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quarta-feira, 4 de março de 2015

Perspectiva


Uma grande formação rochosa ocupa mais da metade das imagens em movimento de “The conquest of the useless”, de Daniel Beerstecher. Observo a assimetria que as extremidades dessas rochas aqui capturadas entre tons de branco e cinza proporcionam no seu contato com o céu, formando um desenho na paisagem. Enquanto isso, na parte de baixo do vídeo, o vento que passava por este momento no espaço e no tempo cria ondas na estrada que é a base da imagem. Esta soma de calor e movimento proporciona, portanto, outro desenho registrado pelo vídeo, oposto à aparente inércia dos picos nevados que monumentalizam o enquadramento.

Outro fluxo das imagens se dá do fundo para a frente – carros vem de dentro da projeção para força do espaço virtual do vídeo e vice-versa. Uma diagonal se configura como a linha de força do trabalho e é dela que advém a estranha embarcação de rodas comandada pelo próprio artista. Após sua aparição integral perante nossos olhos, compreendemos aquele traço branco e vertical que se fazia presente desde o início da projeção. O fragmento se transforma em um corpo inteiro e este navega de modo veloz devido aos ventos da Patagônia e novamente desaparece - assim como uma miragem ou um carro que nos ultrapassa em um engarrafamento.


Após observar algumas vezes este vídeo de Daniel Beerstecher, me lembrei de um livro clássico da história da arte ocidental e de autoria de Erwin Panofsky, “A perspectiva como forma simbólica”, de 1927. Logo na introdução, o autor cita Albrecht Dürer: “A perspectiva é uma palavra latina que significa ‘ver através de’”. Em seguida, o autor diz que não se interessa por imagens que tenham “simples objetos isolados”, mas sim por aquelas que são uma “imagem completa, transformada (e citamos outro teórico do Renascimento) numa ‘janela’ e quando formos levados a acreditar que olhamos para um espaço através dessa ‘janela’”. Panofsky se refere aos escritos do italiano Leon Battista Alberti e seu tratado “Da pintura”, de 1435.

Creio que voltar a conceitos tão caros à história da arte seja interessante para essa contribuição à interpretação de “The conquest of the useless”. Em primeiro lugar, ao sentarmos perante uma imagem em vídeo é possível nos considerarmos também em uma observação através de uma janela. Mais do que o hiper-realismo de qualquer pintor, as minúcias que o filmar em alta definição proporcionam são algo recente na história das imagens. Diferente, por exemplo, do uso do vídeo nos anos 70 e a exploração da precariedade da imagem (seja para o registro de uma ação física, seja para a exploração de texturas de cor), o audiovisual aqui apreciado se aproxima mais da linguagem narrativa do cinema e do embate entre público e mimese – um grande espelho horizontal.


Mesmo assim, não podemos esquecer que as propostas audiovisuais do artista também dizem respeito a uma experiência tida pelo seu corpo. Seja nesse vídeo ou em “Como vou explicar para o meu pássaro do mundo” (2014) e “Sand am Meer” (2014), o artista parte de seu interesse por explorar distintos tipos de paisagem e, para tal, cria métodos de exploração do espaço. Em “Sand am Meer”, para conhecer as trilhas de areia do deserto do Saara, junta seu corpo a uma prancha de surfe e questiona os passantes sobre superfícies de água para praticar o deslize. Já neste trabalho aqui apresentado, Daniel cria o desafio de percorrer uma paisagem (a Patagônia) através de um barco que não navega sobre a água um dia buscada, mas que é empurrado pelos ventos e seu contato com a terra. Estão presentes as rodas dos automóveis, mas ausentes os motores e artifícios da maquinaria movida a gasolina; trata-se de experimentar a partir do encontro entre natureza e artifício, entre controle do projeto e o acaso da ação do sopro.

Para cada uma dessas experiências que movem a existência do artista, um diferente modo de recodificação através da linguagem audiovisual. Não se trata, conforme conversamos, de criar objetos que seriam chamados rapidamente de “registros da ação”, mas de refletir sobre como uma atividade impossível de se verter literalmente para qualquer mídia, pode se transformar em um trecho audiovisual potente enquanto imagem e ao mesmo tempo documento parcial da vivência.



Parece-me bem pensada, a partir desse ponto de vista, a opção pela imagem longa e estática - no que diz respeito a movimentos de câmera – de “The conquest of the useless”. Trata-se de uma das capturas feitas pela equipe que viajou junto a Daniel e que se empenhou em recortar trechos de seu empenho de navegante por terra. Se a identificação do barco demora, mas sua passagem por nossos olhos não dura nem cinco minutos, o mesmo não pode ser afirmado dos mais de dois anos entre a idealização do projeto, sua viabilização financeira, funcionamento e edição. Tal qual outro célebre alemão famoso por suas expedições pela América Latina, Alexander von Humboldt, um dos responsáveis pelos primeiros estudos de História Natural no nosso continente, Daniel teve de se preparar para seu longo processo de construção do barco de rodas e de fazê-lo funcionar.

Junto a essa lembrança de Humboldt e do arquétipo do “artista-viajante” - termo muito usado pela história da arte para se refletir sobre a presença europeia no continente americano durante o século XIX –, gostaria de retornar às palavras de Panofsky. A sua definição de perspectiva pautada em Dürer, “ver através de”, me parece um ponto de vista interessante quanto à produção de Daniel Beerstecher. Se o enquadramento do vídeo aqui comentado é distante do que seria uma câmera na primeira pessoa do singular, não devemos nos esquecer que o vídeo apenas existe enquanto analogia ao interesse do artista por novos deslocamentos e explorações de lugares então desconhecidos.


Vemos essa paisagem, portanto, sempre “através de” Daniel – porém, jogando com a língua portuguesa, meu “através” não denota “a partir de”, mas está mais próximo de um atravessamento da experiência desse indivíduo no espaço. Observamos, portanto, o modo como essas viagens atravessam o corpo, a memória e os afetos do artista e podem ser recodificados em imagens que estão distantes da necessidade documental e cientificista de muitos outros viajantes que percorreram a América.

As montanhas da Patagônia seguem a ter seus picos nevados e convidar que outros viajantes passeiem sobre seus pés e tenham outras perspectivas sobre a sua imponência. Seja a partir da produção de imagens e/ou escrevendo, difícil é se esquecer do impacto que as viagens tem sobre as nossas existências e como nos constituímos a partir desses atravessamentos de geografias.

(texto publicado originalmente no livro relativo ao projeto "Land-sailor", de Daniel Beerstecher)

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