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terça-feira, 17 de outubro de 2017

Repartição


O percurso de Mariana Paraízo no campo das artes visuais é recente e, como ela afirma ironicamente em sua minibiografia, conta com uma passagem por uma incompleta graduação em Letras. É interessante lembrar desse detalhe para termos em mente não apenas o lugar importante que a relação entre imagem e texto desempenha na sua pesquisa, mas para nos lembrarmos de sua atividade também na área das histórias em quadrinhos.

Ao olhar sobre o grupo de imagens que ela criou nos últimos cinco anos, fica claro que seu interesse maior é confundir e entregar para o público uma polissemia de interpretações, do que se utilizar das palavras para produzir um tom panfletário. O mesmo pode ser afirmado quanto a essa exposição individual. “Repartição” está baseada em quatro trabalhos novos em diferentes linguagens que se encontram quanto ao seu campo semântico acerca de um presente histórico em que os atos de dividir, subtrair e excluir parecem mais fortes do que as tentativas de conviver com as diferenças.



Quatro leques trazem as palavras da frase “Cada um por si” e parecem ser uma espécie de norte da exposição – cada objeto com a sua palavra, cada pessoa no seu percurso solitário. Ao ler a frase, alguns provérbios como “Cada um por si e todos por nenhum” ou “Cada um por si e Deus por todos” rapidamente passam pela cabeça e nos fazem refletir sobre as noções de indivíduo e coletivo, público e privado que regem os poderes políticos, midiáticos e existenciais. A opção pelo leque também parece reforçar o caráter individual de seu uso: cabendo na palma de uma mão, um desses objetos pequenos é capaz de fazer ventar para o conforto de uma pessoa. Cada um no seu quadrado, cada um com o seu conforto individual.

Questões semelhantes são trazidas pelos trabalhos da artista feito com papel, “Modelo para repartição de bloco” e “Jeitinho”, onde o público é convidado a extrair partes de um bloco de papel. Ao jogar a responsabilidade da profundidade do corte para o espectador, mais uma vez a relação entre objeto e propriedade, entre o “eu” e o “você” se fazem presentes e nos levam a refletir sobre as fronteiras do “cada um”.

É interessante notar que, enquanto esses trabalhos se aproximam de suas experiências anteriores com a escrita e com a publicação de livros, a terceira e última série aqui apresentada traz seu interesse recente na escultura e, mais do que isso, na sua relação com a arquitetura. “Trabalho de superfície” se trata de uma série de pisos colocados sobre o espaço expositivo e que atraem o olhar devido ao seu misto de beleza e repulsa. A assepsia de sua cor branca é contrastada com pequenas superfícies pontiagudas que podem incitar a curiosidade do público quanto à sua textura e sensação ao serem tocadas. Se o trabalho joga com estas sensações físico-visuais, o seu lugar de pesquisa, porém, se refere às áreas públicas em que mobiliários urbanos são construídos a fim de impedir que moradores de rua repousem e ocupem espaços vazios.



Novamente – dessa vez de maneira não-literal – os limites entre os corpos e entre os espaços legais dos sujeitos é convocado pela pesquisa de Mariana Paraízo. Eis, portanto, a esfera das repartições aqui propostas: estamos perante atos que dividem um objeto em vários, mas também de frente para trabalhos que refletem sobre a potência coletiva e política dessas ações de separação.

Não esqueçamos, porém, que várias partes divididas juntas formam um novo todo – e talvez só assim, ladeados como aqueles leques, seremos capazes de transformar o “cada um” em outra coisa.

(texto curatorial da exposição "Repartição", de Mariana Paraízo, realizada no Fórum de Ciência e Cultura, no Rio de Janeiro, entre 07 de outubro e 21 de outubro)