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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Misheck Masamvu - 32ª Bienal de São Paulo


Mischeck Masamvu tem sua pesquisa artística baseada nas linguagens do desenho, da escultura e da pintura. Geralmente trabalhando com escalas médias ou grandes, a fisicalidade de suas pinturas a óleo cria um apelo que parece desafiar o corpo do espectador. As imagens de Masamvu podem ser vivenciadas a distância, mas também convidam a uma contemplação detalhada de suas proposições narrativas e formais. Em sua pesquisa figurativa surgem não apenas representações da anatomia humana, como também animais, objetos e recortes de paisagem. Longe de qualquer tranquilidade, o artista tensiona seus personagens em cenas que imprimem agonia, imobilização e descontinuidade. Nas cenas retratadas, Masamvu tende a utilizar um grande número de cores que dão movimento e tensão às suas imagens, com pinceladas vigorosas que revelam a energia de suas construções. A despeito da vivacidade da paleta utilizada, a inquietude da experiência humana está sempre presente.

A prática artística de Masamvu surge como uma forma de expressão que comunica e discute o desconforto de uma geração que nasce junto com a independência do Zimbábue, na década de 1980. Nas suas pinturas, testemunhamos a intensificação desse sentimento em meio à situação política atual do país, onde uma redistribuição de terras duramente contestada assumiu uma direção mais efetiva, duas décadas depois da independência. Os corpos desmembrados e a paisagem fraturada em suas obras lembram o intrincado projeto pós-colonial. Nada parece ser resolvido imediatamente – as camadas de cores para sugerir as camadas de tempo falam de corpos exilados, da erosão da família e do próprio indivíduo, da perda da estabilidade econômica, tudo isso refletindo um futuro precário que se anuncia. Essa precariedade é captada no poema/ manifesto “Still” [Ainda] (2016), de Masamvu, que configura uma situação de estagnação e, ao mesmo tempo, de serenidade. O poema/manifesto atua como um repertório de realidades e contradições inerentes ao Zimbábue pós-colonial, e tudo isso converge nas telas do artista. Em grande medida, os versos capturam a dor coletiva vivenciada pelos povos negros em muitas partes do mundo.


Para a 32ª Bienal, Masamvu criou duas pinturas grandes, intituladas Spiritual Host [Anfitrião espiritual] (2016) e Midnight [Meia-Noite] (2016). As pinturas são formas abstratas de membros humanos e seres sobrenaturais que emergem de uma cacofonia composta de ambientes naturais e elementos do subconsciente. Em Spiritual Host, uma figura ancestral jaz verticalmente, asfixiada por uma atmosfera política poluída. Em Midnight, um braço com o punho cerrado se projeta, resoluto, de um amontoado de incertezas, lembrando que a chamada “condição pós-colonial” ainda não se efetivou.

(texto publicado no catálogo de "Incerteza viva", 32ª Bienal de São Paulo, realizada entre 07 de setembro e 11 de dezembro de 2016)

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