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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Mayana Redin


Entre os meses de novembro e dezembro foi realizada a primeira individual de Mayana Redin na galeria Silvia Cintra, no Rio de Janeiro. Intitulada “Arquivo escuro”, a exposição chamava a atenção inicialmente devido à ambientação escolhida pela artista: no lugar da iluminação hospitalar comum do cubo branco, ela preferiu transformar o espaço numa caixa escura onde a própria luz de algumas obras geralmente dava o tom de iluminação ao todo. Essa opção remetia ao uso da palavra “escuro” no título da exposição e convidava o corpo do espectador a uma particular experiência física. A artista dividia com o público um arquivo de suas experimentações recentes. 

Penso que o campo semântico do ato de se arquivar é algo que permeia de diferentes maneiras a sua produção desde sua participação na oitava edição da Bienal do Mercosul, em 2011. Ali ela mostrou “Geografia de encontros”, uma série de desenhos cartográficos em que sobrepunha territórios em encontros ficcionais como, por exemplo, a sobreposição do Estreito de Gibraltar com o Istmo do Panamá. O ato de se apropriar de mapas e de usá-los em uma perspectiva ficcional demonstra seu interesse pelas maneiras de subversão dos instrumentos utilizados para diferentes processos de historicização da experiência humana. 

Não à toa, posteriormente Redin realizou trabalhos em que as noções de colecionar, deslocar sentidos e arquivar se faziam importantes. Recordo-me, por exemplo, das obras em que utiliza cartões postais (como na série “Acidentes de percurso”, de 2012) ou em seu diálogo com figuras históricas como Giordano Bruno (em “Caixa-móvel para Giordano Bruno”, de 2014). Recentemente, “Edifício Cosmos” (2015), sua coleção de nomes de prédios que portam referências cosmológicas, foi um modo de se criar novas constelações de edifícios na malha urbana.





Todos esses aparatos – os mapas, os arquivos, os álbuns, as catalogações – são tentativas milenares da humanidade observar, analisar, organizar e dar sentido à existência. O fracasso desses esforços – bem demonstrado na clássica gravura “Melencolia I”, de Albretch Dürer – é iminente devido à incapacidade humana de controlar absolutamente o nosso entorno. Sempre há algo que escapará e me parece que é esse coeficiente que interessa a Mayana Redin especialmente no que diz respeito ao esforço humano que, de tão disciplinado, roça o nonsense.

Olhar para cima – assim como os egípcios, os hindus e os maias até hoje fazem -, ou seja, observar o céu, os astros e tentar atribuir sentido a corpos extraterrestres, talvez seja uma das atividades que mais explicitem ao mesmo tempo nossa pequeneza no universo e nossa ambição intelectual. “Edifício Cosmos” já apontava nessa direção, mas parece que é em “Arquivo escuro” que essa obsessão ganha respostas plásticas que apontam para caminhos mais diversificados.





Logo na entrada da exposição, a projeção de slides “Astronauta e cosmonauta” dava o tom pendular entre o cômico e o trágico da exposição. Duas a duas, fotografias de mulheres astronautas eram projetadas. De um lado, Christa McCauliffe, estadunidense e primeira civil a participar de uma missão espacial. Do outro, Valentina Tereshkova, soviética e a primeira mulher a viajar ao espaço sideral. Mais de vinte anos separavam esses dois fatos históricos e seus destinos foram igualmente diferentes: se Tereshkova dá a volta na Terra três vezes e se consagra como uma heroína, McCauliffe simplesmente morre na explosão do Challenger. Ironicamente, as imagens projetadas mostram ambas em semelhantes processos de treinamento e, num segundo momento, trazem ao espectador o modo como se converteram em memória histórica. Enquanto uma volta à Terra e faz uma turnê, a outra se transforma em pó e só cabe a nós vermos a expressão de choro daqueles que acompanhavam sua partida.

A vida é permeada desses acasos tão bem exemplificados por esse confronto de biografias que nos remetem ao intangível. Acredito que a justaposição feita pela artista entre materiais como massa de pão e livros de ciência e astronomia, aponte para um caminho semelhante. De um lado temos o material bibliográfico que tenta explicar de modo textual a respeito dos corpos celestes. Do outro, a união de ingredientes orgânicos capaz de gerar alquimicamente pequenos objetos tridimensionais que remetem a formas interplanetárias. Podemos prever, mas não controlar inteiramente tanto as bordas de um pão assado, quanto o fluxo dos asteroides que podem se chocar com a Terra. Quando ambos os campos são aderidos na obra “Pão”, a banalidade de um é colada à monumentalidade do outro e surge um novo todo em que farinha de trigo e poeira cósmica são a mesma coisa. Não há mais alto e baixo, mas apenas a ansiedade das dúvidas.

Sensação semelhante permeia o nosso corpo quando em “Costas” caminhamos a um canto da sala e nos abaixamos para adentrar um espaço vazio entre uma quina e a reprodução fotográfica do verso da imagem habitual que temos da lua. O astro se transforma em um objeto que pode ser apreendido na altura de nossos corpos. Para ver a lua, não olhamos mais para cima, mas para frente com a certeza de que é impossível, devido à nossa proximidade corporal, vê-la integralmente.

A relação entre a lua e o sol se faz presente em outra obra, “Canhão”, em que os astros em movimento eclipsar são transformados em um canhão de luz no espaço expositivo. Utilizando uma televisão de tubo envolta em caixa de papelão como forma de projeção, a artista parece apontar para, novamente, uma apreensão banal e antimonumental dos astros. Eis a lua-sol com uma utilidade patética no mundo terrestre; eis um canhão de luz, assim como poderia ser uma luz de teatro. Processo semelhante é visto em “Sol”, em que uma imagem do astro é capturada de dentro de um observatório astronômico e também é vertida em um instrumento de iluminação da sala.




Um ouvido atento perceberá que em “Canhão” há um insistente ruído de pessoas gritando e celebrando o eclipse capturado pela câmera. Tenha a impressão de que as inquietudes artísticas de Mayana Redin circulam em torno da observação desse ato: por que a humanidade insiste em se impressionar de modo tão efusivo e, mais do que isso, criar expectativas em torno desses astros? Qual o lugar de uma iconografia da astronomia em um mundo tão embebido pela proliferação de imagens e pela ausência de fronteiras entre banalidade e erudição? Devemos ter uma postura cética ou espiritual perante esses fenômenos naturais que nos rodeiam? Devemos ser gratos pela vida e aplaudir o pôr-do-sol ou cínicos e esperar pelo momento em que algo se chocará com a Terra e dará um fim a tudo?

Na ausência de respostas claras para essas inquietações, cabe à artista (e aqueles que a acompanham) seguirem arquivando pequenas escuridões.



(texto publicado originalmente na Artnexus de março-maio/2017)

terça-feira, 11 de abril de 2017

Flúor



Tem chamado a atenção de críticos e curadores as pesquisas de artistas contemporâneos que giram em torno do entrelaçamento social, da tactilidade e de fazeres que intercalam a potência de linguagens como a pintura, a colagem e a escultura, com a magia e rituais. Os artistas aqui destacados tocam nessas questões de maneiras bem diferentes.

Os trabalhos de Samara Scott são pensados para ocupar espaços específicos como elevadores e superfícies de água, por vezes se apresentando como pequenas piscinas. Dentro deles vemos resquícios da indústria de consumo transformado num excesso cromático representado não apenas por objetos, mas pelos próprios líquidos que ela utiliza como iogurte e corantes alimentícios.

Zadie Xa trabalha tanto com colagens feitas a partir de diferentes pedaços de têxteis, quanto com ações ensaiadas para o público. Um de seus maiores interesses é pensar a identidade asiática em territórios não-orientais como o Canadá e Londres. Para tal, a apresentação de danças e pequenas encenações é essencial, além da sua produção de objetos feitos com partes advindas de diferentes contextos.





Já Hana Miletic também trabalha com tecelagem, mas a partir de um diálogo direto com o espaço público. O ponto de partida de alguns de seus trabalhos são carros acidentados e elementos da paisagem que, após serem registrados, são referenciados plasticamente. Não só esses objetos são apresentados em exposições, como também diferentes grupos de estudos são convocados para escreverem textos e realizarem falas a seu respeito.

Caragh Thuring também trabalha de modo colaborativo com uma comunidade de tecelões. Eles foram convidados para recriar em tapeçaria seus trabalhos antigos para, na sequência, a artista intervir diretamente sobre esses objetos com pintura. A artista também busca, portanto, uma autoria compartilhada e uma revisão das linguagens tradicionais das artes visuais.




O prazer é um dos elementos essenciais da pesquisa de Matthew Lutz-Kinow. Além de sua produção de objetos, o artista é conhecido por suas instalações e happenings em que elementos da cultura queer são lembrados através de ações realizadas com seu corpo e convidados. A dança, portanto, é essencial para sua investigação, em especial quando associada à música eletrônica.

Por fim, o projeto Abravana, de Ricardo Castro, também articula dança, música e cultura pop para por vezes chegar em um resultado que beira o nonsense. Em seus trabalhos, há um claro interesse na fricção entre o digital, o esotérico e o tropical. O corpo do artista se move e estimula o movimento do público; suas exposições viram grandes festas e celebrações à brevidade da vida.

(texto publicado originalmente na edição de abril da Bazaar Art Brasil organizada pela editora convidada Gisela Domschke. Os artistas aqui citados foram todos sugeridos pela editora, assim como texto foi editado pela mesma)