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quarta-feira, 17 de maio de 2017

Responder a tod_s



Esse texto (que, prometo, será curto) nasce depois de um dia inteiro na montagem de “Responder a tod_s” – ou seja, é um texto que é fruto do cansaço. Escrever sobre esse projeto, porém, não faz sentido se é feito de outra maneira. Essa curadoria nasce justamente do contato diário, das tentativas de comunicação, da ausência de certeza sobre _s outr_os e, especialmente, do cansaço e delícia das montagens.

Trata-se de um lado B de “Reply all”, projeto realizado em Manchester, dentro de uma pequena galeria na Manchester School of Art, e que era reflexo de uma residência curatorial que ali fazia. Na ansiedade e curiosidade de trabalhar com artistas dali, pensei na possibilidade de tanto conversar com alun_s da universidade, quanto poder conectá-l_s a algo mais próximo da minha rotina curatorial e afetiva; estabelecer vínculos com artistas que residiam no Brasil, então, foi um caminho natural.



Por um mês, então, dez duplas de artistas se comunicaram das mais diferentes formas possíveis que a distância permite e, nessa espécie de blind date, tentaram construir a quatro mãos uma imagem (ou séries delas) que pudesse fazer sentido existencial para amb_s. Percebam, portanto, que não se trata de um projeto que circunscrevia tematicamente _s artistas envolvidos, mas sim que desejava incentivar a “arte do encontro” de cada dupla e dar preferência à ausência de controle aparente sobre o todo. Nossa única corrida era contra o tempo – nossa data de abertura era nosso ponto de chegada das experimentações. Quem participou do projeto sabe bem que tudo se resolveu (sempre temporariamente) na véspera desse dia ou até mesmo no próprio.

O mesmo certamente pode ser dito a respeito da experiência brasileira do projeto. Oito meses depois de Manchester, cá estão _s mesm_s artistas em diálogo, com alguma intimidade a mais (mas, apenas com uma rara exceção, nunca tendo se visto frente e a frente) tentando responder junt_s a uma arquitetura, a um anseio de mostrar imagens, ao tesão de criar e dormir com um_ desconhecid_. Se a abertura temática e de mídias é novamente latente, é difícil não perceber que a tendência a apresentar obras baseadas em duplicidades, assim como visto em Manchester, aqui permanece. Baseadas em duplas de geografias separadas pelo Atlântico, é costumeiro vermos obras que justapõem imagens feitas aqui e lá, paisagens destoantes, corpos que vão de encontro a terras de tonalidades diferentes e o cromatismo tropical em casamento com aquela luz cinza de uma cidade em que a chuva diária não é surpresa.




Ao final da montagem, seja aqui, seja acolá, saímos com a impressão de que aprendemos um pouco mais tanto sobre nós, quanto sobre _s outr_s, não apenas na esfera da criação artística, mas também na expressão verbal, no modo de se colocar no mundo quanto às imagens e na maneira de demonstrarmos afetos em nossas diferentes línguas. Além disso, tal qual na Inglaterra, a própria experiência da montagem e a abertura quanto a um resultado final, faz com que _s artistas envolvidos na instalação de seus trabalhos colaborem com _s outr_s e, ao final do dia, aprendam também sobre os lugares de criação de suas/seus vizinh_s no espaço expositivo. Do mesmo modo que um oceano nos separa d_s outr_s, o Brasil é enorme e os espaços de experimentação artística bem diferentes entre si – assim como no diminuto Reino Unido (nem tão unido assim em tempos de Brexit), o mesmo pode ser notado.

Sentado num canto do Despina a observar o caos organizado da montagem, penso rapidamente que é isso tudo que me estimula a desejar ser um pesquisador no campo da curadoria: possibilitar encontros e aprender a partir deles. Mais do que isso, claro, perceber que os agentes centrais de qualquer curadoria - _s artistas – também estão embebid_s nesse mesmo maravilhamento da eterna arte de tentar decifrar “como viver junto”.



Passei da segunda página de Word – o texto ficou longo demais. Prometi que seria curto, mas fracassei – mas não seria toda tentativa de materializar uma imagem mental, especialmente feita a quatro mãos, um fracasso? Fica a certeza de que, por mais que tentemos, é impossível responder a tod_s. O importante é tentar.

(texto curatorial relativo à exposição "Responder a tod_s", no Despina, no Rio de Janeiro, entre os dias 27 de abril e 24 de maio)

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