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domingo, 18 de dezembro de 2016

Jamaican pulse


Realizada entre os dias 25 de junho e 11 de setembro, a exposição “Jamaican pulse: art and politics from Jamaica and the diaspora” foi realizada no Royal West of England Academy, na cidade de Bristol, na Inglaterra. Conforme os textos compartilhados com o público afirmavam, se tratava da maior exposição já feita em solo inglês a respeito da produção de arte na Jamaica e em uma cidade que concentra o terceiro maior número de jamaicanos no Reino Unido. A exposição, portanto, por si só já se configurava como um evento importante no que diz respeito ao seu ineditismo e desejo de oferecer ao público o que podia ser visto como um panorama da “arte jamaicana” ou, melhor dizendo, da “arte na Jamaica”.

A relação entre a Inglaterra e a Jamaica, importante lembrar, se deu através da invasão, exploração e escravidão da ilha caribenha desde 1655, logo após mais de um século de domínio espanhol. Impressiona lembrar que a independência da Jamaica em relação aos britânicos apenas se deu em 1962 e faz com que o país tenha uma história democrática jovem de pouco mais de cinquenta anos. Aquilo que poderia ser chamado de “passado colonial” não se trata de um fenômeno tão reservado a uma memória dos tempos anteriores, mas ainda se sente diariamente nos diversos problemas sociais percebidos na Jamaica. A relação entre imagem e pós-colonialismo, portanto, se configurava como uma lembrança constante durante o percurso expositivo.


A curadoria feita por Kat Anderson e Graeme Mortimer Evelyn ocupava o espaço expositivo por meio de dois diferentes núcleos. O primeiro, que recebia o espectador na entrada, reunia artistas contemporâneos que vivem na Jamaica ou fora de lá. Já o segundo, intitulado “20th century artworks”, era baseado em obras de coleções importantes como a da National Gallery of Jamaica (Kingston) e a coleção Cavin-Morris, de Nova Iorque. Além das obras ali expostas, uma série de performances e trabalhos colaborativos foi realizada fora do espaço institucional.

Quando o corpo do espectador entrava na primeira sala da exposição – dedicada à arte contemporânea –, era notável o grande número de obras ali reunidas; ficava claro que se tratava de um projeto que se esforçou para atingir seu título de maior exposição desse porte quanto ao número de obras. Por outro lado, essa espécie de horror vacui curatorial impedia que algumas obras fossem contempladas sem a interferência direta de outras. Além disso, eram poucas as obras – com exceção da grande instalação de Andrea Chung – que convidavam o nosso corpo a ter experiências que não fossem tão frontais em relação às imagens. Se por um lado a grande reunião de obras era louvável, por outro era difícil não se questionar se o número de obras não poderia ser menor para favorecer uma forma de mostra-las com mais espaço de respiração.





Dividida em temas que continham textos sobre diferentes aspectos da cultura jamaicana como “No man is an island”, “Mr. Politician Man” e “Out of many, one people”, ao caminhar no núcleo contemporâneo era possível estabelecer alguns vínculos formais e temáticos entre as obras selecionadas. Podemos afirmar que a presença do corpo humano e, mais do que isso, a reflexão em torno do corpo negro e da negritude eram temas que percorriam grande parte das obras ali reunidas. Estatisticamente, a população negra na Jamaica diz respeito a mais de noventa por cento da população total. Mesmo assim, a estrutura socioeconômica desigual do país contribui com o racismo e o confronto entre uma elite econômica que ainda é em sua maior parte branca e as classes mais pobres. Parece natural, portanto, que diversos dos artistas presentes na exposição se questionem sobre aspectos da vivência cotidiana negra na Jamaica.

Logo na entrada da exposição se via uma obra de Ebony G. Patterson, artista de Kingston que nos últimos anos ganhou atenção devido às suas participações na edição deste ano da Bienal de São Paulo e de exposições individuais em Nova Iorque. Sua obra feita do encontro entre pintura, tapeçaria e apropriação de objetos “II Treez in a forest” versa sobre a pose ostensiva do corpo negro masculino na Jamaica decorado com roupas caras e joias em contraste com a potência plasticamente decorativa de suas imagens. Esses rostos, porém, não possuem a cor negra de seus membros e tem sua pele tomada por alvejante para clarear seus corpos. Mais à frente, as pinturas de Kimani Beckford também investigam o protagonismo do corpo negro, mas através de uma fatura mais melancólica. Trajes aparecem ao centro de suas composições e remetem a diferentes posições na sociedade jamaicana, mas um olhar atento perceberá que se tratam de vestimentas sem corpos – fica o ícone do poder, saem as identidades e a possibilidade da negritude estar presente. Ao fundo dessa grande sala, as cores de Leasho Johnson também se destacavam e confrontavam imagens de mulheres negras escravizadas em plantações coloniais de banana e um corpo contemporâneo, sinuoso e sexualizado, em que a mulher é vista entre o emporadamento e a objetificação.

Essa reflexão sobre a relação entre corporeidade, gênero e sexualidade se fazia presente em outras obras que roçavam na problemática presença da homofobia (embasada legalmente) na Jamaica. Camille Chedda apresentava uma pintura em que um célebre monumento de Kingston – o “Redemption song”, de Laura Facey – era recodificado: no lugar de um homem e mulher negros frente a frente, por que não dois homens negros? Essa imagem aciona rapidamente a história da sexualidade no país e possibilita que se estabeleça diálogos, por exemplo, com a extensa pesquisa de Lawrence Graham-Brown em torno de performance e homossexualidade negra e masculina. Além de realizar uma performance em Bristol, o artista mostrou estranhos objetos que refletiam sobre a intimidade das relações humanas. Uma série de fotos era encadernada como uma espécie de diário e era exposto ao lado do que parecia um jockstrap de ícones culturais jamaicanos que almejavam a liberdade política e poética dos corpos.

Como qualquer exposição que tente apresentar o panorama de uma identidade nacional – algo tão comum nas curadorias que tendem a uma nova colonização cultural em museus na Europa e nos Estados Unidos – era inevitável percorrer a exposição e não concluir que a maior parte das obras reunidas acaba por apresentar “temas jamaicanos” para um público estrangeiro. Por vezes, como nesses trabalhados referidos, esses tópicos apresentavam potência; em outros momentos, pareciam ser eclipsados pela insistência dessa seleção curatorial. Por outro lado, as poucas obras que pareciam fugir a esse pertencimento identitário explícito chamavam a atenção positivamente pela sua exploração formal e matérica. Era bom perceber que nem todos os artistas jamaicanos ali mostrados estavam interessados na “jamaicanidade” da imagem – nesse sentido podemos destacar as pesquisas de Deborah Anzinger e seu interesse pela relação entre pintura, escultura, reflexo e instalação, e um interessante objeto de concreto de Camille Chedda que mais do que “mostrar” os clichês jamaicanos, os enterrava e ocultava da visão do espectador.




Creio que o maior problema dessa exposição quanto às suas estratégias curatoriais diz respeito a essa divisão estanque entre o “contemporâneo” e aquilo que poderíamos chamar (mesmo que o termo sempre atrapalhe) de “moderno”. Em vez de criar diálogos transhistóricos e mostrar como alguns tópicos contemporâneos tem, certamente, raízes no passado, o público era apresentado a duas exposições que pareciam irmãs distantes. Talvez fosse mais interessante contrapor obras e também informar mais ao público a respeito de artistas tão importantes para a história da arte na Jamaica como Albert Huie, Everald Brown e Evadney Cruickshank. Suas imagens e seus interesses de pesquisa em campos tão diferentes como os da abstração, da pintura de paisagem e da representação de retratos e tipos jamaicanos – sem falar em suas faturas pictóricas totalmente diferentes – mereciam um cuidado maior para evitar com que a entrada no segmento histórico da exposição não parecesse algo tão enfadonho quanto comparado com a primeira unidade da curadoria.


Mesmo com as fragilidades aqui apontadas, certamente “Jamaican pulse” se configurava como uma importante exposição. Ao sair da exposição, a curiosidade em torno da produção de arte na Jamaica era certamente ativada e convidava a continuar a pesquisar e descobrir outros aspectos, artistas e tópicos da produção de arte na ilha. O pulso da Jamaica apresentado na exposição era certamente acelerado e excessivo, mas esse mesmo aceleramento provocava o desejo por conhecer mais e, se possível, apresentar criticamente outros modos de expor e interpretar imagens a partir da espinhenta relação entre arte, Jamaica e contemporaneidade.



(texto publicado originalmente na Artnexus de dezembro/2016-fevereiro/2017)

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