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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Figura humana


Ao folhearmos qualquer livro de história da arte que pretende ser um guia da produção de imagens no mundo ocidental, não será surpresa nos depararmos com a repetição de uma mesma forma: o corpo humano. Tanto o seu protagonismo no que diz respeito à escultura greco-romana quanto a sua diversidade de posturas nas pinturas de afrescos mostram que lá está a anatomia humana para, literalmente, dar corpo a narrativas orais ou textuais. Mais do que isso, seria possível ampliar essa visão eurocêntrica da história da arte e perceber a presença humana em um diverso número de imagens, que percorre um espaço tão extenso quanto a distância entre o México e o Japão: construções maias, pinturas ukiyo-e e cabeças iorubas – em todas as culturas é possível apreender tentativas de se representar o corpo humano.

Esta exposição parte desse fascínio, talvez instintivo, entre humanidade e imagem para refletir a partir das possibilidades que o corpo humano ainda é capaz de proporcionar na cultura contemporânea. Pretende-se, porém, mais do que fazer um inventário de figuras humanas, reuni-las através de uma linguagem artística portadora de uma história específica – a pintura. Tema de debates na teoria da arte desde o Renascimento, o lugar da figura humana já foi tanto pensado por um viés matemático, numa busca por uma simetria perfeita entre as partes (como escrevia Alberti), quanto através de um embate direto entre artista e suporte, sem a necessidade de uma mediação pelo viés do desenho, como pregavam artistas e pensadores da pintura veneziana. Entre o desenho e a cor, entre a arte como projeto mental e a imagem como força expressiva, a pintura no Brasil cobriu tetos de igrejas, discutiu a modernidade nas artes visuais e foi “assassinada” e “ressuscitada” por artistas e críticos na segunda metade do século XX.



O que interessa a este projeto é pensar, por meio de imagens, como um grupo de artistas trabalha de modo sistemático junto aos conceitos de figura humana e pintura, palavras tão caras às artes visuais. Em vez de proclamá-la como um panorama da produção pictórica atual no Brasil, mais justo é pensar esta reunião de trabalhos como uma pequena amostra da complexidade da linguagem pictórica em nosso país – pinta-se de Norte a Sul, por meio de pontos de vista existenciais e modos de se construir a imagem dos mais variados.

Para alguns artistas aqui presentes, a relação entre imagem e texto se faz essencial – seja nos títulos das obras, seja nas frases escritas ao lado de corpos que encaram o espectador. Outros pintores já se utilizam da fotografia e, após trabalhar digitalmente na imagem e nas possibilidades de montagem, projetam esse resultado sobre a tela e se entregam aos pincéis. Em contraponto, há quem se orgulhe da importância do desenho, dos esboços e até mesmo da escultura em suas pesquisas. As citações a artistas consagrados – pintores ou não, brasileiros ou não – também são um dado que merece lembrança. Alguns dos corpos que surgem nas telas aqui reunidas proclamam sua brasilidade em alto e bom tom; já outras pinceladas, no que diz respeito ao tema, poderiam ter sido produzidas em qualquer ponto do globo. Algumas telas nos incentivam ao riso, ao passo que outras proclamam sua melancolia e seu deslocamento do mundo por meio da solidão.




Entre as pinceladas violentas que demonstram um esforço físico tal qual o do esporte e as proposições plásticas que lidam com miniaturas sobre a tela, chegando às vezes ao ponto do apagamento da pincelada, sempre se buscou um ponto de contato: o corpo humano. Distante de querer tomar partido de um tipo de pintura, pretende-se aqui trazer ao público a multiplicidade de desejos, geografias, gerações, escalas e materiais de vinte e um artistas que de tradicionais têm apenas a carga de sua profissão como pintores.

Ao fim do dia, assim como uma criança que começa a desenhar imagens da sua família com lápis de cor, os artistas aqui reunidos olham suas pinturas finalizadas, respiram fundo e partem para a próxima. É preciso seguir na construção de novos labirintos que apenas a linguagem da pintura é capaz de fornecer – do mesmo modo que, enquanto público, também sentimos a necessidade de olhar esses corpos pintados, tal qual um espelho.



(texto curatorial da exposição coletiva "Figura humana", realizada na Caixa Cultural do Rio de Janeiro entre os dias 14 de outubro e 14 de dezembro)
[fotos: Mario Grisolli]

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