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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Vera Chaves Barcellos


Em entrevista publicada no catálogo “Imagens em migração”, de 2009, Vera Chaves Barcellos responde a uma série de perguntas feitas pela curadora Glória Ferreira. Entre questões sobre sua trajetória, uma de suas falas parece interessante como introdução: “a gravura e a fotografia tem em comum a possibilidade de se tirar cópias e isso também é um vício quase, se torna um vício quando se faz gravura, de ter aquela possibilidade das cópias. A minha resistência à pintura, por essa ser uma peça única, também tem relação com essa possibilidade de multiplicação”.

Recentemente, a artista realizou uma grande exposição individual no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, intitulada “Fotografias, manipulações e apropriações”. Com uma trajetória ampla e desenvolvida desde seus primeiros estudos no campo da gravura durante os anos 1960, esta exposição se configurava como uma rara oportunidade do público se aproximar de suas experimentações com o sequenciamento de imagens.


Logo na primeira sala, algumas obras já apontam para este interesse. “O peito do herói”, por exemplo, de 1966, se trata de uma série de nove imagens criadas a partir da manipulação fotográfica. Mostradas lado a lado, cada uma das impressões traz a reprodução do que seria um peitoral greco-romano. No lugar de frisar o referente inicial fotográfico, a artista joga a imagem no campo da fantasia pictórica e sugere uma série de imagens que parecem frames de uma animação. Logo abaixo, um longo tecido tingido se refere e ao mesmo tempo agiganta o elemento encontrado no referente fotográfico. A relação entre imagem original e imagem manipulada, o duplo do real e a materialidade em si, se faz presente nessa experimentação e traz ao público alguns dos tópicos constantes de Vera Chaves Barcellos.

Algo semelhante aparece em “Os nadadores”, de 1988, mas o próprio título no plural já nos leva para outra construção narrativa – as fotografias de jornal manipuladas acompanham o passo a passo do mergulho de um nadador. Esse corpo é replicado diversas vezes e cria tons cromáticos que o transformam no storyboard de um filme nunca gravado. Eis aí, penso, uma das maiores potências de sua pesquisa: a capacidade de fragmentar a imagem estática e sugerir não só o movimento físico, mas o seu desenrolar narrativo. Essas obras foram produzidas num recorte histórico embebido pela potência dos meios de comunicação de massa em voga – como o jornal impresso e a televisão tão referidos por outros artistas do período como, por exemplo, Andy Warhol – e, portanto, são um bom prenúncio do estatuto da imagem atingido nos últimos anos. Em outras palavras, é esse mesmo sequenciamento de imagens (não mais impressas) que irá interessar a outra geração de criadores de imagens – mas já no formato GIF.


A repetição de um único corpo dá lugar a uma multiplicidade anatômica na interessante peça “O grito”, de 2005. O campo semântico dos atletas novamente se faz presente, mas o que interessa à artista é um inventário de expressões faciais nada harmônicas e simétricas, onde os capturados pela fotografia urram. Há gritos de vitória, de dor, de lamentações de erros por centímetros – o que une essas imagens é o silêncio inerente à fotografia. Difícil não observar essas imagens e se recordar, por exemplo, de alguns dos mais célebres gritos da história da arte ocidental, de Laocoonte ao quadro icônico de Munch. Temos aqui outro verbo importante para Vera Chaves Barcellos quanto à reprodução técnica: colecionar.

Essa atividade é presente na maior parte da exposição e de diferentes maneiras. Há uma obra de grande escala como “Casasubu”, de 2006, realizada na praia de Ubu, no estado do Espírito Santo. A artista fotografou di*versas fachadas da arquitetura tropical ali encontrada e, após minuciosas operações digitais, confunde o olhar do espectador ao misturar elementos de diferentes fotografias. Temos à nossa frente uma obra em que o ato fotográfico foi executado pela própria artista e onde a manipulação não se dá mais artesanalmente, mas via computador. Esse é apenas um exemplo de como ela consegue insiste em seu interesse poético/operacional, mas por meio de diferentes mídias. Os limites entre a fotografia como registro do real e como ficcionalização são embaralhados e apenas uma demorada observação levará o público a conclusões sobre o que era arquitetura e o que era miragem.



Por fim, discretamente, longe da rosticidade da pop art, o corpo da própria artista se fará presente em outra série, “Meus pés”, desenvolvida desde 1970. O corpo de Vera Chaves Barcellos – constantemente em trânsito entre as cidades de Barcelona e Porto Alegre, e entre suas ocupações como diretora de sua fundação e artista – é fotografado de cima para baixo, sempre no ponto de vista de uma primeira pessoa do singular. Montadas no Paço Imperial diretamente no chão, essas fotografias são um exemplo de como o pensamento serializado e sequencial se faz presente nas atitudes mais banais da experiência vital da artista. Mais do que isso, dado sua extensão temporal, podem ser vistas como um registro da própria passagem do tempo – tanto das técnicas fotográficas que migraram do analógico para o digital, quanto da biografia de uma artista e de seu percurso de uma escala local para uma esfera mundial.

Apropriações, manipulações, coleções, miragens e autoimagens são algumas das palavras-chave da pesquisa compartilhada nessa exposição de Vera Chaves Barcellos. Trata-se de uma ótima oportunidade para o público carioca conhecer seu trabalho e, claro, poder realizar cruzamentos com artistas contemporâneas a ela e que produziam de modo dialógico – como Anna Bella Geiger no Rio de Janeiro, e Regina Silveira em São Paulo. Cabe também pensar quais tradições encontradas em sua produção não são referência para uma geração mais jovem de artistas que diariamente reflete sobre essa dicotomia entre a imagem singular e sua multiplicação.



(texto publicado originalmente na Artnexus de junho-agosto/2017)

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