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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Reformar


REFORMAR é uma exposição construída a seis mãos pelos artistas Reginaldo Pereira, Renata Cruz e Renato Leal. Mais do que uma exposição coletiva, poderíamos afirmar que se trata do encontro entre três artistas que se transformaram em bons amigos e que pensaram detalhe a detalhe deste projeto, entre ideias mil e cafés.

O ponto de partida dessa proposição foi o encontro deles com o espaço do Sesc Santo André – como responder à peculiar arquitetura do prédio? Após observarem a Galeria do espaço e notar os painéis instalados para receberem obras, a faísca foi dada e os artistas optaram por se apropriar da materialidade das estruturas. Em vez de se utilizar das paredes móveis como suporte para suas obras bidimensionais ou tridimensionais, REFORMAR traz (desde o seu título) o desejo de repensar as possibilidades expográficas a partir da apropriação escultórica dos painéis. A naturalização, portanto, desse dado no espaço é descartada, e os artistas convidam o público a estranhar o todo.

Essa exposição é constituída tanto por trabalhos individuais dos artistas, quanto por propostas espaciais criadas coletivamente. É possível estabelecer pontos de contato entre as obras dos três no que diz respeito à semelhança formal ou poética, porém fica também o convite ao público para que perceba suas diferenças. 

Os quatro textos seguintes contribuem para o olhar do visitante e tocam em alguns dos aspectos centrais da exposição: cor, geometria, luz e corpo. Espalhados em pontos específicos da exposição, essas linhas escritas desejam incentivar a ampliação de leituras dessa reunião de trabalhos e estabelecer conexões das imagens entre si e com referências externas. 

Diferente de textos de parede, essas folhas de papel pedem para serem levadas para casa e convidam o leitor a se lembrar e ativar a exposição à distância. O desejo de reforma, por fim, nasce aqui e anseia em se espalhar por diferentes esferas vitais do público.

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COR

Um dos aspectos que chama a atenção em REFORMAR é a paleta de cores utilizada pelos artistas. Na pesquisa de Renato Leal em torno do encontro entre as ideias de desenho e repetição, o preto e o cinza são as cores mais constantes. Um olhar mais atento perceberá, porém, que não se trata exclusivamente do uso dessas cores, mas sim de seu contraste com as superfícies brancas onde são colocadas. Quando se caminha por dentro do Sesc Santo André, percebe-se que esse leque de cores é o mesmo utilizado nos pisos e em alguns detalhes de sua arquitetura. Essa sobriedade no uso da cor ganha elementos diferentes com as obras de Reginaldo Pereira. O universo dos objetos utilitários de uso burocrático interessa ao artista e os tons de madeira industrial das pranchetas que costuma utilizar, dialogam com o seu uso em outras peças. Em um de seus trabalhos o azul (em tom semelhante ao encontrado em notas fiscais) é cortado e cria composições geométricas, enquanto ao lado se destaca de modo preciso o verde de uma lança de São Jorge. Esses tons de madeira estão presentes tanto em seu trabalho, quanto nas estruturas criadas pelos artistas para problematizar a materialidade dos painéis. Por fim, nas obras de Renata Cruz e no seu uso da aquarela, as opções cromáticas se colocam de modo um pouco mais distante de seus colegas. No seu livro mostrado aqui, objetos coletados e vistos como insignificantes pelo público são representados de modo fiel e colorido. Enquanto isso, mais a frente, a artista coletou as diferentes cores encontradas no espaço arquitetônico do prédio e criou uma paleta que convida o espectador a seguir sua caminhada pelo Sesc, porém de modo mais atento quanto às cores que aparecem por muitas vezes de modo discreto em seu entorno. Mesmo com suas claras diferenças quanto ao uso da cor, é possível afirmar que nenhum dos artistas lida com esse elemento de modo exagerado ou radical; independentemente de sua tonalidade específica, a cor sempre carrega consigo certo silêncio e discrição. 

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GEOMETRIA

Toda construção arquitetônica é, inevitavelmente, uma projeção geométrica. Seja um prédio modernista projetado por um escritório, ou um edifício indígena construído coletivamente por um grupo de indivíduos, é possível afirmar que todo edifício responde a uma projeção mental que parte de uma forma. No caso do Sesc Santo André, o prédio foi projetado por quatro arquitetos – Arthur Delgado, Fernando Pires, Tito Livio Frascino e Vasco de Mello – em 1992, e concluído em 2002. Seu pé direito alto e suas rampas que cortam as salas e criam andares diferentes para o público e eventos organizados, chamam a atenção de seus frequentadores. O mesmo pode ser dito sobre as obras aqui apresentadas, que também perpassam essa relação entre forma geométrica e imagem, projeto bidimensional e construção tridimensional. Os livros de Renata Cruz e Reginaldo Pereira são, por si só, formas geométricas que organizam imagens. As obras de Renato Leal articulam alterações na forma que se dão em um espaço específico. Assim como o deslocamento dos ponteiros de um relógio, seu cubo se move sequencialmente até chegar ao formato de um triângulo. De modo semelhante, outra de suas peças colocadas no chão convida o público a reformar geometrias de diferentes volumes e escalas. É também a geometria e sua relação com a arquitetura que permite que o olhar de Reginaldo Pereira preencha com concreto cantos de livros e envolva blocos de papel. Este interesse pela geometria fez com que Luiz Sacilotto, importante artista construtivo brasileiro nascido em Santo André, elegesse as linhas retas e as cores primárias como suas maiores obsessões. Sua importância para a cena local e para a história da arte no Brasil levou à apropriação de Reginaldo Pereira de um livro e preenchimento de seu canto com concreto. O passado é ecoado pela exposição, mas ao mesmo tempo recodificado pela ação do presente – assim como toda arquitetura sofre as intempéries do tempo.

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LUZ

A geometria de um edifício costuma ser pensada em relação a outro elemento essencial do fazer arquitetônico: a luz. A posição de um prédio e sua relação com o sol e outros fenômenos naturais é uma das primeiras preocupações na articulação entre arquitetura e engenharia. Assim como um pintor, os arquitetos podem brincar com nuances entre claro e escuro, iluminação e sombra. Esse elemento estrutural do ato de se construir levou os artistas a inserirem elementos na exposição que versam sobre ele. Um deles é um recorte geométrico feito na cobertura de um dos espaços criados, desenho retirado de um detalhe da obra de Sandra Cinto, artista nascida em Santo André e que realizou um extenso mural em azulejo que percorre grande parte da piscina do Sesc. REFORMAR presta também uma homenagem à Lina Bo Bardi, trazendo um de seus painéis expográficos de vidro e concreto ao espaço. A partir dessa presença, os artistas apontam para uma reflexão não apenas sobre a luz, mas também à ideia de transparência. As relações, portanto, entre geometria, luz e cor são indissociáveis e essenciais tanto para os artistas, quanto para os espectadores. 

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CORPO

Ao se falar sobre arquitetura e edifício, por vezes nos esquecemos de frisar aqueles para quem as construções foram erguidas: as pessoas. O corpo humano - desde Vitrúvio e a arquitetura na Roma antiga - é a unidade básica para se pensar formalmente os anseios e limites das construções. O mesmo pode ser percebido quanto ao Sesc Santo André: sua grande escala é diretamente proporcional ao desejo de ser um espaço de encontro de pessoas. Quando os artistas da exposição resolveram utilizar os painéis expositivos não apenas como superfície de suas obras, mas também como elemento tridimensional, inevitavelmente transformaram o recurso expográfico em arquitetura. Após essa opção, intervenções nessas estruturas convidam ao enfrentamento do corpo humano com a escala dos painéis e sugerem a mesma ação futura na relação arquitetônica com o edifício do Sesc. Não devemos nos esquecer que em qualquer exposição é o corpo humano que tradicionalmente se movimenta dentro do espaço e observa os elementos distribuídos. Cada indivíduo possui uma altura e uma forma de andar que fará com que, somada à sua bagagem individual de imagens mentais, tenha uma impressão diversa do que é apresentado. Esse convite ao olhar e a experimentação frontal está presente em REFORMAR, porém, além dele, o público pode participar fisicamente de outras maneiras. Em “Arquitetando”, de Renato Leal, o espectador se torna participador ativo e pode criar composições a partir da sobreposição de cubos e triângulos de madeira. Próximo a esse trabalho, uma escada e um painel vazado lembram o visitante da materialidade de sua estrutura. Logo após, uma parede de madeira proporciona o embate direto entre corpo humano e construção. Além dessa exploração física feita diretamente no espaço expositivo, é importante lembrar que a “Catalogação de insignificâncias” de Renata Cruz, também foi produzida em uma colaboração direta com as pessoas (e os corpos) que vem ao Sesc. Após coletar diversos objetos tidos como insignificantes para os frequentadores da instituição, a artista produziu um pequeno catálogo feito com aquarelas. Na exposição, o público é convidado a folhear um livro resultante da experiência de troca diária e de aprendizado entre a artista e aqueles que contribuíram com sua criação. A exposição, assim como a proposição da artista, foram feitas de pessoas para outras pessoas – como toda construção arquitetônica. É essencial sua presença física no espaço e um tempo de dedicação à fruição e experimentação com os objetos para que a forma com que o todo foi composto atinja o desejado estado de reforma. O título desse projeto é, portanto, um verbo – reformar – por acreditar tanto na necessidade de agirmos no presente, quanto na potência que a arte tem de reconfigurar nossas ideias e aquilo que nos rodeia.

(texto relativo à exposição "Reformar", de Reginaldo Pereira, Renata Cruz e Renato Leal no SESC Santo André realizada entre os dias 12 de outubro de 2016 e 19 de fevereiro de 2017)

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