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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Marcadores


Este texto é escrito na companhia dos objetos que são matéria para a presente exposição – um pacote de marcadores se encontra fechado ao lado do teclado e uma pilha de livros apresenta pontas coloridas para fora de suas páginas. Uso esses pequenos pedaços de papel com cola para que seja possível retornar em frases e imagens essenciais para os assuntos que tenho pesquisado. Meses depois, ao voltar às páginas, é habitual que me questione o porquê de ter marcado essa e não aquela folha, ou até mesmo não compreenda de nenhum modo o que aquele papelito faz colado ali. Inicia-se, então, a dança dos marcadores: uns dão uma pirueta e pulam seis páginas à frente, ao passo que outros tropeçam, são amassados e amarguram na lixeira. O que é importante deixa de sê-lo e vice-versa em um processo que perdurará enquanto for possível me relacionar com aquele livro.
Ao acompanhar o processo de criação e pensamento espacial de Iris Helena para essa exposição, é possível aproximá-la conceitualmente daquele mesmo costume de marcação de páginas. Sem livros dentro do espaço expositivo, são as paredes da galeria que são marcadas por suas mãos. Os papéis aqui não atribuem importância a um objeto impresso, mas são eles próprios a superfície da impressão. Atribui-se a eles, então, uma importância dialógica aos nomes próprios, conceitos e imagens encontrados nos livros outrora marcados. O formato vertical desses banais papeizinhos recordou um elemento que atrai a atenção da artista desde suas primeiras experimentações com fotografia e impressão: o espaço público. E se as quatro margens dos marcadores formassem um nicho para esculturas que foram impostas à paisagem rotineira das cidades?



A partir dessa pergunta, Iris iniciou uma vasta pesquisa que, mais do que se referir aos monumentos, diz respeito às fotografias de monumentos. Se o ato de realizar uma obra pública a fim de perpetuar uma pessoa ou acontecimento socialmente considerado como importante para a memória de um lugar é perpassado por diversos interesses políticos, não deveríamos nos esquecer de que fotografá-lo e disseminá-lo virtualmente pode endossar tanto sua aceitação, quanto seu repúdio. De todo modo, a fotografia contribui com a perpetuação de sua imagem e com o processo contínuo de monumentalização e mitologia daquilo que pela existência física já era tachado por monumento.
Quando essas fotografias são apropriadas e impressas nesses mínimos marcadores, a escala desses objetos tridimensionais é igualada e sua existência pode ser lida pela chave da patetice – o que levou a humanidade a erguer tantas esculturas de ditadores, imperadores e celebridades que nem quinze minutos de fama chegaram a ter? Como o olhar humano recortou certas pedras e quedas d’água e elevou-as à categoria de monumento? Quantas pessoas foram necessárias para se construir templos, obeliscos e até caixas d’água que explodiram, enferrujaram e foram dominadas pela ação da natureza?


Podemos agrupar essas imagens a partir de suas proximidades cromáticas, assim como os grifos fluorescentes nos livros, cruzando geografias, datas e tipografias de um ficcional álbum de figurinhas. Enquanto isso, alguns desses homens ilustres apontam em direção ao céu – uns sobre cavalo, outros portam suas espadas e um grupo menor se apresenta de modo menos militar. Independentemente do atributo que foi escolhido para dizer ao público sobre sua personalidade, é nítida a ansiedade que tinham pelo futuro e a incapacidade de conferi-lo ainda em vida. Por fim, a artista também agrupou alguns desses monumentos devido a seus percursos históricos recentes – se um terremoto abalou o Nepal e fez com que edifícios seculares se tornassem pó, religiosos extremistas destroem diariamente um pouco mais dos sítios arqueológicos da Síria. Do outro lado do globo, aqui mesmo no Rio de Janeiro, a prefeitura perpetua uma história de demolições de edifícios históricos e segue sua busca por um ideal civilizatório de progresso urbanístico de mais de cem anos.





A fragilidade desses pedaços de papel, facilmente movidos com o sopro de nossas bocas, é proporcional à sua capacidade de permanência física no decorrer do tempo e nos diversos modos de se escrever isso a que chamamos de História. A proposição da artista, mais do que comprar partido panfletário de algum historiador, nos proporciona conectar as imagens de distintas formas e escrever as nossas próprias histórias a partir do redimensionamento dessas verticalidades de pedras, cimento e ferro que fazem sombra sobre nossas cabeças nos dias de verão. Histórias da religião, histórias do autoritarismo, histórias da moradia ou histórias do desaparecimento – que cada um encontre a sua linha de pesquisa nessas imagens.
Assim como a mudança de ideia quanto à importância de uma página marcada, o modo como lidamos com os monumentos aqui reunidos é sempre proporcional à passagem do tempo. O que foi importante ontem, possivelmente não o será amanhã – até chegarmos no momento em que um edifício como o Pavilhão Mourisco (demolido no Rio de Janeiro em 1952) será apenas uma justaposição de palavras descoladas de uma imagem fotográfica ou mental.
Enquanto esse dia não chega, Iris Helena segue em viagem e amplia seu cada vez mais largo percurso de construtora e demolidora de imagens e histórias a jato de tinta.



(texto curatorial da exposição "Marcadores", de Iris Helena, realizada na Portas Vilaseca Galeria, no Rio de Janeiro, entre os dias 02 de setembro e 17 de outubro)

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