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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Algumas perguntas para Marina Abramovic


(perguntas enviadas por e-mail para a equipe da artista Marina Abramovic no dia 17 de março)


- Em 2014, a revista TIME, na sua habitual lista de 100 personalidades mais influentes do ano, te incluiu e convidou James Franco para escrever um texto. Como você se sente, após quarenta anos de carreira, ser chamada de "influente" em uma publicação com o nível de publicidade da Time? O que seria "influência" para você?
Fazer parte dessa lista me deu mais responsabilidade em relação ao público. Foi uma grande honra, mas agora, mais do que nunca, tenho que ser muito clara sobre a minha mensagem e minha função como artista neste mundo.


- Do mesmo modo que sua exposição se passou no MOMA em 2010, em 2014 foi a vez de Lygia Clark, que produzia arte contemporaneamente às suas performances, receber uma retrospectiva. Você esteve na exposição? Você crê que há algum diálogo entre suas pesquisas?
Lygia Clark é uma grande artista brasileira da performance. Eu respeito o seu trabalho, mas não acho que temos nenhuma similaridade direta no que produzimos. Eu acredito, de todo modo, que ambas estamos interessadas em alguns conceitos similares enquanto ser humanos, como os diferentes estágios de consciência que experimentamos e os limites mentais e físicos que compartilhamos.


- Logo após a exposição no SESC Pompéia, você irá a Buenos Aires, para a primeira Bienal de performance de lá. Como você enxerga, tendo em mente sua curadoria de artistas brasileiros para o SESC Pompéia, esse campo da performance na chamada América Latina?
A grande diferença que vejo entre a prática da arte da performance na América Latina e nos Estados Unidos ou Europa é que, na América Latina, ela nunca para; a performance parece estar em um estado constante de evolução e de fluxo. Nos Estados Unidos e na Europa, há sempre períodos de atividade intensa e, em seguida, outros em que o mundo da arte não se volta para ela e a performance é ignorada. Nos Estados Unidos e na Europa, a arte se tornou uma mercadoria, o que nunca pode se aplicar à performance. Por essas diferenças, a performance na América Latina é consistentemente mais vibrante do que em qualquer outro lugar.


- Assistimos recentemente a diversas manifestações de ódio no Brasil - ao governo, aos homossexuais, a estrangeiros, dentre outros diversos coletivos. Esses acontecimentos, certamente, descontroem a imagem romântica do Brasil como nação do diálogo, da liberalidade e da união entre as pessoas. Você acredita que o método que você desenvolve pode vir a contribuir com uma maior escuta e respeito entre os indíviduos? Suas propostas artísticas recentes de participação direta do público podem modificar a sociedade? Seria a arte capaz de fazê-lo em pleno 2015?
Tenho vindo ao Brasil desde 1989, e vejo que muitas mudanças políticas estão acontecendo. Acredito que o país está em um estado melhor hoje do que no passado, durante a presidência de José Sarney. Ainda há tantas mudanças que precisam acontecer, mas, ao mesmo tempo, o país parece politicamente mais consciente do que nunca. Vejo pela adesão do público ao Método Abramovic, para o qual as reservas estão sendo vendidas rapidamente, que estão precisando do tipo de experiência que eu ofereço. Espero que eles possam aproveitá-la e ver que ela se aplica a suas próprias vidas.

(entrevista publicada em versão reduzida na Revista Dasartes, na edição de maio de 2015)