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domingo, 7 de agosto de 2016

Fé na Atlântida


A Virgem do Alto do Moura, pesquisa artística e divindade criada por Nadam Guerra, caminha para o seu segundo aniversário oficial. Inicialmente apresentada na primeira edição da Bienal do Barro, realizada em Caruaru (Pernambuco), em 2014, a proposição ia de encontro com as histórias da cidade e da região. Na parte alta da cidade, precisamente no Alto do Moura, habitava o Mestre Vitalino, escultor de imagens feitas com barro que se popularizou entre as décadas de 1940 e 1960, falecendo em 1963. Estas obras foram expostas e alavancadas ao estatuto de “arte popular brasileira” e, desde então, viajaram o Brasil e o mundo contribuindo (para o bem e para o mal) com a associação entre o fazer artesanal e a região Nordeste – fenômeno tão bem estudado pelo historiador Durval Muniz em seu livro A invenção do Nordeste.

Enquanto isso, Nadam Guerra, coincidentemente, desde a sua infância realizava experimentos com cerâmica. Formado em Artes Cênicas, seu trabalho como artista visual se inicia pela exploração da performance e de suas associações com o vídeo. A cerâmica, porém, nunca deixou de ser experimentada; se olharmos com atenção, por exemplo, alguns de seus vídeos – penso em "Como sair do buraco" (2007) e "Duas terras" (2008) –, a relação entre o corpo e aquela mesma terra de onde é extraído o barro já era um assunto de seu interesse. Parecia coerente, portanto, que se estabelecesse um diálogo entre a sua trajetória e o encontro com Caruaru e a memória de Vitalino.



A semente dessa proposição é uma provocação: e se, em vez de olhar para a produção de escultura em barro e buscar ali as “raízes do Brasil”, o público fosse convidado a uma odisseia multicultural com elementos de diferentes partes do mundo? Eis que nasce a Virgem do Alto do Moura. Baseada em uma escultura de Vitalino em que se vê uma noiva sendo carregada em um boi com seu marido à frente, esta mulher é alavancada à protagonista da narrativa, sem a necessidade dessa figura patriarcal, mas mantendo seu animal como meio de transporte. Chamada por Virgem, em sincretismo com o cristianismo, ela viaja diversas regiões do mundo que possuem tradições milenares no campo da cerâmica – Caruaru se torna um cometa que atravessa do México a Oceania, sem nos esquecermos da África, da Ásia e das tradições greco-romanas, rumo à Atlântida. A Virgem do Alto do Moura se desdobra entre imagem e texto. Há aqui a vontade de refletir sobre a relação entre documento e ficção, como feito por Nadam em relação ao Grupo Um e seus artistas fictícios com biografias e pesquisas destoantes. O artista convida o público a adentrar essa história que se baseia tanto na fonte textual, composta pelo próprio, quanto nas esculturas relativas às viagens da Virgem, às suas experiências sexuais com diferentes entidades espirituais e, claro, aos seus filhos.

Em 2015, os objetos que foram mostrados em Caruaru participaram de nova exposição individual em Juazeiro do Norte (Ceará), no Centro Cultural Banco do Nordeste, somados a um painel do mapa-múndi com o trajeto percorrido pela Virgem e suas relações com os doze chakras, o que contribuiu para uma melhor compreensão por parte do público. A exposição no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, tem seu início neste último projeto e nas reflexões recentes do artista – mais do que meramente compartilhar objetos com o público e convidá-los a uma experiência de fruição, Nadam deseja expandir o ato ficcional das narrativas dos objetos para a própria organização expositiva. Toda exposição artística é pautada num desejo de estabelecer narrativas a partir da reunião de objetos (ou ações) embebidos de um estatuto – e se o objeto de arte fosse a exposição em si?



Chegamos, portanto, a esta “Redescoberta da Virgem do Alto do Moura” – nossa Virgem caminha de Caruaru para o solo natal de seu criador. Além do conjunto de 38 esculturas em barro dispostas em tradicional mobiliário museográfico como vitrines e púlpitos, uma série de vídeos é apresentado. O primeiro deles, já presente em Caruaru e em Juazeiro do Norte, apresenta uma narração acerca dos passos da Virgem a partir de seus vasos. Feita pelo crítico e pesquisador português Juca Amélio, os objetos são mostrados em um torno e sua fala lusitana se aproxima do compasso de um narrador do Discovery Channel. Em caminho semelhante, “Nas bordas da ciência” apresenta uma reportagem ficcional em que um jovem jornalista entrevista especialistas como a cosmóloga Denise Gonçalves, o historiador Paulo Knauss e a arqueóloga Ruth Mezeck a respeito das relações entre a Virgem, o passado, a pós-arqueologia e a cidade do Rio de Janeiro. 

Esse dado, inclusive, merece ser destacado: as recentes escavações ficcionais de Nadam Guerra descobriram que a Virgem tem uma ligação clara com o território do Paço Imperial. No território próximo ao edifício, foram encontrados vestígios de milenares túneis subterrâneos que conectavam o Rio de Janeiro à Atlântida. Sendo a Virgem uma entidade que parte do sertão de Pernambuco rumo à Atlântida na busca por uma nova ordem mundial pós-capitalista, esses dados não poderiam passar desapercebidos. Junto a essa descoberta, a Roseta da Gávea (uma versão tupiniquim da Pedra de Roseta), escavada logo abaixo da Pedra da Gávea durante a construção da linha Barra-Gávea do metrô (se é que um dia ficará pronta), não deixou dúvidas ao artista de que estes artefatos, ainda nunca mostrados ou debatidos, mereciam a atenção do público.

O culto à Virgem nunca foi tão disseminado como nos últimos dois anos. Esse fervor levou a uma revisão do clássico documentário Na cama com Madonna, de 1991; “Like a virgin”, na verdade, é uma grande música gospel de adoração a esta entidade além-mares, conforme comprova um dos vídeos da exposição. De Hollywood para o Rio de Janeiro, durante a exposição foi realizado um grande cortejo público de Cristália, o Cristo feminino, padroeira do Rio de Janeiro. Feita em tamanho maior e equilibrada sobre os ombros de seus devotos, Cristália foi carregada do Paço Imperial até o sítio arqueológico em que os túneis para Atlântida foram descobertos, no antigo Largo do Moura e na atual Praça XV. O Núcleo de Cultura Popular Céu na Terra acompanhou com sua banda, um grupo de pessoas vestidas de branco se concentrou em conjunto e um santinho foi distribuído com a música composta para a ocasião. De boneca de barro, Cristália foi vertida em elemento de culto fervoroso em um espaço de encontro entre a religião e a festa, entre o culto e o Carnaval. 



As narrativas e o potencial criativo de Nadam Guerra se ampliaram de modo dialógico – do ateliê de cerâmica para o espaço expositivo, da exposição para as bocas dos entrevistados e dessa oralidade para o ato de se cantar em conjunto em busca de esperança e paz. “A Virgem do Alto do Moura” se configura como um projeto que consegue reunir de modo trans-histórico elementos de diferentes tradições iconográficas e acontecimentos politicamente densos como as escavações e alterações topográficas sentidas nas ansiosas preparações para as Olimpíadas no Rio de Janeiro. A possível postura política dessa pesquisa não se dá de modo panfletário e literal, mas convida para a fruição das múltiplas abas que se sobrepõem. Passado, presente e futuro (não esqueçamos de que se trata de uma pós-arqueologia) se misturam sem medo de ser felizes; ao final da exposição, olhamos ao nosso redor e não sabemos mais o que é verdade e o que é mentira – mas não é para esse lugar de incerteza que as imagens potentes nos empurram?

Como diria uma série de pichações com cunho religioso no mesmo Centro do Rio de Janeiro, próximas à Central do Brasil, “Quem adora imagem, adora o diabo!”. O que Nadam Guerra nos mostra, em oposição ao tom imperativo dessa frase, é um elogio ao diálogo entre as diferenças, mas sem deixar de lado o amor às imagens. Deuses ancestrais ou invenções contemporâneas, “qualquer maneira de amor vale a pena”. Perante o caos do presente, só nos resta nos unir a essa multidão e termos fé no retorno futurista de Atlântida.

(texto curatorial relativo à exposição "A redescoberta da Virgem do Alto do Moura", de Nadam Guerra, realizada no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, entre 24 de junho e 31 de julho)

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