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domingo, 30 de novembro de 2014

Erro de desenho


Desenhar é um exercício de se colocar entre o controle e o erro deliberado, entre o esboço para um projeto posterior (o desenho como projeto mental) e o espaço de experimentação dado a partir do encontro entre instrumento e superfície. No meio do processo de atualização da versão de 2011 de seu portfolio, Daniela Seixas recebe um aviso de erro do software que utilizava – “a drawing error occurred”. Entre a surpresa e o estímulo que essa mensagem traz à sua pesquisa como artista, resolver salvar a tela de seu computador do modo como estava. Passado algum tempo, novamente a trabalhar nessa árdua tarefa de organizar sua própria produção em um arquivo digital, outro programa se comunica e diz a ela “out of memory”. Mais um Print screen é realizado e agora os erros da informática se converteram em um díptico.

Quando um computador nos avisa que houve um erro de desenho no que diz respeito à organização de um arquivo, poderíamos dizer que se trata de uma notificação que tem toda a razão – errar e desenhar são verbos que caminham juntos e, talvez, possam ser considerados sinônimos. Dado o interesse da artista pela linguagem do desenho desde os tempos da graduação em Artes Visuais na UERJ, as notificações das máquinas parecem mais que apropriadas.


Daniela opta, na verdade, por um tríptico quando insere um outro elemento nessa série de trabalhos, o “Acerca do branco” - about:blank -, a página em branco que muitas vezes recebe o usuário dentro de um dos navegadores de internet e que, coincidentemente, foi a primeira mensagem escrita pelo computador registrada por suas mãos. Nesse sentido, temos a folha em branco, o erro de desenho e a falta de memória a ocupar o espaço expositivo tal como uma cruz.

Ao contextualizar o lugar desses erros, ou seja, circunscreve-los dentro dos quatro lados virtuais que tentavam alterar e melhor organizar o seu próprio cartão de visitas artístico, o portfolio, a palavra “erro” me parece ainda mais potente visto o caráter sempre falacioso de qualquer ordenação de páginas que visa ser uma amostra da pesquisa de um artista. Todo PDF é um erro, toda seleção de imagens que visa com que os profissionais das artes visuais acompanhem de modo expresso uma trajetória é uma curadoria insuficiente – como distinguir os trabalhos que merecem ali estar (os “acertos”) daqueles que não dialogam com o todo ou os quais vemos como desvios em uma trajetória?

Em “De cor (gravar de coração)”, a artista parece tocar nessa questão quando compartilha com o público as tentativas de impressão das páginas de sua dissertação de mestrado. Devido a uma falha do encontro entre as tintas, as palavras se esvaem e as letras se transformam em manchas de cor. O desenho, nessa perspectiva, se coloca como parente próximo da pintura e contraponto do registro certeiro, em preto, de frases precisas.



A partir desse embate entre indivíduo e página se dá um dos elementos da exposição, a ação “duelo/dueto”. A ideia de um desenho errado é algo que também permeia nossa infância e experiências em sala de aula, onde geralmente aqueles que desenham de modo realista são tachados como bons desenhistas. Através, portanto, de um espelho mágico, brinquedo comum às nossas infâncias e que permitia que se copiasse de modo supostamente fidedigno uma imagem, artista e curador se colocarão frente a frente no centro da galeria e tentarão também errar desenhando.

Trata-se de uma parceria que extravasa a atuação profissional no sistema das artes visuais - do mesmo modo que a vida de um trabalho artístico está para além das paredes do cubo branco e das folhas de um PDF. Mais do que amigos, são irmãos por vontade própria há dez anos – ou, como melhor diria o filósofo chinês Mêncio,  “a amizade é uma só mente em dois corpos”. Desenhos da infância, textos da adolescência, rascunhos do mestrado, publicações, trabalhos da graduação, experimentações mais recentes... diversos objetos que são frutos de um pensamento de desenho serão copiados pelo outro desta relação perante os olhos do público.



O que é de minha autoria será compartilhado e apropriado por Daniela e vice-versa sempre sobre a mesma base de papel. Mais do que uma exposição sobre as diversas possibilidades que o desenho pode trazer para a produção contemporânea – seja literalmente, digitalmente ou no campo da performance - , esse evento se configura como uma celebração à troca de cumplicidades entre dois amigos.

A única certeza no que diz respeito a esse ritual de desenho espelhado é o erro; a única esperança que tenho é de que nossa amizade siga na difícil trilha do amor eterno.

(texto curatorial da exposição "Drawing error", de Daniela Seixas, na Zipper Galeria, em São Paulo, entre os dias 4 de novembro e 6 de dezembro)

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A casa dos pais





(para Eduardo Coutinho)

O desejo de realizar a presente exposição veio do trajeto entre a Lapa, bairro do Rio de Janeiro onde resido há quatro anos, e a Rua dos Biólogos, em outro bairro carioca, Jacarepaguá, endereço onde vivi por mais de duas décadas com a família. Naquele lugar entre a felicidade por rever a figura materna e a indignação pelo trajeto de mais de uma hora, me peguei a pensar como era estranha essa fisicalização da distância de um espaço que um dia julguei ser meu e que agora parecia ser tão mais da “outra”, da senhora minha mãe. Como é estranho se concentrar na ideia de que é preciso se planejar e organizar o tempo para ir até a casa que agora é dela e ver o então quarto meu esvaziado de objetos pequenos, mas ainda a ostentar a cama, o armário e o guarda-roupa que mais parecem congelados no tempo ou já no estatuto de uma instalação permanente dentro do cubo branco que esse lugar de descanso se tornou.

Após conversar com os dez artistas presentes nessa exposição nos últimos meses e explicar um pouco o lugar de origem desse anseio curatorial, eis que percebo estarmos sentados durante a montagem compartilhando nossas biografias em torno dos trabalhos a serem alçados para as paredes. O fato de parte desse grupo de pessoas ter se conhecido durante as rápidas horas de montagem e problematizarem a relação entre produção de arte/imagem e autobiografia de modo tão transparente e informal, mas igualmente capaz de pensarem esses dados também sobre uma perspectiva crítica quanto às suas trajetórias como artistas, me fez crer que esse encontro foi especial.




Temos, portanto, distribuídos pelos cômodos da Casa Contemporânea (edifício esse que foi por longo tempo a residência de uma família com ascendência espanhola) uma colcha de retalhos de modos de distanciamento e aproximação de figuras paternas e espaços anteriores de residência. Alguns de nossos pais tem rosto, outros tem mãos habilidosas para a costura e para seguir as linhas de páginas de livros. Algumas de nossas casas tinham quintais para acúmulos de objetos por décadas, outras tinham buracos na parede que precisavam ser tampados com cartazes publicitários. O som e o cheiro da panela de pressão ativa a memória de uns, ao passo que o sal grosso sai da cozinha e é matéria para a escultura que é a passagem do tempo. Por sete vezes uma mãe recebeu as chaves de seu novo lar e este também foi o número de desenhos feitos por um rapaz a observar os cômodos de sua casa por diferentes perspectivas. Uma foi a parede destruída de uma casa para que, um dia, dois cômodos se convertessem em outro um - mas o rastro da queda permanece.

Penso que este encontro dialoga com o último dado numérico: ocupamos essa residência e tentamos transformá-la, novamente, em um espaço único (uma exposição), com a consciência e desejo de deixarmos nossas pequenas marcas – nos parafusos quebrados dentro das madeiras ou nos buracos feitos pelos suportes de televisores. Creio, de modo análogo, que as diferentes perspectivas através das quais os artistas aqui reunidos trabalham diz respeito a uma vontade de escavar parte de suas memórias familiares para compartilhar com o outro, mas com a certeza de que o tempo agirá sobre os objetos artísticos daí derivados e que a poeira, inevitavelmente, tomará conta de nossas histórias.






Dos tons de dourado ao vermelho retirado da capa de um livro, passando pelo peso plúmbico do grafite e o contraste entre o vapor d’água e as embalagens coloridas para consumo; eis aqui o nosso elogio à vida, ao contar histórias e à possibilidade de se fazer arte e curadoria olhando o mundo de um ônibus que ia da Lapa para Jacarepaguá – e que, mais do que isso, vai do artístico para o banal (e vice-versa), sem medo de ser feliz e sem ponto final.






(texto curatorial da exposição "A casa dos pais", realizada na Casa Contemporânea, em São Paulo, entre 25 de outubro e 22 de novembro)