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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Entre falas


A produção recente de Adriana Aranha parece apontar para dois caminhos – um do qual o público já é conhecedor e outro que, pouco a pouco, vem ganhando espaço em sua pesquisa. O primeiro ao qual me refiro diz respeito ao seu enfoque por gestos banais e reconhecidos pelo espectador devido ao seu caráter utilitário: caminhar por uma calçada, observar o dia-a-dia de um prédio, jogar bingo, rabiscar – estes são alguns dos verbos que compuseram a rotina da artista e que se recodificaram em visualidades.

A outra trilha que tem sido explorada é a da relação entre as imagens que cria e as palavras que as acompanham. Não se trata de um interesse recente na história da arte – a equação entre palavra e imagem pode ser percebida desde as primeiras pinturas religiosas que incluíam textos até, por exemplo, a famosa afirmação de René Magritte, no século XX, de que aquela representação não era um cachimbo. A artista, porém, acrescenta um elemento essencial para as suas propostas: a experiência vital.




Atenta ao universo que a rodeia, parte das obras mostradas nesta exposição advém de longos períodos de observação e escuta por parte da artista. Ao participar da última edição da Bolsa Pampulha, promovida pelo Palácio das Artes, em Belo Horizonte, ela opta por viver no Edifício JK, célebre construção de Oscar Niemeyer. É dentro desse espaço e na sua fusão com os moradores do prédio que as suas obras desse período de seis meses na cidade serão desenvolvidas. O estranhamento àquela arquitetura, a consciência de que seu tempo ali era limitado e a sua curiosidade pelos outros humanos a leva a filmar, fotografar e tomar notas diariamente a respeito dessa divisão do espaço.

Longe de querer dar qualquer certeza cientificista para seu experimento existencial e social, só cabia a artista compor/redigir ensaios; eis “Enquanto nada acontece”, vídeo de longa duração em que imagens acompanham sua própria voz que lê frases que nada explicam ao espectador. A fala está aí para multiplicar as camadas de apreensão das imagens e para que tenhamos a certeza de que é do vazio que tudo nasce. O mesmo é perceptível no trabalho em áudio “Pedras cantadas” e no vídeo “Esperando as vazias”, ambos experimentos que vem da sua observação da atividade do bingo no edifício.



Não há um ato exotizador quanto aos moradores do prédio, tal qual um documentarista tradicional poderia fazer; há a habilidade em construir imagens potentes que transformam o edifício em um labirinto em que nos perdemos sem sentir o passar dos minutos. Nesse sentido, a lista de números cantados no bingo se transforma em uma série de informações que, sequenciadas pelo verbo “saiu”, podem remeter à violência e ao desaparecimento. Leitura semelhante nos leva o ato de jogar cartelas vazias no chão; para onde foram aquelas promessas de vitória?

Os outros trabalhos aqui reunidos saem da esfera da imagem digital e são voltados para o fazer artesanal. Em duas séries de trabalhos inéditos, Adriana traz à tona a materialidade das leituras musical e literária. As partituras utilizadas para a leitura de notas musicais saem de sua bidimensionalidade e se transformam em pequenas esculturas em papel. As pautas retas se transformam em pequenas tranças e o espaço ficcional branco do papel dá espaço para a experimentação e a fantasia. Na perspectiva da artista, nem mesmo esse tipo de leitura deve estar inerte e cabe ao espectador também torcê-la e maculá-la.

Por fim, há o exercício de escrever com uma ponta seca sobre a superfície do papel e, com o auxílio do grafite, convidar o corpo do público a “decifrar” essas frases. Assim como em “Enquanto nada acontece”, o público é novamente desafiado a ativar sua imaginação e a voltar para casa com frases que parecem retiradas de trechos de conversas entre pessoas que vemos rapidamente na rua, mas cujo nome nunca saberemos. No silêncio do espaço expositivo (ou quase silêncio, já que a voz da artista insistentemente segue a cantar as suas pedras) a intensidade da vivência na metrópole é rememorada pelos rabiscos do grafite. A persistência de alguma sutileza está na precisão com que a artista opta por esses ditos.


A pesquisa de Adriana Aranha, portanto, parece se destacar justamente por essa pontualidade: lemos suas palavras, observamos os seus enquadramentos e curvas, e parece não haver nem o que se tirar, nem o que por. Um primeiro olhar ou leitura nos levam para esta sensação de exatidão, mas imediatamente depois nos questionamos a respeito dela e somos entregues à dúvida – não se trata de um sentimento amargo, mas sim de algo que estimula a nossa inquietude de modo quase cirúrgico.

É no espaço entre essas incertezas – ou melhor, “entre falas” – que sua pesquisa se movimenta recentemente. É essa interseção entre falar e dizer, ver e olhar que lhe interessa. Aguardemos seus próximos ensaios.

(texto curatorial relativo à exposição individual "Entre falas", de Adriana Aranha, na Galeria Archidy Picado, em João Pessoa, entre 10 de novembro de 2017 e 02 de janeiro de 2018)