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domingo, 16 de setembro de 2007

Um homem entre linguagens


Peter Greenaway costuma dizer que não é cineasta; prefere ser tratado como um pintor que faz filmes. Ao nos depararmos com o conjunto de suas obras cinematográficas, parece inevitável ter em mente sua formação inicial como pintor, devido ao grande número de referências plásticas com que ele recheia suas imagens. Porém, o britânico não parece buscar uma nostalgia das três ciências do desenho; preocupa-se em pesquisar através de um processo de recodificações de linguagens.

Questões caras à tradição artística ocidental são como que estopins para que ele repense grandes nomes como Rembrandt e Michelangelo, se indagando sobre suas importâncias e significados para o homem contemporâneo, permeado pela tão temida (e adorada) “pós-modernidade”. Para tal, nada mais certo do que utilizar as chamadas novas mídias. O artista cada vez mais vem problematizando seus filmes, transformando-os em potentes uniões entre arte e tecnologia digital.

Em seu “As maletas de Tulse Luper”, por exemplo, Peter vem disponibilizando via Internet parte dos conteúdos que permeariam estas caixas de estranhezas de seu personagem principal, além de articular sua obra a uma série de CD-Roms e DVDs. Em outras obras, como “O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante” e “A última tempestade”, o auxílio de computação gráfica e de uma potente e arrojada direção de arte contribuem gravemente com a qualidade e poesia das imagens apresentadas.

Outro ponto a ser ressaltado sobre ele é sua não dependência do formato geralmente nomeado por “cinema”, fazendo com que se sinta à vontade para vagar e experimentar um cada vez maior cruzamento de linguagens, buscando uma institucionalização que reflete sobre seus rótulos habituais. É vídeo-arte? É performance? É ópera? É instalação?

Talvez seja tudo isso, com um pouco mais – é Peter Greenaway.

(texto publicado originalmente no Papel das Artes em setembro de 2007)

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