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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Ocupar


Sete tendas são dispostas em torno do chafariz que se encontra à entrada principal da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Iluminados com luzes de emergência durante a noite, sugerem uma nova forma de ocupação do gramado mais vistoso da instituição. Ao nos depararmos com o título da proposição, porém, a cidade carioca dá espaço para as narrativas de Homero e Virgílio. “E se o Rio de Janeiro fosse Tróia?”, parecem perguntar esses agora sete pequenos equinos iluminados.

Falar em cavalos é também abordar a potência tridimensional. Não são poucas as imagens em que este animal se faz presente através de um caráter monumental. Pensando a partir do Rio de Janeiro, se faz difícil esquecer da estátua equestre que representa D. Pedro I, ao centro da Praça Tiradentes, e que celebra a Independência do Brasil. Cavalos, sejam eles conduzidos por Marco Aurélio em Roma ou por gregos que querem presentear troianos, giram em torno de uma iconografia bélica e nos fazem lembrar que eles foram os primeiros tanques de guerra de milênios de conflitos.




Enquanto isso, ao observar esse número de tendas habitando um espaço aberto como o Parque Lage, vem à tona eventos recentes tanto no Brasil, quanto em pontos tão diversos do mundo como o Egito, a Espanha, Estados Unidos e Hong Kong. Tendo seus pontos altos com o “Occupy Wall Street”, em 2011, e a “Primavera árabe”, em 2010, já tivemos nessa primeira década do século XXI manifestações públicas de insatisfação quanto aos sistemas político-econômicos que explicitam as diferenças gritantes entre classes.

Se as redes sociais se configuraram como importante forma de organização coletiva, os encontros feitos nas ruas sempre foram permeados pela importante presença de objetos que contribuíam com a unidade dos manifestantes. Objetos de descanso após um dia de posicionamento público, tendas de acampamento também foram capazes de construir vilas com habitantes de distintas partes do globo, mas com vontade de mudança. Acampar é ocupar e a geometria das distâncias entre essas pequenas arquiteturas para o corpo traçava novos urbanismos que lembravam aos pedestres que o espaço de diálogo se faz necessário e urgente.





O acampamento organizado por Tiago Cadete substitui o corpo humano de seus interiores por luz. Observados durante a noite, tal qual uma pequena rua de subúrbio, estes pontos iluminam o chafariz e podem ser vistos como ecos desses fatos recentes. Na ausência de um embate entre territórios diferentes (gregos e troianos), a cidade foi palco de um choque entre governantes e povo, entre o Estado e os habitantes. Nessa perspectiva, sim, o Rio de Janeiro teve seus dias de Tróia tropical, mas o corpo-a-corpo foi violento e recontado de modos através de mídias contrastantes.

Como um monumento silencioso de algo que está por vir, fica a esperança de que as ruas da “cidade maravilhosa” sejam ocupadas e habitadas por mais tendas como essas – e que a memória bélica de Tróia fique apenas no campo da História da cultura.



(texto publicado originalmente no catálogo da exposição "Quinta mostra", relativa ao Programa Aprofundamento 2014, da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro)

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