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terça-feira, 13 de junho de 2017

Luiza Baldan


No espaço central da Anita Schwartz Galeria, no Rio de Janeiro, a artista Luiza Baldan – nascida e também baseada na cidade – realizou sua nova exposição individual, “Estofo”, entre março e abril deste ano. Uma das paredes foi ocupada com um texto – algo inusitado quando se compara esse uso do espaço com aquele feito por Rochelle Costi (sobre o qual também escrevi na ArtNexus) alguns meses atrás. Costi ocupou a sala com fotografias de grande escala e uma videoinstalação, criando um diálogo entre o desafiador pé direito da arquitetura e os lugares que fotografou. Já Baldan parece tomar uma postura quase oposta, certamente mais intimista e que convida o público a um deslocamento físico e um olhar minucioso.

Voltando ao referido texto, a artista pintou sobre uma das paredes frases que giram em torno de sua experiência recente em expedições vivenciais e fotográficas pela Baía de Guanabara, elemento paisagístico essencial para a construção de uma identidade e imagem cariocas. Seu texto, porém, não era informativo e, assim como as ondas, tinha um divagar curvilíneo. “Sabe-se lá de onde vem o fascínio pelo mar”, dizia a primeira frase para, mais à frente, outro trecho como “A maré que baixa e o fedor que sobe” quebrar com qualquer apreensão romântica de um espaço natural que é tomado pela poluição e pelo lixo. A concentração de água que em um passado remoto deveria ser um paraíso para a população indígena ali residente foi, desde que as caravelas chegaram, ocupada, depredada e hoje dá sustentação à Ponte Rio-Niterói e às petrolíferas. Como seu texto também diz, “Cada vão da ponte é um fotograma. Plataformas de petróleo competem com as montanhas, se somam às estrelas”.


Esse inteligente uso do texto certamente chama a atenção do espectador e sugere imagens mentais transhistóricas das iconografias e sensações físicas experimentadas na Baía de Guanabara. O impacto dessas palavras e a lacuna imaginativa dada a quem lê são tamanhos que não se sente na exposição uma ansiedade de se preencher os espaços do cubo branco. Esse vazio pode ser preenchido (ou não) existencialmente por cada um que lê suas palavras – ou talvez o melhor a fazer depois da leitura/contemplação seja se locomover pela cidade e ir de encontro à baía.

Baldan possui uma trajetória institucional como artista e pesquisadora de cerca de quinze anos e, nesse período, a mídia pela qual ficou mais conhecida é a fotografia, por mais que seus projetos em vídeo também sejam constantes. Ao observarmos sua trajetória, é interessante notar como a importância da relação entre fotografia e a construção de espaços habitáveis. Alguns de seus projetos giram em torno de edifícios, apartamentos ou recortes de elementos da paisagem natural onde, mesmo que discretamente, a presença humana e por vezes industrial é notada.



As fotogravuras mostradas em “Estofo” chamam a atenção, portanto, por trazerem imagens onde nosso olhar não esbarra com algo ao seu fundo; há pouco espaço para sugestões de enclausuramento do que foi fotografado e nosso olhar atravessa esses recortes da paisagem, do mesmo modo que um barco desliza sobre a superfície da água. Interessante notar também como esse espaço aquático pode ser associado a diversas atividades do trabalho humano que vão desde a engenharia das pontes e a exploração do petróleo referidas em seu texto, como outras mais primevas como a pesca e a navegação.

A Baía de Guanabara, assim como a caótica cidade do Rio de Janeiro, surge discretamente nas imagens de Baldan também como um lugar de encontro e diferenças. Um pescador seminu surge na única imagem em que o corpo humano fita a lente fotográfica e pode trabalhar diariamente ao lado de uma pessoa que comanda uma embarcação de petróleo e que esconde seu corpo dentro da maquinaria. A baía, portanto, é um espaço de encontro entre anônimos, conflitos entre os diferentes usos que o capitalismo faz dela e também de silêncio – assim como sugerido pela ausência de dramaticidade das fotos mostradas.


Esse silêncio é endossado por um elemento atípico na produção da artista: o uso exclusivo do preto-e-branco. A soma entre essa opção cromática e o uso da fotogravura (e não da impressão fotográfica tradicional) coloca as imagens feitas por Baldan em uma tradição de representações em torno da Baía de Guanabara que remete ao século XIX, o momento histórico em que houve um boom das imagens em torno do Rio de Janeiro. Naquele momento o público europeu ansiava por imagens panorâmicas da estranha cidade tropical, ao passo que na contemporaneidade, o olhar da artista é mais do fragmento e da sugestão de narrativas.


No espaço central da exposição, o público podia observar tanto as matrizes das fotogravuras, quanto as imagens já impressas e manuseáveis com luvas. Já no espaço acima, a artista mostrava uma videoinstalação nova em que a associação entre imagem e som se dava de modo intermitente. Também em preto-e-branco, uma câmera se movimentava de acordo com a velocidade das ondas da baía e mostrava, através de uma aproximação com um detalhe arquitetônico da Ponte Rio-Niterói, o encontro entre o concreto, a água e a luz. Essa perspectiva solitária envolvia o corpo do espectador que, depois da fruição das frágeis fotogravuras no andar de baixo da galeria, agora era tomado tanto pela sinuosidade da imagem, quanto por um trabalho primoroso de edição de sons capturados no local. Ficava claro que a baía também pode ser um espaço fisicamente violento e mesmo perigoso.

Voltando às palavras de Luiza Baldan, “Estofo” é uma exposição que traz ao público “A letra cambaleante com o movimento do barco”. De balanço em balanço, mesmo poluída, a Baía de Guanabara persiste e se faz importante na paisagem do Rio de Janeiro. E sua potência vital, quando somada à potência do olhar da artista por meio de suas fotografias, texto e videoinstalação, se transforma em mistério e dúvida – elementos essenciais para encarar o excesso tão rotineiro do presente.



(texto publicado originalmente na Artnexus de junho-agosto/2017)

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