Páginas

domingo, 4 de janeiro de 2015

Curva de quebra-demanda


A palavra “demanda” me parece bem apropriada no que diz respeito a uma aproximação ao trabalho da Associação Massa Falida. Inicialmente, demandar pode significar a necessidade de presença ou atividade nossa e dos outros. Um trabalho como “Vending machine”, de 2012, demanda tanto do corpo dos artistas – os homens que fazem o lugar de máquina dentro de uma caixa –, quanto do público que se interessa pelo consumo a fim de que esses corpos sirvam a eles. 

Por outro lado, ainda a partir desse trabalho, podemos pensar a ideia de demanda por uma perspectiva econômica, isto é, se trata de um trabalho que tem o “poder de demanda”, a capacidade de incitar a vontade de compra por parte do espectador, mas que não garante o ato consumidor. Ao pesquisar em torno dessa relação econômica, apreendi uma série de gráficos que vem da teoria da economia que transformam a relação entre preço efetivo e poder de demanda em uma curva, a chamada “curva de demanda”. 

De demanda a demanda, chego nesse percurso reflexivo em “Mind the gap”, o trabalho aqui apresentado. Sobre uma área do chão, a a.m.f. cria uma superfície de terra e transforma um espaço anteriormente destinado ao grêmio da Faculdade de Farmácia da USP em uma pequena estufa. Se essa pequena plantação demandou que os artistas acionassem a sua capacidade agricultora ou jardineira, o mesmo não pode ser dito de sua conservação diária dado o seu sistema automático de irrigação pelo teto e as lâmpadas que proporcionam o calor necessário para o crescimento vegetal. 



Longe da necessidade da chuva e da potência do sol, o que vemos é um ambiente que está entre a artificialidade de uma engenharia projetada pelos artistas e a permanência da vida através de fenômenos físicos e biológicos. Dentro de uma sala escura dominada pela monumentalidade de um quadrado luminoso, a estufa também pode ser encarada como uma pequena capela com um altar-mor onde Deus, mais do que ser luz, é capaz de demandar que esses pequenos corpos vegetais se enverguem em sua direção. Coincidência ou não, eis o nosso olhar perante uma outra curva que melhor seria batizada por “curva de quebra-demanda”.

Ironicamente, a erva protagonista tem um nome popular que quebra com qualquer burocracia. Mais do que isso, ao ser vinculada tradicionalmente ao orixá Ogum, deus da agricultura, da guerra e também considerado um vencedor de demandas, esta planta é capaz de nos fazer olhar para essa instalação mais uma vez. Longe, felizmente, de se colocar como uma obra panfletária no que diz respeito à reflexão sobre a afro-brasilidade, essas quatro paredes, que por alguns minutos me pareciam uma estufa e que por outros tantos foram vistas como uma capela, agora estão mais próximas de um terreiro.

Tenho a impressão, voltando para o título desse trabalho, “mind the gap”, que é nesses vazios entre imagem, palavra e cultura que a pesquisa de Pablo Viera e Silvio de Camillis ganha potência. A fruição e recodificação de seus trabalhos demanda por parte do público um tempo semelhante ao do trabalho de uma panela de pressão. Entre a economia e a religião, entre a agricultura e a engenharia, os seus trabalhos convidam o público à fruição de uma poética artística capaz de quebrar-demandas tão habituais à carregada burocracia dos cubos brancos e do circuito da arte contemporânea.



Fica o desejo de que essa curva de quebra-demanda siga a crescer saudável e purificadora, sem a necessidade de agrotóxicos.

(texto relativo à instalação "Mind the gap", da a.m.f. (associação massa falida), aberta ao público entre 4 de dezembro de 2014 e 28 de fevereiro de 2015, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo)