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sexta-feira, 11 de março de 2016

“Sonhei que eu acordei e começava a gravar o sonho”


Após a última grande exposição dedicada à memória de Leonilson, realizada na Estação Pinacoteca, em São Paulo, e que viajou posteriormente ao CCBB de Belo Horizonte, o nome do artista volta à tona devido ao lançamento de um documentário dirigido por Carlos Nader. “A paixão de JL”, ou seja, de José Leonilson, baseia a maior parte de suas imagens em gravações feitas em fitas K-7 pelo artista em um percurso de 1990 a 1993. Poderíamos dizer que se trata de um diário íntimo do artista, mas prefiro pensar o gravador como uma espécie de ombro amigo de Leonilson – um personagem, um vocativo, alguém por quem sua voz clama e muitas vezes coloca perguntas que, infelizmente, as máquinas ainda não são capazes de responder.

A direção do documentário opta por ter suas palavras como fio condutor e, mais do que isso, o faz de modo cronológico. Isso leva o espectador, pouco a pouco, às descobertas de Leonilson acerca do mundo, suas viagens e a descoberta de que era soropositivo. É importante lembrar que não se trata da primeira obra audiovisual a utilizar o material sonoro deixado pelo artista, já que a diretora Karen Harley lançou em 1997 o premiado curta-metragem “Com o oceano inteiro para nadar” que, inclusive, possui falas também utilizadas no filme de Nader. De todo modo, as frases de Leonilson são tão potentes que possibilitam que as duas obras coexistam e possuam abordagens diferentes e proporcionais aos pontos de vista de seus diretores.


O filme de Harley se utiliza da fala de Leonilson de modo não-linear, onde sua voz se encontra com planos de paisagem e detalhes de suas obras não necessariamente citadas por seus relatos. Já a obra mais recente e de longa-metragem parte de uma perspectiva mais enciclopédica, onde a fala de Leonilson conduz nosso olhar para filmes dirigidos por Derek Jarman e Win Wenders e referências a televisão, como o Tarzan e a Família Dó Ré Mi. O espectador se lembra também de fatos históricos como a queda do Muro de Berlim e o movimento Diretas Já. Por fim, a sobreposição de obras comentadas pela voz do artista e sua reprodução em imagem no vídeo se torna um elemento interessante para se desmistificar o lugar romântico da criação artística – se apaixonar por um rapaz lindo e ir ao ateliê e iniciar um trabalho novo eram atividades que faziam parte das gravações de Leonilson de modo não hierarquizado. Em “A paixão de JL”, portanto, o artista é alguém inserido dentro um contexto histórico e pode ser interpretado desde aí, assim como o pode ser pela sua obra e também pela sua fala; talvez, ao somar esse três elementos em uma espécie de eloquente colagem audiovisual, o diretor nos sugira que todos eles se fazem essenciais para lapidar através de nosso olhar as suas paixões.

Em ambos os filmes há referência à canção “Cherish”, de Madonna, que Leonilson comenta ouvir e chorar logo após. No curta-metragem de Harley é a voz de Renato Russo que entona a música, ao passo que no documentário de Nader se opta por inserir um trecho do videoclipe de Madonna. Há espaço, portanto, para que os monumentos à memória de Leonilson sejam cantados e dirigidos por vozes muito diferentes. Fica o desejo de que esse lançamento recente contribua com um maior conhecimento do nome de Leonilson pelo grande público e que incite futuros projetos audiovisuais que documentem, ficcionalizem e deem prosseguimento à recodificação de sua obra.


Como diz o próprio artista no começo e ao fim de “A paixão de JL”, “Sonhei que eu acordei e comecei a gravar o sonho” - que suas memórias nos lembrem que a vida, mesmo permeada por tantas tragédias, ainda é capaz de oferecer espaço para o amor, a criação e o devaneio.

(texto publicado na revista DasArtes, edição de março de 2016)

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