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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Pastar








Ao se buscar em um dicionário o significado do verbo “pastar”, uma das acepções encontradas é “dar pasto a; fazer nutrir-se em pasto; levar ao pasto, pastor”. O que Luciano Boletti nos apresenta? Poderíamos nomeá-lo, após esta consulta denotativa, como um artista-pastor.

Vacas em variados tamanhos são apresentadas ao público, aplicadas diretamente sobre as paredes da galeria. O seu gesto remete ao pasto já que todas elas advém da mesma imagem referencial, uma fotografia produzida pelo artista que capturava o animal no momento da alimentação, rodeado pela grama e pela silenciosa majestade de uma paisagem catarinense. Chão, linha do horizonte e três quartos de céu. Esta estrutura compositiva remete a um artista da calmaria, o holandês Adriaen van de Velde e sua coleção de “filmes mudos” pintados. Não há espaço sequer para o vento; tudo está em slow motion e somos convidados a desacelerar o nosso ritmo cotidiano.

A paisagem das vacas serializadas de Luciano Boletti é a própria tinta do cubo branco. O que aconteceu com o entorno? Comido foi por estes animais? As cavernas de Altamira e Lascaux foram atualizadas e substituídas por um espaço institucional da arte contemporânea. A monocromia de cada vaca é composta por diferentes representações de objetos e letras. Desta forma, estes carimbos, típicos do universo infantil e do início da construção da relação entre signo, significado e significante, dão o contraste de cada vaca com o “vazio” da superfície que realça a sua potência.

O caráter religioso que este animal possui em algumas religiões ecoa nessas imagens. Adorada, sagrada e protegida por diversas leis na Índia, a vaca também é símbolo de adoração em certas regiões do Japão. Um objeto vermelho e bovinomórfico chamado akabeko decora, cura e protege as famílias japonesas de doenças. Com Luciano Boletti, temos uma recodificação do sentido apotropaico que este animal possui nessas culturas; do poder de adoração da imagem através da religião para o impacto da imagem através de sua configuração sintética. Da transcendência para a imanência.

Parte destas imagens salta aos olhos: vacas douradas pastam solitárias. Uma vaca profana. O bezerro de ouro de Aarão, falso ídolo para o povo de Israel e adorado durante a ausência de Moisés. O mesmo bezerro, mas de 2008, mergulhado em formol, encaixotado, com partes de ouro maciço, valorado em dezesseis milhões de dólares e assinado por Damien Hirst. Luciano Boletti e seu convite para uma fruição ruminante, através do olhar e reolhar, regurgitar e mastigar esses corpos de animais.

Que os versos de Caetano Veloso ecoem: “Deusa de assombrosas tetas, gotas de leite bom na minha cara, chuva do mesmo sobre os caretas...”.

(texto produzido para a exposição "Pastar", de Luciano Boletti, realizada na Sala Olho Mágico, em Florianópolis, entre 9 de dezembro e 27 de janeiro)

Um comentário:

Erica Tulip disse...

Curioso como Hirst nos aproximou dos indianos... Não tinha me dado conta que ele também nos transformou, de certo modo, em adoradores de vaca.