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sábado, 18 de março de 2017

Alair Gomes



Após passar com importante repercussão pela cidade de São Paulo, a exposição “Alair Gomes: percursos” pousou sobre a cidade-natal do fotógrafo: o Rio de Janeiro. Com curadoria de Eder Chiodetto, a exposição trouxe à Caixa Cultural quase trezentas fotografias realizadas pelo artista em um arco temporal que se estende da década de 1960 ao final de 1980.

Nascido em 1921 e falecido em 1992, Gomes se dedicou à fotografia desde 1965 e produziu cento e setenta mil imagens, em sua maioria segue inéditas por questões relativas a direitos autorais e de reprodução de imagem. O fotógrafo começou a ter um reconhecimento internacional maior depois da grande sala dedicada à sua obra na Bienal de São Paulo de 2012, sob curadoria de Luiz Pérez-Oramas. De lá para cá, o MOMA comprou algumas de suas obras e tem estudado a sua produção.

A exposição trazia ao público carioca séries de fotografias que possuíam enfoques diferentes, mas que versavam sobre sua maior obsessão: o corpo masculino jovem, atlético e desnudo. Ao caminharmos pelo espaço expositivo, sua insistência no tópico era perceptível através de uma expografia que optou, felizmente, por uma organização de suas imagens que nem sempre se dava de modo linear. Por mais que seja possível afirmar que cada área da mostra tratava de uma de suas diferentes séries, era interessante notar que o modo como as imagens eram sequenciadas na superfície era variado e muitas vezes se incorporavam os espaços vazios entre as imagens como elemento compositivo.


Essa observação pode parecer banal, mas frequentadores de exposições de fotografia sabem do grande desafio que é dispor as impressões no espaço arquitetônico. A extensa produção de Alair Gomes se deu de modo relativamente solitário – seja através do embate entre fotógrafo e fotografado nas imagens mais posadas produzidas dentro de seu apartamento, seja no seu usual ato de voyeurismo metropolitano ao registrar homens de sua janela. Esse modo de organização espacial me parece, portanto, endossar certa “domesticidade” de suas imagens e evitar uma monumentalização das mesmas pelo entorno já austero de qualquer cubo branco.

Dentre as fotografias mostradas, se encontravam imagens com maior circulação, como as séries “Sonatinas, four feet” (1970-1980) e os “Beach triptychs” (anos 1980). A primeira dessas séries reúne fotografias de pequeno tamanho que, sequenciadas, criam uma narrativa temporal. Os gestos capturados, porém, são banais e o distanciamento do corpo do fotógrafo em relação aos homens contribui com a ausência de dramaticidade. O uso do preto-e-branco também induz a um olhar silencioso sobre esses corpos; quase sempre dois jovens, eles se colocam de pé em frente ao outro, parecem conversar e nos intervalos se exercitam. Já em “Beach triptychs”, o preto-e-branco somado à proximidade da câmera em relação aos modelos realça o caráter escultórico da imagem. Se nas sonatas os homens eram parte da paisagem esportiva da cidade, aqui eles são o prato principal e servidos ao olhar do público como pedaços de carne. Eis aí diferentes maneiras de eternizar a construção social (e histórica) de certas formas de expressão da virilidade do corpo masculino no Rio de Janeiro.


O sol ainda é um dos protagonistas na série “The course of the sun”, feita por Gomes também de seu apartamento, mas agora com o interesse de capturar um corpo específico em movimento. Fotografados sempre do alto para baixo, os corpos novamente se apresentam de modo monumental, mas agora desde uma perspectiva assimétrica. As sombras impressas sobre o chão demonstram o poder do calor na cidade e a ausência de frontalidade facial desses homens pode remeter à expansão da metrópole e seu crescente número de anônimos. Da luz no espaço público para a luz de holofotes no seu quarto, é na série “Symphony of erotic icons” (1966-1978) que a nudez aparece de modo explícito na produção de Alair Gomes e curatorialmente contraposta às fotos que produziu do estatuário clássico na Europa (“A new sentimental journey”, 1969). Interessante notar como a maneira como enquadrou os órgãos genitais esculpidos em mármore e aqueles que foram produzidos com a atividade física banhada pela ociosidade burguesa do Rio de Janeiro apontam para a mesma direção formal.

Por fim, estavam também presentes séries cuja exposição foi rara ou se dava ali de modo inédito: “Esportes” (1967-1969), em que o corpo atlético masculino novamente salta aos olhos e, já de modo mais surpreendente, “Hippies – Feira da República” (1969). Essa última série chama a atenção por ser dedicada à observação de um espaço urbano banhado pela experimentação cultural e sexual promovida pela cultura hippie. Estes são os raros momentos da exposição em que o corpo feminino e a possibilidade de registrar faixas etárias para além de seus efebos se faz presente. Além disso, claro, o fato dos fotografados não estarem nus ou seminus certamente se apresenta como outro diferencial.


Sai-se da exposição com uma constatação do óbvio: Alair Gomes era um grande criador de imagens. Seu olhar afiado e sua obsessiva espera pelo momento ideal para o clique levou a essa qualidade e profusão produtiva. Cabe também, porém, olharmos para sua obra cada vez em diálogo com questões que surgem constantemente na contemporaneidade quanto à contemplação de imagens e fazermos algumas perguntas: qual o espaço para corpos masculinos não-atléticos em suas imagens? Qual o lugar das mulheres em suas preocupações estéticas? Por que apenas se percebiam corpos negros em suas fotos na citada série “The course of the sun” – onde, ao mesmo tempo, o rosto não se fazia presente?


Não se trata, percebam, de uma crítica anacrônica à sua produção, mas sim de um esforço em notar que talvez suas imagens sejam capazes de fazer vir à tona, por exemplo, tensões raciais em voga nesse período das décadas de 1960 a 1980 sobre os frequentadores das praias do Rio de Janeiro. Ou, por outro lado, olhar suas imagens também como interessantes objetos de estudo em torno da machofilia tão comum na cultura carioca – em especial na cultura gay masculina.

Muitos outros percursos devem ser estabelecidos a partir das imagens do grande Alair – quiçá com a maior revelação e divulgação de sua obra (como essa exposição sabiamente fez), seja possível seguirmos a desdobrar criticamente sua produção.



(texto publicado originalmente na Artnexus de março-maio/2017)

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