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segunda-feira, 12 de junho de 2017

Falso histórico


O conceito que dá título à exposição do duo Lecuona y Hernandéz perpassa a sua trajetória de mais de vinte anos como criadores a quatro mãos. Baseados em Tenerife, nas Ilhas Canárias, sua pesquisa é mais baseada na criação de imagens dotadas de mistério do que em uma verborragia panfletária. Se inicialmente a dupla realizava pequenas ações performáticas perante o público ou a câmera, nos últimos dez anos seu trabalho se apresenta de forma mais tridimensional e com uma necessidade de dialogar com o espaço arquitetônico que o abriga. Os limites entre a escultura, a produção de objetos e a instalação, portanto, são de interesse em sua investigação.

A expressão “falso histórico” vem das esferas da arquitetura, patrimônio e conservação. Este é o termo utilizado quando, no ato de restauração de um edifício, se recria algo faltante de modo que a nova forma imite de modo fidedigno o derrubado. Trata-se do ato de falsear a história, de criar uma forma que, conforme a teoria platônica da mimese, se trata de um simulacro e não de uma cópia. O termo, que é comumente utilizado com uma conotação negativa por restauradores, ao servir como título da presente exposição de Lecuona y Hernandéz, traz outra carga simbólica – o que no campo da arte não seria uma mentira? Em outras palavras, deveria a arte produzir “verdades históricas” ou qualquer tentativa de manipulação de signos, mesmo que documentais, rapidamente é alçada ao lugar da ficção?





Durante o período de dois meses de residência na cidade de São Paulo, os artistas refletiram sobre alguns aspectos encontrados no contexto urbano. Os limites físicos e simbólicos entre o espaço público e o privado foram alguns dos elementos que mais chamaram a sua atenção. Na cidade, bem diferente das Ilhas Canárias, elementos comuns a todos são alterados de acordo com os interesses dos proprietários de estabelecimentos comerciais e residenciais. Dialogando com essa questão, um dos elementos que mais interessou aos artistas foi algo sobre o qual já refletiram em peças anteriores: o higienismo e sua relação com o desaparecimento e a morte. 

São Paulo, assim como qualquer grande cidade latino-americana, passou por um voraz processo modernizador que foi capaz de conjugar os traumas advindos do fim da escravidão negra no Brasil e o desejo de ter uma experiência urbanística eficiente e moderna segundo padrões eurocêntricos. Não é à toa que a cidade possui, assim como outras capitais do Brasil, um bairro chamado Higienópolis - era preciso almejar a assepsia para se fazer a manutenção dos diferentes estratos sociais pós-abolição. Esse desejo de limpeza observado em diversos momentos de sua experiência pública na cidade também pode ser refletido no espaço privado, por exemplo, através do uso de tapetes e outros acessórios domésticos que são usados para limpeza do corpo e para esconder elementos indesejados da privacidade.





As obras aqui apresentadas se utilizam de alguns desses elementos que podem ser notados desde as opções de materiais feitas – elementos industriais como alumínio e o concreto são ladeados por peças feitas em materiais orgânicos, mas não exclusivamente artesanais, como o couro e os têxteis. Um buraco traz ao público aquilo que o concreto que dá a tonalidade cinza da galeria esconde: a presença da terra vermelha que em algum momento da História de São Paulo tinha contato direto com os pés dos habitantes. A assepsia do sistema de esgoto e irrigação da cidade se faz presente no uso de um tubo de concreto encaixado neste buraco - uma fabulação por parte de Lecuona y Hernandéz quanto ao passado do edifício.

Esse contraste entre materiais também se faz interessante na série de peças que desenvolveram a partir do contraste entre o artesanal e o industrial, o orgânico e aquilo que se faz presente no espaço público. Com caráter menos instalativo e mais objectual, a dupla criou uma série de peças a partir das marcas deixadas em pedaços de couro feitas a partir do contato com ferramentas de construção. As formas mais geométricas dessas peças tão vistas na rotina das obras no espaço público, quando utilizadas para gravar seus desenhos em uma superfície mole de difícil controle como couro, se desfazem. Por outro lado, um tapete que geralmente tem a finalidade de manter a limpeza da privacidade do lar se transforma em uma bandeira sobre o nada; apoiada sobre uma parede, suas informações decorativas tão lugar ao preto e à anulação das alegorias típicas dos estandartes.

Na mesma sala, uma peça feita em alumínio – material usado em obras recentes do duo – dá forma ampliada ao desejo de limpeza que permeia a criação de objetos e salas feitas desta matéria. A curva proposta pelo duo vem de suas observações a respeito das salas sem cantos que são utilizadas tanto nas Ilhas Canárias, quanto no Brasil, para se realizar procedimentos cirúrgicos ou autópsias. Se essas arquiteturas, devido à sua funcionalidade, não têm cantos, por que não se utilizar de um dos cantos da galeria para realizar uma peça em diálogo como essa tradição higienista?





Enquanto isso, ao fundo da galeria, tendo em mente que o espaço ao lado - futura ampliação da Adelina Galeria - possui um jardim com algumas árvores, uma intervenção arquitetônica também feita com um tubo de concreto cria uma conexão entre o espaço interno da galeria e o quintal à sua frente. Observa-se pelo buraco do cano o detalhe de uma árvore; a morte sugerida pelo concreto industrial vai de encontro à vegetação que ainda resiste e traz seu aspecto vital.

Como se pode perceber no percurso desses trabalhos, é do interesse de Lecuona y Hernandéz que o público tenha uma experiência não apenas visual, mas também física através das diferentes formas de se aproximar de suas peças. Para eles é importante tanto criar uma aproximação física, quanto um estranhamento semiótico; o estatuto da imagem em suas proposições é favorável à incerteza das interpretações e se configura como uma aparição efêmera.



Uma vez que essa exposição acabe, fazendo jus à sua práxis, a maior parte dessas peças desaparecerá e apenas existirá como registro fotográfico. Essa é, portanto, a oportunidade de se contemplar esses falsos históricos presencialmente; de tão falsos, logo se verterão exclusivamente em imagem virtual.

(texto curatorial relativo à exposição "Falso histórico", na Adelina Galeria, em São Paulo, entre os dias 06 de junho e 22 de julho)

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