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sábado, 23 de setembro de 2017

Gustavo Speridião



“A gente surge da sombra” era o título da exposição individual do artista carioca Gustavo Speridião aberta entre os meses de maio e junho na Mercedes Viegas Galeria, no Rio de Janeiro. O título da reunião de obras vinha de um dos trabalhos ali expostos: um longo recorte vertical de tela onde a frase, descentralizada, aparecia em vermelho. Não se tratava de um formato tradicional de pintura visto que sua largura era estreita; do mesmo modo, a maneira como a frase se fazia presente estava em um lugar entre a aparição instantânea e uma plasticidade que tirava seu protagonismo direto. Ao redor da escrita, uma marcada linha preta e manchas de carvão sugeriam uma visualidade que parecia endossar o campo semântico da “sombra” contida na frase do artista.

Speridião possui uma trajetória de mais de dez anos entre exposições individuais e coletivas, sendo no ano passado um dos quatro finalistas do Prêmio PIPA, já tradicional premiação para artistas visuais brasileiros realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Nessa obra presente em sua exposição há um elemento constante à sua produção e que toma diferentes formas nesse percurso: a relação entre imagem e palavra. Esse tensionamento se faz presente nas mais diversas mídias utilizadas pelo artista: de pinturas de larga escala a cadernos de desenhos, de sua exploração da fotografia enquanto narrativa estática às suas composições em vídeo. As palavras são importantes para o artista tanto na sua composição de títulos que sugerem elementos extra-imagem, quanto em sua aparição literal – conforme “A gente surge da sombra” – em que intrigam tanto a leitura do público, quanto desestabilizam as imagens compostas ao seu redor.



Essa impressão de sua pesquisa ficava perceptível ao percorrer sua exposição devido à seleção de trabalhos: apenas onze obras foram mostradas e colocadas em diálogo com a arquitetura da galeria. Em um tempo em que o excesso de imagens se faz comum e onde se nota (talvez como reflexo desse) a incapacidade de muitos artistas exercerem a edição de sua própria produção em exposições individuais, certamente chamava a atenção a precisão com que as peças foram selecionadas. Como é comum em sua produção, os formatos das telas (sempre apresentadas sem chassis) variavam entre a escala grande que por vezes excede os dois metros de altura e outras obras de tamanho menor com os limites por vezes não retilíneos, com uma apresentação que insinuava certa precariedade.

Nove desses trabalhos contavam com a presença textual e as palavras aí articuladas apontavam para caminhos diversos. Fazendo pendant com “A gente surge da sombra”, poderíamos enxergar outras obras como “Fora do plano tudo é ilusão” e “Esta linha não para mais aqui” como frases que apontam para o campo do comentário a respeito da materialidade e teoria não apenas da pintura, mas da imagem. Essa leitura é endossada pelo fato de que nessas obras os elementos visuais não-verbais parecem dialogar com o que as frases propõem; ou seja, em “Esta linha não para mais aqui”, por exemplo, logo abaixo vemos um grande borrão preto na horizontal que remete à linha ali insinuada.



Por outro lado, outras frases articuladas pelo artista colocam o espectador em maior dúvida e, em uma visão geral sobre o todo da exposição, nos estimulam a não ter qualquer certeza denotativa a respeito de suas proposições. Em “A caixa da saudade”, por exemplo, uma repetição de formas retangulares nos remete à geometria cúbica de uma caixa. Inserida em parte dessas formas, uma cabeça que remete a algo de humanoide e outras formas geométricas, porém, nos jogam a dúvida quanto à esfera da representação. O mesmo é perceptível em obras como “E os” – onde o artista repete a escrita da frase “Mas, e os...” até que sua letra se decomponha em traços assimétricos –, além das peças com um conteúdo que roça os seus interesses na relação entre escrita e reflexão política. Em “Poema”, palavras em inglês vão se decompondo em cascata – de “strong” se chega a “string”, a “strange” e a “song”; já “Cartaz” possui um conteúdo mais narrativo e proclama “Na manhã histórica da arranca da glória” e, logo abaixo, “vitória distorcida das massas”.

Comum a todos esses trabalhos feitos junto à escrita é a potência com que o artista consegue estimular a criação mental por parte do espectador. Mesmo quando elementos formais rebatem as propostas, em nenhum momento a articulação entre imagem e texto por parte de Speridião se dá de modo ilustrativo, pouco pensado ou raso. Por mais que plasticamente suas pinturas pareçam ser feitas de modo rápido e nos possibilitem aproximá-las formalmente de tradições pictóricas da expressão, da pichação e de uma fisicalidade gestual, por outro lado as camadas de interpretação dadas por suas palavras nos permitem criar pontes com a poesia concreta e com grandes nomes da arte brasileira como Mira Schendel e Hélio Oiticica, sábios na sua capacidade de inquietar o olhar do leitor/observador.



Justamente pela sua trajetória nesse campo de pesquisa, talvez as obras que mais chamavam a atenção na mostra eram aquelas em que as palavras estavam ausentes. “Rua” e uma obra sem título, ambas de 2017, eram largas áreas de exploração do uso do preto e do branco e traziam à tona a gestualidade e pesquisa de materiais do artista no uso de nanquim, carvão e tinta acrílica. Enquanto a segunda trazia algo semelhante a um padrão geométrico com linhas verticais, a outra mostrava um contorno de uma figura humana costumeira em desenhos infantis e em artistas que exploravam certa massificação e informalidade dos temas da pintura. Sai o vazio que possibilitava com que suas palavras respirassem nas obras anteriores e entra em cena uma dramaticidade impulsionada pelo preto e pela irregularidade das pinceladas.



“A gente surge da sombra”, por fim, se configurava como uma pequena amostra de sua produção recente e incitava aos conhecedores de sua pesquisa a curiosidade quanto a explorações da pintura que estão por vir. Fica também a curiosidade quase inevitável de pensar outros modos de apresentação de seus textos para além dos formatos comuns às artes visuais – livros, quem sabe? Só o tempo – e, claro, os anseios de Gustavo Speridião – trarão novas frases escritas em linhas tortas.



(texto publicado originalmente na Artnexus de setembro-novembro/2017)