são tão fantasmas quanto os fotografados distantes da lente nas primeiras experiências do século XIX ou como aqueles encontrados nos álbuns de família cujos nomes escapam à lembrança de nossas mães.

As polaroides de Andy Warhol são como estes calçados com salto alto: elevam o 
status das imagens registradas, as alavancando como arte emoldurada tal qual um altar faz com um objeto sagrado. Todos estes nomes, porém, serão esfaqueados pela malícia do tempo e da História. A queda do salto é certeira e    só restará o repouso - tão silencioso como uma fotografia.

(texto publicado originalmente na Revista Contemporartes em 22 de maio de 2012)

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