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quinta-feira, 18 de maio de 2017

Coros


A exposição "Pintura (diálogo de artistas)" apresenta desde o título os seus parâmetros. Trata-se, em primeiro lugar, de uma reunião de trabalhos relativos a uma mesma linguagem, a pintura. Seus suportes tradicionais - penso aqui na equação clássica da aplicação de tinta diretamente sobre a parede ou sobre tela - são problematizados por alguns dos doze artistas convidados para compor o projeto: Zalinda Cartaxo realiza uma instalação que ocupa uma sala, Hugo Houayek mostra objetos feitos com gesso e Willian Santos contribui com um trabalho entre a pintura e a escultura, dividido entre a parede e o chão.

De todo modo, a maior parte das obras mostradas está pautada tanto numa apreciação frontal por parte do corpo do público, quanto por uma construção de imagens que segue sem culpa as tradições ocidentais da pesquisa pictórica. Seja em uma tentativa de alargar a materialidade tradicional da pintura, seja na perpetuação de seu fazer costumeiro, a exposição versa sobre sua linguagem, aponta para o seu cromatismo e cria paralelos entre diferentes linhas de pesquisa artística.





Essa reunião de imagens de diferentes autores contribui com o desejo de, voltando para o título da exposição, estabelecer “diálogos de artistas”. Este termo merece atenção na medida em que diz respeito tanto a inevitável conversa entre os trabalhos de arte sempre que reunidos em uma exposição coletiva, quanto a uma opção expográfica feita pelos organizadores da mostra. No lugar de mostrar as imagens e apenas indicar seus autores e títulos, cada obra era acompanhada por um pequeno relato de autoria dos artistas refletindo sobre o seu processo criativo. O ato do diálogo, portanto, também se dá na esfera da literalidade da palavra - por mais que não se trate de uma efetiva conversa entre as pintoras e os pintores. Trata-se de uma série de pequenos monólogos que, uma vez reunidos na mesma sala, ganham a substancialidade de um coro de vozes.

Esses cantos, como é de se esperar, demonstram vozes muito diferentes. É importante frisar que o ato de escrever a respeito da sua própria prática ou da pintura em termos mais filosóficos é algo que nem sempre é de interesse por parte dos artistas. Basta olharmos de modo retrospectivo para diferentes momentos da história da arte e vermos que sempre conviveram tipos que viam a escrita de diferente modo. Do mesmo que durante o século XVI havia nomes como Leonardo (extremamente interessado na teoria da arte) e Michelangelo (grande poeta e escritor de epístolas), também existia Tiziano, documentalmente mais interessado em produzir imagens do que teoriza-las. O mesmo pode ser observado, como outro exemplo, após a criação da Academia Imperial de Belas-Artes, no Rio de Janeiro, quando um artista de grande relevância como Almeida Junior não se dedica à produção escrita – caso muito diferente de outros contemporâneos como Pedro Américo ou Rodolfo Bernardelli.

Essa assimetria quanto à escrita é visível também nos textos dos artistas desta exposição. Metade dos artistas presentes na exposição – Álvaro Seixas, Ema M, Hugo Houayek, Rafael Alonso, Rui Macedo e Zalinda Cartaxo – são professores universitários e pesquisadores com larga estrada na reflexão acadêmica sobre a pintura. Pode-se concluir, portanto, que a experiência da escrita sobre arte para eles é mais costumeira e os coloca em um lugar diferente – mas não necessariamente seguro.

Esta diferença quanto à atuação profissional dos artistas não impede que criemos pontos de contato entre suas escritas. Chama a atenção, por exemplo, notar como tanto Willian Santos e Zalinda Cartaxo escrevem sobre sua relação com a história da pintura, ou como a escrita de Elvis Almeida, Paulo Nimer Pjota e Rafael Alonso roçam nas noções de cotidiano e experimentação para refletir sobre poéticas que assumem a banalidade da experiência humana. Com versos mais livres, Álvaro Seixas e Vânia Mignone se expressam de diferentes maneiras em seus elogios à pintura – a pintora de modo encomiástico e o pintor com seu habitual deboche com pitadas de uma egotrip ácida.





Talvez por nosso olhar dentro da exposição estar condicionado à relação entre obra de arte e relato textual, as imagens em que o texto se faz presente de modo literal parecem saltar aos olhos. Alguns artistas se interessam especialmente por essa relação e geram imagens-textos através de construções formais em que um não se encontra subjugado ao outro; o espectador é convidado a ler/fruir suas imagens de diferentes formas. Refiro-me às obras de Vânia Mignone, Paulo Nimer Pjota e Ema M.

Logo na entrada da exposição, três telas de Mignone ocupam uma parede e pedem a atenção do público. Como é costumeiro em sua obra, há a presença de textos em grande escala que ladeiam representações de animais ou figuras humanas. Sem um título, os quadros jogam seu enigma para o espectador: “O efêmero” escrito na primeira tela faz par com a terceira imagem em que se lê “Ali ficou”. O universo poético da artista abre diversas camadas de significado. O uso de grandes áreas brancas visto nestas imagens é algo que se apresenta como novidade na sua pesquisa e contribui com o mistério de suas imagens. A obra de Vânia pode ser vista como um grande elogio à efemeridade do próprio olhar e à possibilidade de, num momento futuro, olharmos essas mesmas imagens com outro fundamento narrativo.

Mais à frente, as telas de Ema M e Pjota eram apresentadas lado a lado. “Furor Luquendi” é o termo que batiza a pintura da artista portuguesa e, em latim, se refere à mania de discursar. Uma árvore é representada com diversos frutos e animais ao seu redor. Tal qual um conto de fadas, tartarugas, lebres, corujas, batatas e maçãs compõem uma espécie de fictícia vitrine de história natural para os olhos do espectador. Ao lado de cada figura, em letras maiúsculas e que recordam o dourado, quatro diferentes nomes para cada elemento. Eis alguns dos modos como nos referimos textualmente às imagens – em latim, francês, português (de Portugal) e inglês. Os significantes são diferentes, assim como os significados – enquanto ao olhar uma tartaruga um professor de inglês pensará em “turtle” e na sua etimologia, um biólogo pensará em “chelonia midas” e na zoologia.

Por fim, ao seu lado, as imagens sampleadas por Pjota se espalham pelas superfícies de chapas metálicas. Enquanto o texto possui uma escala grande nas duas obras anteriormente exemplificadas, aqui a escrita chama a atenção devido ao seu tamanho diminuto. As palavras aqui não identificam as imagens como no exemplo anterior e vão de encontro à suspensão de um efeito imediato de dedução assim como proposto por Mignone. Representações pintadas de modo realista são distribuídas na superfície da imagem de modo a existirem individualmente, tal como ilhas do arquipélago que é o todo da pintura. Animais, armas, cristais, logomarcas e até mesmo bandeiras estão presentes e intrigam o olhar do espectador.

“The machine of contradictions” (“A máquina das contradições”) diz uma frase ao centro da composição e, ao seu lado, “Power and fascinantion of the image” (“Poder e fascinação da imagem”) contribui com o tom metalinguístico da pesquisa de Pjota. Os textos aqui selecionados comentam não apenas a teoria e história da pintura, mas destacam as discussões contemporâneas em torno do estatuto da imagem e a iconofilia com a qual convivemos diariamente do celular para a rua e vice-versa. É nesse fluxo em ziguezague que se escrevem as linhas de ícones em suas pinturas e é o convite a essa mesmo movimento corpóreo de aproximação e distanciamento que é feito ao corpo do observador.



Este recorte e breve aproximação das pesquisas desses três artistas-escritores é apenas um dos diversos que se poderiam estabelecer a partir dos diálogos propostos por esta exposição. Poderia ter comentado, por exemplo, a respeito da já citada tridimensionalidade de Cartaxo, Hoauyek e Santos ou, então, os limites entre abstração e figuração perceptíveis nas obras de James Kudo, Pedro Varela e Rui Macedo.

Na ausência de espaço para escrever a respeito de tantos cruzamentos, optei por tentar ouvir aquele coro que se utilizava das letras para estabelecer um ponto de comunicação com o mundo – do mesmo modo que esta exposição se utilizou dos discursos textuais desses artistas para tentar criar mais um ponto de aproximação com o público.

(texto publicado no catálogo da exposição "Pintura (diálogos de artistas)" realizada na Caixa Cultural Rio de Janeiro entre os dias 18 de março e 14 de maio)

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